Biologia

Tupanvírus: gigantes do Pantanal e do mar profundo com o maior aparato de tradução visto em vírus até 2018

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Micróbios

Os tupanvírus foram isolados de sedimento de lago de soda do Pantanal e de sedimento marinho a 3.000 m de profundidade, na Bacia de Campos (RJ). A partícula tem cauda e mede cerca de 1,2 µm; o genoma passa de 1,4 milhão de pares de bases. Em 2018, traziam o maior conjunto de genes de tradução relatado em vírus: 20 aminoacil-tRNA sintetases e até 70 tRNAs. Falta apenas o ribossomo.

Vírus de amebas com partículas e genomas enormes, os vírus gigantes, formam a família Mimiviridae, a que pertence o mimivírus. Os tupanvírus são parentes distantes dele. Quase todo vírus depende do ribossomo da célula hospedeira, a máquina que lê o RNA mensageiro e monta proteínas, com a ajuda de RNAs transportadores (tRNAs) e de enzimas que os carregam com aminoácidos (aminoacil-tRNA sintetases, aaRS). Em 2018, a equipe da UFMG e de Marselha descreveu duas linhagens, "soda lake" e "deep ocean", cultivadas em Acanthamoeba castellanii e Vermamoeba vermiformis. O que há de extraordinário está na combinação de três coisas: a cauda, os genes de tradução e a toxicidade para células que o vírus nem consegue infectar.

De onde vem o nome

Os autores batizaram os isolados em homenagem a Tupã, figura central da mitologia dos povos guarani e deus do trovão. O nome vem do artigo de descrição de 2018; o gênero proposto é Tupanvirus.

Uma cauda que nenhum outro vírus gigante tem

O capsídeo do tupanvírus lembra o dos mimivírus, com cerca de 450 nm e uma abertura em forma de estrela (stargate). A novidade é a cauda cilíndrica de cerca de 550 nm presa à base. Segundo o artigo de 2019, nenhum outro vírus gigante de ameba descrito até então tinha estrutura parecida. Em Vermamoeba, a cauda se une ao capsídeo logo após a entrada do genoma, e algumas partículas, as "supertupans", passam de 2 µm.

O que o genoma tem e o que falta

Aminoacil-tRNA sintetases carregam cada tRNA com o aminoácido certo; sem elas a tradução não ocorre. O tupanvírus tem as 20, de 67 a 70 tRNAs, fatores de início, alongamento e término da tradução e enzimas que processam RNAs. Falta o ribossomo e quase tudo da produção de energia: o vírus ainda depende da célula.

Como sabemos o que o genoma indica, e o que ele não indica

O genoma foi sequenciado em equipamento Illumina e anotado por programas que buscam genes e tRNAs por similaridade com bancos públicos. A presença dos genes é medida; a função é inferida. Árvores filogenéticas tentaram achar a origem das aaRS, sem resultado conclusivo. Parte da expressão foi confirmada por qPCR e FISH. A toxicidade foi testada com vírus inativado por UV e silenciamento de gene, cada experimento com limites que os autores apontam.

Tóxico até para quem não infecta

Em altas doses, o tupanvírus degrada o RNA ribossômico da ameba e do protista Tetrahymena, que ele não consegue infectar, e leva à degradação do núcleo. Experimentos em laboratório sugerem que isso reduz a predação sobre o vírus e mantém sua população. Os autores ressalvam que não sabem se essas doses ocorrem na natureza nem quem são os hospedeiros nos lagos e sedimentos de origem. Como o efeito vem da partícula, e não da replicação, é distinto de uma infecção comum.

Como sabemos

Os números centrais vêm do artigo de descrição lido na íntegra (PMC) e de três artigos de seguimento; a origem dos genes de tradução aparece como questão em aberto.

Fontes

  1. Nature Communications — Tailed giant Tupanvirus possesses the most complete translational apparatus of the known virosphere
    Abrahão, J. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-018-03168-1
  2. Frontiers in Microbiology — Microscopic Analysis of the Tupanvirus Cycle in Vermamoeba vermiformis
    Silva, L. C. F. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2019.00671
  3. Frontiers in Microbiology — How Tupanvirus Degrades the Ribosomal RNA of Its Amoebal Host? The Ribonuclease T2 Track
    Rolland, C.; La Scola, B.; Levasseur, A. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2020.01691
  4. Scientific Reports — Tupanvirus-infected amoebas are induced to aggregate with uninfected cells promoting viral dissemination
    Oliveira, G. et al. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-018-36552-4
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)

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