Zoologia

Como se contou a perda de cerca de 3 bilhões de aves na América do Norte desde 1970: censos e radar

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

A perda líquida de cerca de 2,9 bilhões de aves reprodutoras (29% da abundância de 1970) vem de levantamentos de campo padronizados, que cobrem 529 espécies. Uma segunda medição, independente, usa a rede de radares meteorológicos dos EUA e indica queda de 13,6 ± 9,1% na passagem noturna de biomassa migratória entre 2007 e 2017, apenas no leste do país.

O número vem de um artigo de 2019 na revista Science. Os autores partem de programas de contagem de campo, feitos por observadores treinados, e de estimativas do tamanho de cada população. Para cada espécie, combinam a trajetória ao longo de 48 anos com o total de indivíduos e somam ganhos e perdas. Por isso é uma perda líquida: espécies que cresceram, como as aves aquáticas caçadas sob manejo, entram com sinal positivo. O artigo conta aves reprodutoras (adultos que se reproduzem na região), não todas as aves vivas. O radar entra como segunda régua: ele não conta indivíduos, mede o quanto de matéria viva atravessa o céu à noite durante a migração. Os dois métodos cobrem períodos e áreas diferentes e não se somam.

A perda não é só de espécies raras

A maior perda proporcional ficou com as aves de pradaria, que perderam mais de 700 milhões de indivíduos (53%) em 31 espécies. Espécies comuns e espalhadas pesam mais no total do que as raras, porque cada uma tem centenas de milhões de indivíduos.

O que 'perdidas' significa aqui

O artigo estima uma perda líquida de 2,9 bilhões de aves reprodutoras entre 1970 e 2017. Líquida quer dizer que já desconta os ganhos: 38 famílias somam perda de 3,2 bilhões e 29 famílias somam ganho de 250 milhões. Não são 3 bilhões de aves mortas num ano, nem de espécies extintas: é a diferença entre a população estimada de 1970 e a de 2017, com adultos que se reproduzem.

Como as contagens de campo funcionam, e seus vieses

Programas como o BBS fazem contagens de 3 minutos em paradas ao longo de rotas de estrada, em junho, por observadores treinados. A contagem não é o total de aves: muda também com o observador e com a detecção. Por isso os modelos incluem um efeito de observador. Para chegar a bilhões, as tendências precisam ser casadas com estimativas de tamanho populacional, outra fonte de incerteza que o intervalo de 2,7 a 3,1 bilhões incorpora.

O que o radar acrescenta, e o que ele não prova

Radares meteorológicos foram feitos para chuva, mas também devolvem sinal de animais em voo. Eles dão biomassa, e converter em número de aves exige assumir um tamanho médio por ave. O radar também capta insetos e morcegos, então a separação precisa de filtragem. No estudo, a queda de 13,6 ± 9,1% aparece no leste dos EUA e em apenas 10 anos; não vale para todo o continente.

Quão firme é o número

A direção do resultado é bem sustentada: duas técnicas independentes apontam perda. O valor exato é estimativa: depende de modelos de tendência e de tamanhos populacionais, cada um com incerteza. Os autores consideram o número conservador por contar só a fase reprodutora; isso é argumento deles, não medição. Cobrir 76% das espécies reprodutoras também deixa 24% de fora da conta.

Como sabemos

Os números centrais foram conferidos no texto principal do artigo, mas o material suplementar com os métodos detalhados não foi lido.

Fontes

  1. Science — Decline of the North American avifauna
    Rosenberg, K. V.; Dokter, A. M.; Blancher, P. J.; Sauer, J. R.; Smith, A. C.; Smith, P. A.; Stanton, J. C.; Panjabi, A.; Helft, L.; Parr, M.; Marra, P. P. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aaw1313
  2. U.S. Geological Survey — BBS - About (North American Breeding Bird Survey)
    USGS Patuxent Wildlife Research Center · 2023 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. PLoS ONE — Modeling trends from North American breeding bird survey data: a spatially explicit approach
    Bled, F.; Sauer, J.; Pardieck, K.; Doherty, P.; Royle, J. A. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0081867
  4. Scientific Data — Biological data derived from European weather radars
    Desmet, P. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41597-025-04641-5
  5. Ecology — Structuring the skies: Diel dynamics of migratory animal movement in the lower atmosphere
    Giuntini, S. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/ecy.70247
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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