Ecologia

A sexta extinção em massa: o que os números sustentam e onde os autores discordam

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

As estimativas publicadas põem a taxa atual de extinção bem acima da taxa de fundo, a normal do registro fóssil: de cerca de 8 a cerca de 1.000 vezes, conforme o método. Para vertebrados, Ceballos e colegas (2015) obtiveram de 8 a 100 vezes, com suposições deliberadamente conservadoras; Pimm e colegas (2014), cerca de mil. Se isso já é uma extinção em massa depende da definição: pelo critério de 75% das espécies perdidas, ainda não.

Extinção de fundo é o ritmo normal de desaparecimento de espécies entre as grandes crises, medido pela duração das espécies no registro fóssil. A unidade usual é E/MSY: extinções por milhão de espécies-ano, o mesmo que extinções por 10.000 espécies a cada 100 anos. Uma extinção em massa, nas cinco "grandes" do registro fóssil, é um pico muito acima desse ritmo, em geral definido como perda de pelo menos 75% das espécies em tempo geologicamente curto. O que se discute hoje não é se há perdas aceleradas, mas qual é a taxa, com que incerteza e se o rótulo "sexta extinção em massa" cabe.

O que são 2 extinções em 10.000 espécies

Com 2 E/MSY e os 39.223 vertebrados avaliados pela IUCN, o esperado em 114 anos (desde 1900) seria cerca de 9 extinções. A Lista Vermelha registra 477 no critério amplo, cerca de 53 vezes mais, razão que aparece na tabela de Ceballos.

Como a taxa de fundo é medida

A taxa de fundo vem do registro fóssil: mede-se quanto tempo as espécies de um grupo duraram. Ceballos e colegas usaram as durações de milhares de mamíferos, em intervalos de um ano a milhões de anos, e chegaram a 1,8 E/MSY, que arredondaram para 2. Para os outros vertebrados faltam dados, e eles supuseram a mesma taxa. As estimativas anteriores, de 0,1 a 1 E/MSY, vinham sobretudo de invertebrados marinhos, cujas espécies tendem a durar mais.

Por que o resultado vai de 8 a 1.000 vezes

A razão entre taxa atual e de fundo muda com três escolhas: a taxa de fundo (0,1, 1 ou 2 E/MSY), quais extinções entram (só confirmadas, ou também possíveis) e quais grupos entram. Com 2 E/MSY, Ceballos obteve de 8 a 100 vezes para vertebrados; com referência de 0,1 a 1 E/MSY, Cowie e colegas chegam a 100 a 1.000. A conta de Ceballos foi pensada como limite inferior, o que explica parte da diferença com a de Pimm.

O que a Lista Vermelha não vê

A IUCN avaliou quase todas as aves e mamíferos, mas só uma pequena fração dos invertebrados, e extinção só entra na lista com critérios rigorosos. Por isso os dados enviesam para os vertebrados. Cowie e colegas extrapolam a partir de caracóis terrestres e chegam a 7,5 a 13% das espécies conhecidas extintas desde 1500, mas eles mesmos chamam a extrapolação de ousada. É uma hipótese a testar, não uma contagem.

O que exige a expressão extinção em massa

Nas cinco grandes extinções do registro fóssil, costuma-se definir o evento como a perda de mais de 75% das espécies em tempo geológico curto, critério que Cowie e colegas chamam de um tanto arbitrário. Por esse critério, a crise atual ainda não ocorreu, embora a taxa seja muito alta. Linke e Clements (2024) afirmam que parte do desacordo vem da falta de definição, mais do que dos dados. Para o Permiano, com perda estimada de cerca de 95%, veja o post sobre a Grande Mortandade.

Como sabemos

Os números de Ceballos e de Cowie foram lidos no texto integral e conferidos; Pimm só pelo resumo, e o critério de 75% de Barnosky (2011) vem de segunda mão.

Em debate: Há acordo de que as taxas atuais de extinção estão muito acima das de fundo, mas a faixa varia de dezenas a mil vezes conforme a taxa de fundo escolhida (0,1 a 2 E/MSY) e os dados usados. Cowie e colegas (2022) criticam o uso exclusivo da Lista Vermelha, que cobre pouco os invertebrados, e contestam críticos como Briggs, que usam uma taxa de fundo mais baixa para diminuir a diferença. Sobre o rótulo, o critério de perda de 75% das espécies não foi atingido, enquanto Ceballos e colegas dizem haver uma extinção em massa em curso. Linke e Clements (2024) atribuem parte da divergência à falta de definição unificada.

Fontes

  1. Science Advances — Accelerated modern human-induced species losses: Entering the sixth mass extinction
    Ceballos, G.; Ehrlich, P. R.; Barnosky, A. D.; García, A.; Pringle, R. M.; Palmer, T. M. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.1400253
  2. Science — The biodiversity of species and their rates of extinction, distribution, and protection
    Pimm, S. L.; Jenkins, C. N.; Abell, R.; Brooks, T. M.; Gittleman, J. L.; Joppa, L. N.; Raven, P. H.; Roberts, C. M.; Sexton, J. O. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1246752
  3. Biological Reviews — The Sixth Mass Extinction: fact, fiction or speculation?
    Cowie, R. H.; Bouchet, P.; Fontaine, B. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/brv.12816
  4. Ecology and Evolution — A Sixth Mass Extinction? How Linguistic Uncertainty Shapes Our Understanding of the Biodiversity Crisis
    Linke, L.; Clements, C. F. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/ece3.70653
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)

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