Zoologia
Onde as tartarugas-marinhas aumentaram? 299 séries de ninhos, do mundo ao Brasil, e o que elas não provam
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Conservação com evidências
Em 299 séries de contagem de ninhos reunidas em 2017, 95 mostraram aumento significativo e 35, queda. Uma atualização de 2024, com 61 séries, achou 28 altas, 28 estáveis e 5 quedas, e as quedas significativas só ocorreram em tartarugas-de-couro e cabeçudas. Os aumentos aparecem em várias bacias oceânicas, inclusive no Brasil, e provavelmente se devem à proteção de ovos e fêmeas, mas descrevem as praias monitoradas, não todas.
Só as fêmeas sobem à praia, e cada uma faz várias desovas por temporada, mas em geral não todos os anos. Por isso os cientistas contam os ninhos de cada praia, temporada após temporada, e comparam os anos. Esse conjunto de contagens é uma série temporal. As praias são agrupadas em unidades regionais de manejo (RMU em inglês), conjuntos distintos por genética, distribuição, movimentos e demografia. A tendência dos ninhos aponta para o número de fêmeas, mas não é uma contagem de fêmeas: a relação depende de quantas desovas cada uma faz, e isso também precisa ser medido.
Quantas desovas faz uma cabeçuda?
Em Praia do Forte, na Bahia, as patrulhas registraram em média 3,1 desovas por cabeçuda por temporada. Com rastreamento por satélite de 12 fêmeas, o cálculo subiu para 5,6. Quem só conta na praia perde desovas feitas fora do trecho patrulhado.
Como sabemos: contar ninhos, não tartarugas
A tendência vem de patrulhas que contam ninhos por temporada. Há dois limites. As fêmeas em geral não desovam todos os anos, e a contagem oscila muito de um ano para o outro. E o número de fêmeas depende de quantas desovas cada uma faz: em Praia do Forte, a contagem só na praia subestimou isso. Em séries de 6 a 9 anos, 21 de 89 mostraram tendência; em séries de mais de 21 anos, foram 41 de 66.
Onde sobem e onde caem
Em Sal, em Cabo Verde, os ninhos de cabeçuda passaram de cerca de 500 para 35.000 entre 2008 e 2020. No Havaí, a tartaruga-verde de French Frigate Shoals passou de cerca de 200 para 2.000 ninhos entre 1973 e 2012. Mas as tartarugas-de-couro do Pacífico caem, como em Las Baulas, na Costa Rica, de cerca de 1.500 fêmeas para 15, e Tortuguero trocou a alta pela queda. A tendência muda por praia, espécie e bacia.
Por que subiram, segundo os autores
A explicação mais citada é a proteção de ovos e de fêmeas desovando, junto com menos captura acidental em pesca. É interpretação: a série mostra o que acontece, não qual medida causou. Mazaris e colegas acrescentam que o retorno pode levar muito tempo, porque o ganho de sobrevivência dos ovos precisa chegar aos adultos, e que não viram efeito Allee: populações pequenas também crescem.
No Brasil: crescimento, estabilidade e risco
O Brasil mostra três quadros. A cabeçuda cresceu cerca de 6,4% ao ano na Bahia e 1,9% no Espírito Santo de 1988 a 2003, depois que a coleta foi proibida nos anos 1980. A tartaruga-de-couro no Espírito Santo subiu de 25,6 para 89,8 ninhos por ano, mas continua uma população pequena e preocupante. E a tartaruga-verde de Trindade ficou estável entre 1991 e 2008. As séries brasileiras citadas aqui são mais antigas que as globais.
Como sabemos
Os números globais e brasileiros vêm de artigos originais lidos por inteiro, com as limitações declaradas; o ponto fraco é o viés das praias monitoradas e a idade de alguns dados brasileiros.
- Fato estabelecido: Mazaris e colegas (2017) reuniram 299 séries anuais de contagem de ninhos das sete espécies de tartarugas-marinhas, e nelas contaram 95 aumentos significativos de abundância contra 35 quedas significativas. [1] Resumo
Contexto: Séries publicadas de ninhos anuais em praias de desova do mundo todo, com 6 a 47 anos de duração. · Limitações: Séries de acesso público; muitas terminam antes de 2010. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Agrupadas em unidades regionais de manejo (conjuntos de praias distintos por genética, distribuição, movimentos e demografia), 12 unidades tinham tendência de alta e 5, de queda. [1] Introduction
Contexto: Só unidades com tendência significativa e dados até 2010 ou depois entram nessa contagem (17 no total). · Limitações: Unidades sem série longa e recente ficam fora do balanço. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Séries longas detectam mais tendências: em séries de 6 a 9 anos, 21 de 89 mostraram tendência significativa; em séries com mais de 21 anos, foram 41 de 66. [1] Results, §2
Contexto: Resultado para as 299 séries de ninhos; a detecção cresce até cerca de 21 anos e depois se estabiliza. · Limitações: Contagens informadas pelos autores; nada foi convertido em porcentagem aqui. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: As fêmeas de tartaruga-marinha em geral não desovam em anos sucessivos, o que faz o número de ninhos variar muito de um ano para o outro e dificulta ver a tendência em poucos anos. [1] Discussion, §5
Contexto: Afirmação geral sobre as tartarugas-marinhas, apresentada pelos autores como fenômeno bem conhecido. · Limitações: O intervalo entre desovas varia entre espécies e populações. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Populações pequenas de tartarugas-marinhas também crescem: os autores não encontram efeito Allee (perda da capacidade de recuperação em populações pequenas), e um exemplo é a tartaruga-verde de French Frigate Shoals, no Havaí, que passou de cerca de 200 para cerca de 2.000 ninhos entre 1973 e 2012. [1] Results, §3
Contexto: Análise das séries em que a taxa de crescimento foi comparada à abundância inicial. · Limitações: A relação entre abundância inicial e crescimento é fraca no estudo; imigração de praias vizinhas pode explicar parte das taxas altas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os aumentos estão provavelmente ligados à proteção de ovos e de fêmeas desovando e à redução da captura acidental em pesca; o efeito pode levar muito tempo para aparecer nos ninhos, porque o ganho de sobrevivência dos ovos precisa chegar aos adultos. [1] Discussion, §8
Contexto: Explicação proposta pelos autores a partir de casos como Tortuguero (Costa Rica), Havaí e Flórida. · Limitações: A série de ninhos mostra a tendência, não prova qual medida a causou; várias medidas atuam juntas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Uma atualização com 61 séries de ninhos que passam de 2015 (Hays et al., 2024) achou 28 com aumento significativo, 28 sem mudança e 5 com queda; as quedas significativas ocorreram apenas em tartarugas-de-couro e cabeçudas, e altas ou estabilidade predominaram em todas as bacias oceânicas. [2] Results, §1
Contexto: Séries de 6 a 57 anos (média de 20) que não tinham sido examinadas na análise global anterior. · Limitações: 61 séries são uma amostra das praias monitoradas, não de todas as praias. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Sal, em Cabo Verde, os ninhos de tartaruga-cabeçuda passaram de cerca de 500, em 2008, para 35.000, em 2020. [2] Results, §2
Contexto: Ilha de Sal, Cabo Verde, Atlântico Norte; números aproximados lidos pelos autores na série. · Limitações: Os autores atribuem o aumento, ao menos em parte, à redução da coleta de ovos e de fêmeas; a causa exata não foi medida. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nem toda série sobe: o número de tartarugas-de-couro desovando em Las Baulas, na Costa Rica, caiu de cerca de 1.500 para 15 entre 1988 e 2018, e as tartarugas-verdes de Tortuguero passaram de tendência de alta para queda. [2] Summary [1] Resumo
Contexto: Las Baulas fica na costa do Pacífico da Costa Rica; Tortuguero, no Caribe costarriquenho. · Limitações: Os dados são de contagem de praias específicas; não representam todas as populações da espécie. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os autores advertem que muitas praias, talvez a maioria, não têm série recente publicada, e que as praias monitoradas podem ser justamente as que recebem mais proteção; os balanços, portanto, descrevem as praias acompanhadas. [2] Limitations of the study
Contexto: Limitação declarada pelos autores da análise global de 2024. · Limitações: O tamanho do viés não foi medido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No Brasil, a coleta de ovos e de tartarugas foi proibida no início dos anos 1980 e a proteção legal de todas as espécies veio em 1986; o Projeto Tamar começou a monitorar, em 1982, Praia do Forte, na Bahia, uma das principais praias de desova do país. [3] Introduction
Contexto: Cinco espécies de tartaruga-marinha ocorrem no Brasil; a cabeçuda é a que mais desova no litoral continental. · Limitações: O monitoramento depois se estendeu a outras estações e estados. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Em 16 temporadas (1988/89 a 2003/04), a desova da tartaruga-cabeçuda cresceu cerca de 6,4% ao ano na Bahia (intervalo de 95%: 5,2% a 7,5%) e 1,9% ao ano no Espírito Santo (1,0% a 2,8%); em 2003/04 houve mais de 4.800 ninhos no Brasil. [3] Resumo
Contexto: Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), estoque genético brasileiro, 22 unidades de amostragem na Bahia e no Espírito Santo. · Limitações: Dados de 2003/04 ou anteriores; as taxas são tendências lineares esperadas de um modelo, e os autores citam ameaças emergentes (pesca acidental) que podem limitar a recuperação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Trindade, a 1.140 km da costa, o número de ninhos de tartaruga-verde variou de 1.333 a 5.261 nas temporadas em que a maior parte da desova foi monitorada, e a população ficou estável entre 1991 e 2008, sem aumento detectado. [5] Abstract
Contexto: Ilha oceânica monitorada de modo descontínuo pelo Projeto Tamar de 1982/83 a 2008/09; em 7 temporadas a maior parte da desova foi monitorada. · Limitações: Série descontínua e com esforço de patrulha desigual; estável não significa que não houve recuperação antes de 1991. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: No Espírito Santo, a média anual de ninhos de tartaruga-de-couro subiu de 25,6, nos primeiros cinco anos de monitoramento (1988-1992), para 89,8 nos últimos cinco (2013-2017), o que equivale a cerca de 15 a 18 fêmeas por ano; a população continua preocupante por ser pequena. [4] Abstract
Contexto: Único local de desova regular da tartaruga-de-couro no Atlântico Sudoeste, segundo os autores. · Limitações: O número de fêmeas depende de supor 5 a 6 desovas por fêmea por temporada; a série varia de ano para ano. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Contar ninhos não é contar fêmeas: em Praia do Forte (Bahia), a média foi de 3,1 desovas observadas por cabeçuda por temporada; com rastreamento por satélite, o cálculo para 12 fêmeas subiu para 5,6, o que indica que as patrulhas de praia subestimam a frequência de desova. [6] Abstract
Contexto: 593 fêmeas identificadas em um trecho de 5 km (2009-2016); subconjunto com satélite: 12 fêmeas. · Limitações: Subamostra pequena (n = 12) para a estimativa com satélite; só uma praia e uma espécie. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Science Advances (AAAS) — Global sea turtle conservation successes
Mazaris, A. D.; Schofield, G.; Gkazinou, C.; Almpanidou, V.; Hays, G. C. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.1600730 - iScience (Cell Press) — A pulse check for trends in sea turtle numbers across the globe
Hays, G. C.; Schofield, G.; Papazekou, M.; Chatzimentor, A.; Katsanevakis, S.; Mazaris, A. D. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.isci.2024.109071 - Endangered Species Research (Inter-Research); Projeto TAMAR-IBAMA — Conservation status of the loggerhead sea turtle in Brazil: an encouraging outlook
Marcovaldi, M. A.; Chaloupka, M. · 2007 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3354/esr003133 - Endangered Species Research (Inter-Research); Centro TAMAR-ICMBio — Thirty years of leatherback turtle Dermochelys coriacea nesting in Espírito Santo, Brazil, 1988-2017: reproductive biology and conservation
Colman, L. P. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3354/esr00961 - Endangered Species Research (Inter-Research); Projeto TAMAR-ICMBio — Green turtle nesting on Trindade Island, Brazil: abundance, trends, and biometrics
Almeida, A. P.; Moreira, L. M. P.; Bruno, S. C.; Thomé, J. C. A.; Martins, A. S.; Bolten, A. B.; Bjorndal, K. A. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3354/esr00357 - Animals (MDPI); Fundação Projeto Tamar — Integrating Beach Monitoring and Satellite Telemetry to Estimate Loggerhead Clutch Frequency in Brazil
Lara, P. H.; Stahelin, G.; Marcovaldi, M. Â.; dos Santos, A. S.; Swimmer, Y.; Mendilaharsu, M. L. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/ani16020320
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 8; conferência de trechos automatizada)