Evolução

O fungo do queijo azul foi domesticado duas vezes, indicam genomas; as datas, em anos, seguem incertas

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Fungos

O fungo do queijo azul, Penicillium roqueforti, foi domesticado duas vezes, de forma independente, segundo análise genômica de 2020. Uma população, usada no Roquefort, vem de uma domesticação antiga e mais fraca; a outra, que predomina nos demais azuis, descende de uma só linhagem clonal, mais recente. Em anos, não se sabe quando.

Domesticar um fungo é obter, por seleção humana, populações adaptadas à produção de alimento, diferentes das que vivem fora dela. P. roqueforti cria as veias azuis porque esporula nas cavidades do queijo, onde há oxigênio. Seus genomas foram sequenciados e comparados com os de linhagens de silagem, madeira e comida estragada: o fungo forma quatro grupos genéticos, e dois deles contêm quase só linhagens de queijo. Como esses dois grupos de queijo não são os mais próximos entre si, a leitura é que surgiram em eventos separados, e não de um único ancestral queijeiro. Em paralelo, regiões inteiras de DNA passaram entre espécies de Penicillium que dividem o mesmo ambiente, a transferência horizontal de genes.

A conta é em gerações, não em anos

A domesticação da população do Roquefort foi estimada em cerca de 760 gerações atrás; a da outra, em cerca de 140. Como a geração de um fungo clonal mantido por humanos é mal definida, os autores não converteram esses números em anos.

Por que o fungo selvagem não aparece

Domesticação costuma ser reconstituída comparando o domesticado com o parente selvagem, como milho e teosinto. Com o P. roqueforti isso falha: o nicho natural da espécie é desconhecido, e 55 placas abertas por 6 dias numa queijaria e numa antiga cave de Roquefort não pegaram a espécie. As linhagens de silagem, madeira e comida estragada servem de comparação, mas não são necessariamente o ancestral do fungo de queijo.

Seleção sem projeto

Por muito tempo os esporos foram multiplicados em pão, e se reaproveitava o dos melhores queijos da produção anterior. É um filtro anual, sem plano genético: favorece quem esporula bem no pão e dá queijos bonitos. Só depois veio o isolamento de linhagens em laboratório. Essa história é o que torna plausível falar em domesticação, mas as datas variam entre as fontes, por isso não aparecem aqui.

Genes emprestados entre fungos do queijo

Wallaby e CheesyTer entraram em P. roqueforti por transferência horizontal, de fungos que dividem o ambiente do queijo, e as regiões são quase idênticas entre espécies que, no resto do genoma, divergem muito. Em placas, as linhagens com as duas regiões cresciam mais rápido em meio de queijo e inibiam concorrentes. Isso liga o efeito a genes, mas não prova que cada gene faça o que o nome indica.

O que ainda não se sabe

Ainda faltam datas em anos, o ancestral selvagem e a replicação por equipes independentes: os dois estudos principais vêm do mesmo grupo e das mesmas coleções, quase todas europeias. Linhagens de queijos de outros países podem ajustar o quadro. Há também uma divergência entre as fontes sobre quando a inoculação deliberada de esporos começou.

Como sabemos

As duas domesticações vêm de um estudo genômico central, com estudo anterior concordante, mas ambos da mesma equipe e sem replicação independente, e as datas são só em gerações.

Fontes

  1. Molecular Ecology (via PubMed Central) — Independent domestication events in the blue-cheese fungus Penicillium roqueforti
    Dumas, E. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/mec.15359
  2. PLoS ONE (via PubMed Central) — Blue cheese-making has shaped the population genetic structure of the mould Penicillium roqueforti
    Ropars, J.; López-Villavicencio, M.; Snirc, A.; Lacoste, S.; Giraud, T. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0171387
  3. Current Biology (via PubMed Central) — Adaptive Horizontal Gene Transfers between Multiple Cheese-Associated Fungi
    Ropars, J. et al. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2015.08.025
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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