Geografia

Torres de água da Ásia: o degelo pesa mais nos rios secos do oeste, e quanto exatamente ainda se discute

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Água na Terra

Acima de 2.000 m, a neve derretida responde por 65 a 72% do escoamento do Indo, do Amu Dária, do Sir Dária e do Brahmaputra, e por 43% no do Ganges, segundo um modelo de 2019; o gelo de geleira pesa bem menos. No oeste seco o degelo sustenta o verão, no leste a monção domina. As estimativas de cada parcela ainda divergem entre estudos.

Uma "torre de água" é uma cadeia de montanhas que guarda água como neve e gelo e a entrega aos rios; o termo vale para a Ásia e para o mundo todo. A água que desce tem três origens distintas: a chuva, a neve sazonal, que se renova a cada inverno e derrete na primavera e no início do verão, e o gelo de geleira, um estoque de décadas a séculos que só entra no rio quando derrete. No oeste da Alta Ásia quase não chove no verão e o rio vive do degelo; no leste, a monção traz a maior parte da água. Quanto gelo as geleiras perdem por ano, e como isso é medido, está em outro artigo da série; aqui a pergunta é de quem depende a vazão.

Em verão de seca, o degelo vira a água dominante

Segundo um estudo de 2019, em verões de seca o degelo das geleiras domina a entrada de água no alto Indo e nas bacias do Aral e do Chu/Issyk-Kul. É a função de reserva do gelo: pesa menos que a neve na média, e mais quando a chuva falha.

Neve, gelo e chuva pesam de modo diferente

No modelo de 2019, acima de 2.000 m, a neve derretida responde por 65 a 72% do escoamento no Indo, no Amu Dária, no Sir Dária e no Brahmaputra e por 43% no Ganges, onde a chuva (52%) supera o degelo (cerca de 48%). A neve fornece o grosso da água no início da estação de cheias. O gelo de geleira entra mais tarde, quando a neve acaba, e funciona como reserva em anos secos; no Himalaia úmido é mais reserva do que fonte principal. Em toda a região, o degelo da neve é cerca de 10 a 20 vezes o do gelo.

Como sabemos: um modelo calibrado com satélite e vazão medida

Ninguém mede o degelo de uma bacia inteira diretamente; ele é calculado. O estudo de 2019 usou imagens MODIS para mapear, dia a dia, a neve e o gelo e aplicou um modelo de índice de temperatura, que converte graus acima de zero em derretimento. A calibração usou a vazão medida em cinco sub-bacias de cabeceira. Os limites são declarados: a temperatura vem de uma reanálise (reconstrução do tempo passado por modelo) com vieses da ordem de 10 °C em relação a estações, e as geleiras cobertas de detritos ficaram de fora, o que tende a subestimar o derretimento.

Quem depende, bacia a bacia

Uma estimativa de 2010 apontou que mais de 1,4 bilhão de pessoas dependem de cinco grandes rios, com o degelo extremamente importante no Indo e modesto no Ganges, no Yangtzé e no Rio Amarelo. Na irrigação, um modelo de 2019 achou que, no Indo, até 60% da água retirada antes da monção vem de neve e gelo; no Brahmaputra, a dependência é desprezível. O índice de torres de água (WTI), de 2020, é o produto de um índice de oferta e um de demanda; nele, o alto Indo é a unidade mais crítica do mundo (WTI = 1,00), e o estudo estima 1,9 bilhão de pessoas potencialmente afetadas (0,3 bilhão nas montanhas e 1,6 bilhão a jusante).

O que ainda se discute

A parcela do gelo no Indo muda com a definição: segundo Armstrong e colegas, um estudo de 2010 estimou cerca de 40% do degelo acima de 2.000 m, contra cerca de 3% de gelo exposto no modelo deles, e os próprios autores dizem que a comparação direta é difícil. Quanto ao futuro, uma análise de 2019 indica que o degelo das geleiras está 1,6 vez acima da taxa de equilíbrio e deve crescer antes de cair, e outra, de 2021, que a oferta de neve depende muito do clima e varia entre bacias. Os números populacionais são estimativas de modelo.

Como sabemos

Os números por bacia vêm de um estudo lido na íntegra; os de população e irrigação vêm de resumos de artigos e são estimativas de modelo.

Em debate: Armstrong e colegas (2019) obtêm cerca de 3% de gelo exposto; segundo eles, Immerzeel e colegas (2010) estimaram cerca de 40%. As definições de neve, gelo e bacia diferem.

Fontes

  1. Science — Climate change will affect the Asian water towers
    Immerzeel, W. W.; van Beek, L. P. H.; Bierkens, M. F. P. · 2010 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1183188
  2. Nature (versão aceita no repositório do IIASA) — Importance and vulnerability of the world's water towers
    Immerzeel, W. W.; Lutz, A. F.; Andrade, M. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-019-1822-y
  3. Regional Environmental Change — Runoff from glacier ice and seasonal snow in High Asia: separating melt water sources in river flow
    Armstrong, R. L.; Rittger, K.; Brodzik, M. J. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s10113-018-1429-0
  4. Nature — Asia's shrinking glaciers protect large populations from drought stress
    Pritchard, H. D. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-019-1240-1
  5. European Geosciences Union (EGU) — Climate change decisive for Asia's snow meltwater supply (resumo de congresso, EGU General Assembly 2020)
    Kraaijenbrink, P.; Stigter, E.; Yao, T.; Immerzeel, W. · 2020 · Documento institucional · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.5194/egusphere-egu2020-2404
  6. Nature Sustainability (registro no repositório da Wageningen University & Research) — Importance of snow and glacier meltwater for agriculture on the Indo-Gangetic Plain
    Biemans, H.; Siderius, C.; Lutz, A. F. et al. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41893-019-0305-3
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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