Ecologia

Terras indígenas e floresta: o que satélites e estoques de carbono mostram na Amazônia, e o que não provam

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

Na Amazônia, terras indígenas e áreas protegidas somadas guardavam 58% do carbono acima do solo em 2016 e responderam por 10% da perda líquida de 2003 a 2016. Em relação ao estoque de 2003, a perda líquida foi de 0,1% nas terras indígenas e de 3,6% fora de qualquer proteção. É diferença observada; para separar o efeito da proteção, os estudos comparam áreas parecidas.

Carbono acima do solo é o carbono guardado em troncos, galhos e folhas das árvores vivas; sua densidade (megagramas de carbono por hectare) serve de indicador de quão intacta a floresta está. Desmatamento é a remoção completa da floresta; degradação e perturbação são perdas de biomassa em floresta que continua de pé (extração seletiva de madeira, seca, fogo). Uma terra indígena (TI) é um território reconhecido para uso das populações indígenas; as demais áreas protegidas (parques, reservas) entram no estudo como "áreas naturais protegidas". Comparar o que há dentro e fora das áreas não basta: elas tendem a estar em locais menos pressionados, tema do post sobre pareamento e viés de localização, ligado abaixo. Como o PRODES e o MapBiomas medem o desmatamento está nos posts sobre cada método.

A perda dentro das terras indígenas vem mais da degradação

No estudo regional, mais de 75% do carbono perdido em terras indígenas e áreas protegidas vinha de degradação e perturbação, não de corte raso. Fora delas, dois terços da perda eram conversão da floresta.

Como sabemos: carbono visto por satélite e calibrado em campo

O estoque não é pesado floresta a floresta. Walker e colegas usam um mapa de densidade de carbono acima do solo, feito com imagens do sensor MODIS em células de 463 m (21,4 ha), por um algoritmo de aprendizado de máquina calibrado com medições de campo e dados de lidar da NASA. Uma série de 2003 a 2016 mostra, em cada célula, quando a densidade cai ou sobe, sem precisar saber a causa. Os limites do território vêm de uma base da rede RAISG. Perdas menores que uma célula escapam, e a causa da perda tem de ser inferida depois.

Dentro e fora: estoque, perda líquida e densidade

Em 2016, as terras indígenas e as áreas protegidas guardavam 58% do carbono acima do solo da região e, entre 2003 e 2016, responderam por 10% da perda líquida. Só as terras indígenas ficaram perto do equilíbrio: perderam e ganharam carbono quase na mesma medida, com variação de 0,1%, contra 3,6% nas terras sem proteção formal. No Brasil, 89% da perda líquida ocorreu fora das áreas protegidas. Os números descrevem o que se observou; não dizem o que teria acontecido sem a proteção.

Perda que o corte raso não vê: degradação e perturbação

O corte raso é só parte da perda. Em toda a região, 47% do carbono perdido veio de degradação e perturbação, que mantêm a floresta de pé, porém com menos biomassa. Dentro de terras indígenas e áreas protegidas, esse tipo respondeu por 75% da perda; fora delas, 66% veio de conversão. Os autores ligam a perda dentro das áreas a seca, fogo e atividades extrativas, mas o método não identifica a causa. O post sobre degradação florestal explica esse processo, que o PRODES não registra.

Efeito ou localização? O que os desenhos causais acrescentam

A comparação dentro e fora mistura dois efeitos: o da proteção e o do lugar onde ela foi posta. Estudos com pareamento (Nolte e colegas, 2013) e com descontinuidade de regressão (Baragwanath e Bayi, 2020) tentam separá-los. Este último compara áreas junto à fronteira de 245 territórios e acha queda de cerca de 2 pontos percentuais após a homologação, só onde há propriedade plena. O resultado é local, não exclui vazamento e há estudos discordantes, de modo que não se aplica automaticamente a todos os territórios.

Desmatamento recente, medido por outro método

O MapBiomas Alerta valida alertas de desmatamento em todos os biomas. Em 2025 contou 12.593 hectares desmatados em terras indígenas, 22% menos que em 2024, com 30% dos territórios registrando algum evento; de 2019 a 2025, elas ficaram com 1,7% da área desmatada do país. Walker e colegas citam alta de quase 150% em 2016-2018. Os números diferem por método, período e abrangência, e não se comparam entre si sem cuidado; o post sobre PRODES, DETER e MapBiomas explica por quê.

Como sabemos

Os números de carbono e o desenho causal estão em texto integral de dois estudos; o terceiro estudo é lido só pelo resumo e o dado recente do MapBiomas vem de um comunicado.

Em debate: Estudos com pareamento ou descontinuidade de regressão (Nolte et al., 2013; Baragwanath e Bayi, 2020) acham efeito, com intensidade que depende da pressão e da propriedade plena. BenYishay e colegas, segundo Baragwanath e Bayi, não acharam efeito de demarcação; as amostras, os dados e os desenhos diferem.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — The role of forest conversion, degradation, and disturbance in the carbon dynamics of Amazon indigenous territories and protected areas
    Walker, W. S. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1913321117
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Collective property rights reduce deforestation in the Brazilian Amazon
    Baragwanath, K.; Bayi, E. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1917874117
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Governance regime and location influence avoided deforestation success of protected areas in the Brazilian Amazon
    Nolte, C.; Agrawal, A.; Silvius, K. M.; Soares-Filho, B. S. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1214786110
  4. MapBiomas Brasil (RAD2025) — Desmatamento no Brasil fica abaixo de 1 milhão de hectares em 2025
    MapBiomas Brasil · 2026-05-27 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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