Oceanografia

Tubarões e raias: 32,6% das espécies avaliadas estão ameaçadas, e o que sustenta e limita esse número

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

Na reavaliação global publicada em 2021, 391 das 1.199 espécies de tubarões, raias e quimeras estavam ameaçadas de extinção: 32,6%. O número vem de avaliações espécie por espécie, feitas pelo método da Lista Vermelha da IUCN. Ao estimar também as espécies com dados insuficientes, o valor sobe para 37,5%. A sobrepesca afeta todas as espécies ameaçadas e é a única ameaça em 67,3% delas.

A Lista Vermelha da IUCN classifica cada espécie numa categoria de risco; "ameaçada" reúne as três mais altas: Criticamente em Perigo, Em Perigo e Vulnerável (os critérios têm post próprio). Tubarões, raias e quimeras formam a classe Chondrichthyes, os peixes de esqueleto cartilaginoso. Nem toda espécie tem dados suficientes para ser classificada: as que ficam sem categoria entram como "Dados Insuficientes" (DD, do inglês Data Deficient). Por isso o resultado aparece em duas versões: a contagem direta de espécies ameaçadas e uma estimativa que leva em conta as espécies sem dados. Os dois números respondem a perguntas diferentes e não devem ser misturados.

Quase meia espécie sem dados

Na primeira avaliação global, de 2014, 46,8% das 1.041 espécies avaliadas estavam como Dados Insuficientes. Parte do salto de 24% para 32,6% em 2021, segundo os autores, vem de informação nova, não só de piora.

Como sabemos: uma avaliação, espécie por espécie

A proporção não vem de uma contagem de animais, e sim de um resultado por espécie: cada uma recebe uma categoria da Lista Vermelha. A reavaliação de 2021 cobriu 1.199 espécies de tubarões, raias e quimeras, e 391 ficaram nas categorias de ameaça. Os autores declaram que a maioria é ou foi membro voluntário de um grupo de especialistas da IUCN. A porcentagem, portanto, mede quantas espécies estão ameaçadas, não quantos indivíduos restam.

O que o número esconde: as espécies sem dados

Em 2014, 46,8% das 1.041 espécies avaliadas eram Dados Insuficientes. Sem categoria, não entram na contagem de ameaçadas; por isso os autores estimam. Em 2014, a modelagem levou de 17,4% (contagem) a cerca de um quarto. Em 2021, aplicar a porcentagem às espécies sem dados dá 37,5%. Esses valores são estimativas e dependem da premissa de que as sem dados se parecem com as demais. A diferença entre 24% e 32,6% inclui, segundo os autores, informação nova.

De que depende: pesca e biologia

Em 2021, a sobrepesca aparece em todas as 391 espécies ameaçadas e sozinha em 67,3%; as outras ameaças se somam nas demais. O grupo é sensível porque muitas espécies têm crescimento populacional baixo. Em 2014, o risco era maior em espécies grandes e de águas rasas, e cinco das sete famílias mais ameaçadas eram de raias. Um estudo de 2023 conclui que reduzir a mortalidade por pesca é essencial para melhorar a situação.

E no Brasil?

Um estudo de 2023 sobre o comércio em São Paulo diz que o Brasil tem a 11ª maior captura de tubarões do mundo e que mais de 30% das espécies de elasmobrânquios do país estão em risco. Esse último número é repetido de segunda mão, e a avaliação nacional que o sustenta usa o processo do ICMBio, descrito em outro post. A proporção global de 32,6% não deve ser aplicada automaticamente à fauna brasileira.

Como sabemos

Os números centrais vêm do resumo da avaliação de 2021 (texto integral bloqueado) e se apoiam no texto integral de 2014; o recorte do Brasil é de segunda mão.

Fontes

  1. Current Biology (Cell Press) — Overfishing drives over one-third of all sharks and rays toward a global extinction crisis
    Dulvy, N. K. et al. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2021.08.062
  2. eLife — Extinction risk and conservation of the world's sharks and rays
    Dulvy, N. K. et al. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.7554/eLife.00590
  3. Molecular Biology Reports — Endangered shark species traded as "cação" in São Paulo during the COVID-19 lockdown: DNA-barcoding of a snapshot
    Zuccolo, V.; Rego, F. M.; Hughes, E.; Griffiths, A. M. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s11033-023-08876-6
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Conservation successes and challenges for wide-ranging sharks and rays
    Pacoureau, N. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2216891120
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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