Oceanografia
Como se mede a salinidade do mar: da condutividade à escala de referência, dos navios ao Argo e aos satélites
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Água na Terra
Salinidade é a massa de sais dissolvidos na água do mar, mas ninguém a mede pesando sal: mede-se a condutividade elétrica da água, comparada à de uma solução padrão de cloreto de potássio. O resultado é a salinidade prática, um número sem unidade, da ordem de 35 no oceano aberto. Em 2010, o padrão TEOS-10 somou a salinidade absoluta, em g/kg. Hoje flutuadores Argo medem perfis até 2.000 m e satélites estimam o centímetro de cima.
A água do mar é água com sais dissolvidos, e os sais, separados em íons, deixam a água condutora de eletricidade: quanto mais sal, maior a condutividade, que também depende da temperatura e da pressão. Por isso, os oceanógrafos medem a condutividade e a convertem em salinidade. Desde 1978, a escala oficial é a Escala de Salinidade Prática (PSS-78), definida pela razão entre a condutividade da amostra e a de uma solução padrão de cloreto de potássio (KCl). Ela dá um número sem unidade. A salinidade como massa de sal por massa de água (g/kg) é outra coisa, e o padrão TEOS-10, de 2010, trata das duas. Padrões regionais de salinidade, como Atlântico contra Pacífico, ficam para outro artigo.
A água-padrão do mundo vem do Atlântico Norte
Os salinômetros de laboratório são calibrados com a IAPSO Standard Seawater, feita de água de superfície de uma região do Atlântico Norte. As instruções aos navios que a coletam pedem água de mar profundo, colhida durante o dia.
Por que a salinidade prática existe
O método do início do século XX era evaporar a água e pesar o resíduo, o que perdia componentes voláteis. A relação de Knudsen (1901) entre cloridade e salinidade saiu de apenas nove amostras, seis delas do Báltico. A escala de 1978 trocou a química pela condutividade, mais rápida e precisa, e manteve os números antigos para a água típica do oceano aberto. O custo é que a escala herdou um desvio: salinidade prática 35 equivale a 35,16504 g/kg de sal dissolvido, com incerteza estimada de 0,007 g/kg.
Três salinidades para a mesma água
A salinidade prática (SP) é adimensional e vem da condutividade. A salinidade de referência (SR) a converte em g/kg para uma composição de referência. A salinidade absoluta (SA) soma a correção de composição, que pode chegar a 0,02 g/kg no oceano aberto e a 0,09 g/kg em áreas costeiras. A composição do sal marinho varia pouco de uma bacia para outra, mas varia: por isso o número de condutividade e a massa de sal não coincidem exatamente. Os arquivos continuam guardando a SP; a SA se calcula quando é necessária.
Como sabemos: o que o Argo mede e quanto confiar
O sensor CTD mede condutividade, temperatura e pressão, e o computador converte em salinidade na escala prática. Como o sensor fica anos no mar, a salinidade pode derivar: cerca de 40% dos flutuadores precisaram de ajuste maior que 0,01 depois de 280 ciclos. Por isso há uma revisão posterior, que compara cada flutuador com navios e com flutuadores vizinhos. A exatidão resultante, perto de 0,01, foi confirmada por comparação com perfis de navios do GO-SHIP, que são referência de alta exatidão.
O que os satélites veem e o que não veem
SMOS, Aquarius e SMAP medem a emissão da superfície em banda L e estimam a salinidade do centímetro mais superficial, algo que nenhum outro método alcança. Em troca, a resolução é grosseira (de 40 a 150 km) e a medida é sensível a temperatura, vento e chuva. Eles complementam o Argo: o Argo mede com mais exatidão e em profundidade, mas amostra pouco costas, mares marginais e correntes de contorno, onde os satélites ajudam.
Como sabemos
As afirmações centrais vêm de documentos primários abertos e lidos (manual e guia do TEOS-10, página do Argo e duas revisões em acesso aberto).
- Fato estabelecido: A salinidade prática (SP) é definida pela razão entre a condutividade elétrica da amostra e a de uma solução padrão de cloreto de potássio (KCl), nas mesmas temperatura e pressão. Uma razão igual a 1 vale, por definição, SP = 35. É um número sem unidade; escrever "psu" é tecnicamente incorreto. [1] Seção 2.3 (Practical Salinity) [2] Seção 2.1
Contexto: Escala PSS-78, mantida pelo padrão TEOS-10, válida para 2 < SP < 42. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Uma água do mar de composição de referência com salinidade prática 35 tem salinidade de referência (SR) de 35,16504 g/kg. O Manual TEOS-10 registra que Millero e colegas (2008) estimam em ±0,007 g/kg a incerteza absoluta desse valor. A água-padrão (IAPSO Standard Seawater), usada na calibração, vem de águas de superfície de uma região do Atlântico Norte. [1] Seção 2.4
Contexto: Atribuição a Millero et al. (2008) feita pelo Manual TEOS-10; o artigo de Millero não foi lido por nós. · Limitações: O valor de incerteza vem de segunda mão (Manual TEOS-10, que cita Millero et al., 2008). Vale para água de composição de referência, não para qualquer amostra. · Incerteza citada pelo Manual TEOS-10. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A diferença entre 35 e 35,16504 se deve em grande parte ao método original de determinar a salinidade evaporando a água e pesando o resíduo: o processo evaporava também componentes voláteis, e o sal dissolvido era subestimado. [1] Seção 2.4
Contexto: Histórico da escala de salinidade (técnica de Sørensen, 1900). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A relação de Knudsen (1901), que ligava a cloridade à salinidade, foi estabelecida com apenas nove amostras: uma do Mar Vermelho, uma do Atlântico Norte, uma do Mar do Norte e seis do Báltico. [1] Apêndice A.3
Contexto: Base histórica da escala prática; a PSS-78 manteve a consistência numérica com ela para condições típicas de oceano aberto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A composição dos sais dissolvidos na água do mar não é exatamente constante: varia um pouco de uma bacia oceânica para outra e varia mais em estuários e mares semifechados ou fechados. [1] Apêndice A.4
Contexto: Por isso a condutividade, que depende da composição, só aproxima a massa de sal. · Limitações: A pauta falava em composição "quase constante"; a fonte diz que a variação existe e é pequena em mar aberto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A salinidade absoluta (SA) é a salinidade de referência mais uma correção de composição (δSA). A correção pode chegar a 0,02 g/kg no oceano aberto e a 0,09 g/kg em algumas áreas costeiras, e importa quando se busca precisão melhor que cerca de 0,1 g/kg. [2] Seção 2.1, passo 3
Contexto: Valores máximos de correção; a correção costuma ser positiva, mas nem sempre. · Limitações: Valores máximos esperados, não médias. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2010, a Comissão Oceanográfica Intergovernamental (IOC), a IAPSO e o SCOR adotaram em conjunto o TEOS-10, novo padrão para as propriedades termodinâmicas da água do mar, em substituição ao EOS-80. Nele, a salinidade absoluta tem unidade de g/kg (fração de massa), mas a salinidade prática segue sendo o valor armazenado nos arquivos oceanográficos. [2] Seção 2.1
Contexto: Prática oceanográfica internacional desde 2010. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Cada flutuador Argo é lançado de um navio, estabiliza-se a cerca de 1 km, e dez dias depois uma bomba interna desce o flutuador a 2 km e o faz subir à superfície medindo as propriedades da água; os dados seguem por satélite e o ciclo de 10 dias se repete até a bateria acabar. [3] Texto da página [4] Seção sobre o desenho do Argo
Contexto: Missão padrão (Core-Argo). Existem flutuadores que mergulham mais fundo (Deep-Argo) e que medem outras variáveis. · Limitações: 2.000 dbar equivale a cerca de 2.000 m de profundidade (aproximação nossa: 1 dbar corresponde a cerca de 1 m). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2024, o Argo coletava cerca de 13.000 perfis por mês (mais de 400 por dia), volume muito maior do que qualquer outro método de medição abaixo da superfície. O programa registrou seu milionésimo perfil em outubro de 2012 e o dois milionésimo em setembro de 2018. [3] Texto da página [4] Seção sobre o desenho do Argo
Contexto: Contagem do programa Argo; o número mensal refere-se a 2024. · Limitações: O volume mensal é o informado pelo programa em 2024 e muda com o tamanho da frota. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Antes do Argo, as medidas de temperatura e salinidade vinham sobretudo de navios e boias fixas, concentradas no hemisfério norte, e faltava qualquer dado sistemático de salinidade abaixo da superfície. [4] Introdução
Contexto: Situação descrita pelos autores como a que motivou a proposta de 1998 para uma rede global de flutuadores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Cada flutuador carrega um sensor CTD (condutividade, temperatura e profundidade) que mede diretamente a temperatura e a condutividade elétrica da água; a salinidade (PSS-78) é calculada a partir de temperatura, pressão e condutividade pela equação de estado da água do mar. A calibração em laboratório é checada com um salinômetro padronizado com água-padrão IAPSO. [4] Seção sobre calibração do fabricante
Contexto: Descrição dos CTDs Sea-Bird SBE-41/41CP usados nos flutuadores Argo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A especificação do fabricante para a salinidade dos CTDs SBE-41/41CP é de 0,0035 (PSS-78). Na prática, comparando com medidas de navios do programa GO-SHIP, a exatidão obtida até 2.000 dbar fica mais perto de 0,01 (PSS-78), e o viés dos flutuadores em relação a esses navios foi muito menor que 0,01. [4] Avaliação do viés frente ao GO-SHIP
Contexto: Flutuadores Argo até 2.000 dbar, ano de referência 2019. · Limitações: Valor típico, não garantido para cada flutuador: alguns registros individuais ficam enviesados no nível de 0,01 (PSS-78), e a avaliação se apoia em pares de perfis próximos no espaço e no tempo. · Exatidão avaliada por comparação com medidas de navios, não por calibração absoluta no mar. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O sensor de condutividade dos flutuadores pode derivar com o tempo, por sujeira ou por mudança na célula; por isso, uma revisão posterior compara cada flutuador com dados de referência. Em 10.048 flutuadores, menos de 10% precisaram de ajuste de deriva nos primeiros 2 anos, e após 280 ciclos cerca de 40% precisaram de ajustes maiores que 0,01. [4] Seção sobre estabilidade do sensor
Contexto: Modo de revisão posterior (delayed-mode) do Argo, com dados de referência de navios e de outros flutuadores. · Limitações: O ajuste depende de dados de referência próximos e de massas de água estáveis; com isso a incerteza ajustada fica em torno de 0,01 (PSS-78). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Os satélites SMOS (ESA), Aquarius e SMAP (NASA) medem a salinidade da superfície por radiometria em banda L (cerca de 1,4 GHz), e são o único meio de sondar a salinidade do centímetro mais superficial do mar. A sensibilidade é boa em águas quentes (acima de 5 °C), e os dados precisam de correções de temperatura e de rugosidade da superfície, esta com base em ventos. [5] Seção sobre as missões
Contexto: Missões SMOS (desde 2009), Aquarius (2011 a 2015) e SMAP (desde 2015). · Limitações: A revisão destaca a boa sensibilidade em águas quentes (acima de 5 °C); a medida reflete só o topo da água e não substitui as medidas subsuperficiais. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os satélites têm resolução espacial de cerca de 40 a 150 km (SMOS, em média, 43 km; SMAP, 40 km; Aquarius, 100 a 150 km). Eles complementam o Argo, que descreve bem a variabilidade de grande escala no oceano aberto, mas amostra pouco as regiões costeiras, os mares marginais, as correntes de contorno e as frentes. [5] Resumo
Contexto: Comparação entre sistemas de observação feita pelos autores da revisão. · Limitações: Resolução da época da revisão (2019). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO (IOC) — The international thermodynamic equation of seawater - 2010: Calculation and use of thermodynamic properties (TEOS-10 Manual, IOC Manuals and Guides No. 56)
IOC, SCOR e IAPSO · 2010 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Universidade da Colúmbia Britânica, para o projeto TEOS-10 — What every oceanographer needs to know about TEOS-10 (The TEOS-10 Primer)
Pawlowicz, R. · 2013 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Argo Program (Scripps Institution of Oceanography, UC San Diego) — About Argo
Programa Argo · 2024 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Frontiers in Marine Science — Argo Data 1999-2019: Two Million Temperature-Salinity Profiles and Subsurface Velocity Observations From a Global Array of Profiling Floats
Wong, A. P. S.; Wijffels, S. E.; Riser, S. C. et al. · 2020 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fmars.2020.00700 - Frontiers in Marine Science — Satellite Salinity Observing System: Recent Discoveries and the Way Forward
Vinogradova, N.; Lee, T.; Boutin, J. et al. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fmars.2019.00243
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)