Oceanografia
A sardinha-verdadeira brasileira entre colapsos: o que 1973, 1990, 2000 e 2017 dizem sobre pesca e oceano
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
Assuntos: Conservação com evidências
A produção da sardinha-verdadeira (Sardinella brasiliensis) no Sudeste e Sul do Brasil chegou a 228 mil t em 1973, caiu até o primeiro colapso, em 1990, e colapsou de novo em 2000 e em 2017. Pesca e oceano aparecem juntos nas explicações: falha de recrutamento com estoque desovante pequeno, frota que ampliou a área e águas mais quentes. Simulações mostram que o oceano sozinho não explica os extremos.
A sardinha-verdadeira é um peixe pequeno que vive em cardumes e se alimenta de plâncton; é pescada por barcos de cerco (rede que cerca o cardume e se fecha por baixo) entre o Rio de Janeiro e Santa Catarina. 'Colapso' aqui é o termo usado pelos autores para quedas bruscas da produção. 'Recrutamento' é a entrada de jovens na população. Em peixes que desovam muito e perdem quase tudo nas fases de ovo e larva, uma pequena mudança na sobrevivência altera muito o número de jovens. Por isso pesca e ambiente se misturam: com poucos adultos, o estoque depende mais de anos favoráveis.
Dois estoques, um manejo
Estudos citados em 2024 indicam dois estoques de sardinha-verdadeira, um ao norte e outro ao sul, que ainda são manejados como um só, embora sofram pressões diferentes.
A desova depende do oceano
A sardinha-verdadeira desova em duas áreas, entre 23° e 28° S, do início da primavera ao início do outono, em águas de 22 a 28 °C [a6]. A desova de verão coincide com a ressurgência da Água Central do Atlântico Sul (ACAS), que traz águas profundas ricas em nutrientes e aumenta o alimento de larvas e jovens [a7]. Quando o vento, a temperatura ou o transporte alteram esse arranjo, a sobrevivência dos jovens muda, e com ela o recrutamento.
Como sabemos: um modelo de teia alimentar e uma simulação de larvas
O artigo de 2024 usa o Ecopath, um modelo de balanço de massa que representa quem come quem e quanta energia circula, alimentado por desembarques de 2000 a 2019 e por dietas da literatura. Ele indicou mortalidade por pesca e natural elevadas de 2008 a 2016 [a9]. O de 2017 simulou correntes e partículas no lugar de ovos e larvas: o frio mata mais que o transporte para fora da plataforma [a13], mas o oceano sozinho não explica os extremos de desembarque [a14]. São resultados de modelo, com limites declarados pelos autores.
A frota mudou, e o estoque pode ser dois
A partir de 2007-2008 a frota com salmoura refrigerada passou a pescar numa área bem maior, de 21° S a 33° S [a8]. Os autores sugerem que a pressão extra no norte pode ter contribuído para o colapso de 2017 [a10] e reforçam que há dois estoques, ainda manejados como um só [a11]. Também registram aquecimento de 0,5 °C na superfície entre 2000 e 2016 na região [a12], mas a ligação com a sardinha é hipótese, não resultado demonstrado.
O defeso: o que a norma proíbe e o que ela não prova
O defeso é a proibição periódica da pesca para proteger a reprodução. Em 2009 eram dois períodos, de 15 de junho a 31 de julho e de 1º de novembro a 15 de fevereiro; hoje, segundo o MPA, vai de 1º de outubro a 28 de fevereiro [a15]. As fontes lidas descrevem as datas, não medem quanto o defeso protege o estoque, e isso fica como pergunta em aberto. Para o desenho geral da pesca sustentável, veja os artigos sobre colapsos de outras espécies.
Como sabemos
Datas e números vêm de dois artigos abertos e de normas oficiais; as causas dos colapsos são hipóteses e a série histórica completa não foi lida em fonte primária.
Em debate: Quanto cabe à pesca e quanto ao ambiente
- Fato estabelecido: A sardinha-verdadeira (Sardinella brasiliensis) é descrita como o principal recurso pesqueiro das águas brasileiras e é capturada tipicamente entre o Cabo de São Tomé (RJ, 22° S) e o Cabo de Santa Marta Grande (SC, 29° S). [1] Introdução
Contexto: Costa Sudeste-Sul do Brasil; frase de revisão de literatura do artigo de 2024. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A produção da sardinha-verdadeira chegou a um máximo de 228 mil toneladas em 1973, caiu de forma progressiva a partir daí e atingiu o primeiro colapso em 1990. [1] Introdução
Contexto: Série de produção do Sudeste-Sul resumida pelos autores a partir de trabalhos anteriores; o artigo não reproduz a série anual. · Limitações: Os autores citam a série de outras publicações; não a mostram ano a ano. Não há, nessa fonte, um colapso nas décadas de 1970-80: o que há é queda progressiva depois do máximo de 1973. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Depois do colapso de 1990 o estoque se recuperou e voltou a colapsar em 2000. [1] Introdução
Contexto: Sudeste-Sul do Brasil. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Para o colapso de 2000, a literatura citada pelos autores aponta falha de recrutamento (poucos jovens entrando na população) causada por um estoque desovante muito pequeno, somada a condições ambientais adversas na época de reprodução e a problemas de sobrepesca. [1] Introdução
Contexto: Síntese de trabalhos anteriores, não resultado novo do artigo. · Limitações: Atribuição conjunta: a fonte não separa quanto coube à pesca e quanto ao ambiente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nos dados de desembarque do modelo de 2000 a 2019, os maiores desembarques de sardinha ocorreram em 2012, com tendência de queda depois disso até o colapso de 2017. [1] Resultados, 3.4
Contexto: Desembarques da frota de cerco que descarrega em Santa Catarina, 2000-2019; não é a produção de todo o país. · Limitações: O maior desembarque vale para a série analisada (2000-2019, frota de Santa Catarina), não para toda a história da pesca. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A espécie desova em duas áreas principais (23°-25° S e 26°-28° S), do início da primavera ao início do outono, em temperaturas de 22 °C a 28 °C. [1] Introdução
Contexto: Hemisfério Sul: primavera e outono austrais. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A desova de verão ocorre em sincronia com a ressurgência de águas profundas enriquecidas da Água Central do Atlântico Sul (ACAS), o que aumenta o alimento disponível para larvas e jovens. [1] Introdução
Contexto: Mecanismo descrito na literatura que os autores revisam; vale para o Sudeste do Brasil. · Limitações: É a explicação aceita pelos autores citados, não um experimento do próprio artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Entre 2007 e 2008 parte da frota de cerco ganhou autonomia, com conservação do pescado em salmoura refrigerada em vez de gelo, e passou a pescar da divisa norte do Rio de Janeiro (21° S) ao extremo sul do Rio Grande do Sul (33° S). [1] Resultados, 3.1
Contexto: Embarcações que desembarcam em Santa Catarina. · Limitações: O próprio artigo ressalva que as áreas ampliadas a partir de 2008 não eram áreas virgens de pesca. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O modelo de massa equilibrada (Ecopath) do artigo indica altos valores de mortalidade por pesca, mortalidade natural e fluxo para detritos entre 2008 e 2016, período em que a pesca da sardinha colapsou. [1] Resumo
Contexto: Modelo do ecossistema Sudeste-Sul, alimentado por 97 espécies desembarcadas em Santa Catarina entre 2000 e 2019 e por dietas da literatura. · Limitações: Os resultados dependem de dados de dieta e de desembarque de uma frota; são saída de modelo, não medição direta. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores sugerem que o aumento da temperatura média das capturas, coincidente com a queda da produção primária necessária para sustentar as capturas a partir de 2012, provavelmente limitou a produção primária e elevou a mortalidade natural; e que a maior mortalidade por pesca pode ter levado o estoque ao colapso. [1] Resumo
Contexto: Colapso de 2017, Sudeste-Sul. · Limitações: O texto dos autores usa 'provavelmente' e 'pode ter'; é coincidência temporal entre séries, não prova de causa. · Hipótese dos autores baseada em coincidência de séries; não foi testada por experimento. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os autores reforçam a existência de dois estoques de sardinha-verdadeira, que ainda são manejados como um só, e afirmam que cada um sofre pressões de pesca e ambientais diferentes. [1] Conclusões
Contexto: Estoques do norte e do sul da área de ocorrência; situação descrita no artigo de 2024. · Limitações: A afirmação sobre o manejo vale para a data do artigo; não verificamos se mudou depois. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Imagens de satélite mostraram anomalias positivas de temperatura da superfície do mar de 0,5 °C entre 2000 e 2016 em uma região que se estende de Cabo Frio ao sul da Argentina. [1] Discussão
Contexto: Região entre Cabo Frio (22° S) e a Terra do Fogo (55° S); valor citado de trabalhos anteriores. · Limitações: A ligação entre esse aquecimento e a queda da sardinha é hipótese dos autores (ver afirmação sobre o modelo). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em simulações com um modelo oceânico (ROMS) acoplado a um modelo de partículas que representam ovos e larvas, a mortalidade de ovos e larvas por temperatura baixa foi significativamente maior do que a causada pelo transporte para fora da plataforma, antes tanto dos desembarques máximos quanto dos mínimos. [2] Resumo
Contexto: Baía do Sudeste do Brasil (South Brazil Bight); simulação que mantém constantes as demais causas de mortalidade. · Limitações: O modelo não inclui predação nem canibalismo, e a captura de peixes pode variar por razões de agregação, não só de abundância. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Mesmo assim, a mortalidade de ovos e larvas causada pelas condições oceânicas dominantes, sozinha, não explica os desembarques extremos, altos e baixos, da sardinha-verdadeira; fome e predação, junto com a estratégia de desovar 'no lugar certo e na hora certa', são citadas como prováveis fatores. [2] Resumo
Contexto: Resultado do estudo de 2017 sobre desembarques comerciais do Sudeste do Brasil. · Limitações: Fome e predação são citados como fatores prováveis, não foram medidos no estudo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Pela Instrução Normativa nº 15/2009 do Ibama, a captura da sardinha-verdadeira entre o Cabo de São Tomé (22°00' S) e o Cabo de Santa Marta (28°36' S) ficava proibida todo ano de 15 de junho a 31 de julho e de 1º de novembro a 15 de fevereiro, nos picos de recrutamento e reprodução. Desde a Instrução Normativa SAP/MAPA nº 18/2020, o MPA informa o defeso de 1º de outubro a 28 de fevereiro. [3] Art. 4º [4] Período Defeso Sardinha-Verdadeira
Contexto: Normas federais para a pesca de cerco no Sudeste-Sul; a IN de 2009 foi alterada pela IN de 2020 (arts. 4º e 5º). · Limitações: Não confirmamos se o defeso foi alterado depois da avaliação prevista para junho de 2021; a página do MPA é a referência de datas aqui. Não há, nestas fontes, medição do efeito do defeso sobre o estoque. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada
Fontes
- Biology (MDPI); UNIVALI e CIIMAR — The History of the Brazilian Sardine (Sardinella brasiliensis) Between Two Fishery Collapses: An Ecosystem Modeling Approach to Study Its Life Cycle
Schroeder, R.; Petermann, A.; Correia, A. T. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3390/biology14010013 - PLOS ONE; Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) — Do the Brazilian sardine commercial landings respond to local ocean circulation?
Gouveia, M. B. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0176808 - IBAMA (texto da norma em repositório de legislação) — Instrução Normativa IBAMA nº 15, de 21 de maio de 2009 (sardinha-verdadeira)
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) · 2009 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - Ministério da Pesca e Aquicultura — Sardinha-Verdadeira (período de defeso)
Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) · 2020 (página atualizada depois) · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)