Biologia

Vírus de arqueias têm formas ainda não vistas em outros vírus: limão, garrafa e gota

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Micróbios

Vírus que infectam arqueias, sobretudo as que vivem em calor, acidez ou sal extremos, têm partículas em forma de limão (fusellovírus), de garrafa (ampulavírus) e de gota (gutavírus). São formas observadas até agora só em vírus de arqueias, e não em vírus de bactérias nem de eucariotos. A razão dessas formas ainda não tem resposta firme: há hipóteses para casos isolados, como as caudas do vírus de duas caudas.

Arqueias são um dos três domínios da vida, ao lado de bactérias e eucariotos, e muitas vivem em ambientes extremos, como fontes termais ácidas e lagos hipersalinos. Seus vírus são estudados há mais de quatro décadas. Um vírion é a partícula viral completa, fora da célula. Para ver a forma dele usa-se microscopia eletrônica: na coloração negativa, um sal de metal pesado contorna a partícula; na crio-microscopia, as partículas são congeladas e fotografadas inteiras. A maioria dos vírus de arqueias descritos até hoje infecta hospedeiros cultivados em laboratório, de modo que o catálogo de formas representa só uma parte do que existe.

Um vírus que cresce depois de sair da célula

O vírus de duas caudas de Acidianus sai da célula como um fuso e só depois desenvolve uma cauda em cada ponta, que pode chegar a até 1 µm. Isso ocorre sem célula hospedeira nem fonte de energia.

Limão, garrafa e gota: o que cada forma é

O fusellovírus SSV1 tem capsídeo em forma de limão ou fuso, e a família Fuselloviridae é das mais difundidas entre os vírus de arqueias. O Acidianus bottle-shaped virus, que infecta arqueias do gênero Acidianus, tem cerca de 230 nm de comprimento, com 20 filamentos finos na base larga. Os gutavírus, como o vírus de Sulfolobus newzealandicus, são ovoides ou em gota, com 75–130 nm de comprimento. As três formas foram descritas só em vírus de arqueias.

Por que essas formas existem: o que há de resposta

Não há explicação geral estabelecida. O caso mais estudado é o vírus de duas caudas: as caudas crescem fora da célula, e uma hipótese propõe que isso ajude a achar um hospedeiro novo, num ambiente de poucas células e em que os vírions duram pouco tempo. Essa função não foi demonstrada. Para as formas de limão, garrafa e gota, as fontes consultadas não oferecem teste de função; o que se sabe é que os hospedeiros vivem em calor, acidez ou sal extremos e que seus genes quase não se parecem com os de outros vírus.

Como sabemos que a forma é essa

A forma vem de microscopia eletrônica: a coloração negativa contorna a partícula com sal de urânio, e técnicas como a crio-microscopia fotografam partículas congeladas. Os vírus foram isolados de culturas de arqueias de fontes termais, o que cria um viés: só se vê o que se consegue cultivar. Metagenomas de fontes termais mostram grupos virais ainda desconhecidos, e vírions vistos em amostras sem hospedeiro cultivado têm forma, mas não genoma conhecido. Cada medida de tamanho tem margem, por exemplo 230±20 nm para a garrafa.

Onde essas formas se encaixam no mapa dos vírus

O genoma desses vírus é tão distinto quanto a forma: cerca de 75% dos genes não têm parente identificável. Essa dupla singularidade alimenta o debate sobre a origem dos vírus e de seus grupos, tema de outro artigo. Também é um lembrete de limite: um catálogo feito de poucos hospedeiros cultiváveis subestima o conjunto real, e novas famílias podem mudar a lista de formas exclusivas de arqueias.

Como sabemos

As formas e dimensões vêm de fichas do ICTV e de revisões abertas; a explicação adaptativa das formas é só hipótese, e a figura de vírus em gota ficou pendente.

Fontes

  1. Virus Research — Viruses of archaea: Structural, functional, environmental and evolutionary genomics
    Krupovic, M.; Cvirkaite-Krupovic, V.; Iranzo, J.; Prangishvili, D.; Koonin, E. V. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Genes — Archaeal Viruses from High-Temperature Environments
    Munson-McGee, J. H.; Snyder, J. C.; Young, M. J. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/genes9030128
  3. Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV) / Journal of General Virology — ICTV Virus Taxonomy Profile: Ampullaviridae
    Prangishvili, D.; Krupovic, M.; ICTV Report Consortium · 2018 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1099/jgv.0.001023
  4. Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV) / Journal of General Virology — ICTV Virus Taxonomy Profile: Guttaviridae
    Prangishvili, D.; Mochizuki, T.; Krupovic, M.; ICTV Report Consortium · 2018 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  5. Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV) / Journal of General Virology — ICTV Virus Taxonomy Profile: Bicaudaviridae
    Prangishvili, D.; Krupovic, M.; ICTV Report Consortium · 2018 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1099/jgv.0.001106
  6. Frontiers in Microbiology — A genetic study of SSV1, the prototypical fusellovirus
    Iverson, E.; Stedman, K. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2012.00200
Histórico de alterações
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