Geografia

Rio São Francisco: nasce em área úmida e cruza o semiárido sustentado pela água do subsolo e por represas

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Água na Terra

O São Francisco nasce na Serra da Canastra (MG), onde chove cerca de 1.400 mm por ano, e depois cruza áreas do semiárido com cerca de 350 mm. Ele segue perene porque sua vazão vem sobretudo da água do subsolo, liberada devagar o ano todo: em 20 estações da ANA, entre 1980 e 2015, o índice de vazão de base passou de 0,80 em todas. Represas regularizam o fluxo, mas a vazão vem caindo.

Um rio perene corre o ano inteiro; um intermitente seca na estação sem chuva. A chuva que cai na bacia segue dois caminhos: parte escorre rápido pela superfície, e parte se infiltra, enche o aquífero (rocha ou sedimento que guarda água) e volta ao rio aos poucos, como vazão de base. A bacia do São Francisco tem mais de 639 mil km², com cerca de 54% no Semiárido, e a vazão é medida em m³/s, o volume que passa por segundo. No trecho seco a vazão mediana quase não aumenta: quem sustenta o rio é a água que entrou antes, no alto e pelos aquíferos do oeste da bacia.

O aquífero que alimenta o rio por baixo

Segundo estimativa citada por Lucas et al. (2021), o Aquífero Urucuia descarregou 792 m³/s no São Francisco em 1980 e cerca de 390 m³/s em 2015, uma queda de mais da metade (cálculo nosso: 390/792 = 0,49).

Como sabemos que é a água do subsolo que segura o rio

Uma estação fluviométrica mede a vazão do rio todo dia. Para separar o que veio do subsolo do que escorreu pela superfície, os pesquisadores aplicam filtros digitais à série de vazões: a parte que varia devagar é a vazão de base; a que varia rápido, o escoamento direto. Com 20 estações da ANA entre 1980 e 2015, a vazão de base ficou acima de 0,80 da vazão total em todas. O limite é que a separação é estatística: ela indica a origem provável, não rastreia cada gota.

O trecho seco quase não acrescenta água

A chuva média cai de cerca de 1.400 mm nas nascentes para perto de 350 mm no trecho entre Sento Sé e Paulo Afonso. A vazão mediana mostra o efeito: de 195 m³/s no Alto para 1.907 m³/s no Médio, quase igual (1.997 e 1.920 m³/s) no Submédio e no Baixo. Ou seja, a maior parte da água já entrou antes do trecho mais seco, e parte dela, segundo estudo citado por Leão et al. (2026), chega pelos afluentes da margem esquerda alimentados pelo Aquífero Urucuia. O rio a transporta pelo semiárido.

Represas regulam, mas não criam água

Três Marias, Sobradinho e os reservatórios a jusante guardam água na estação chuvosa e a soltam na seca, o que mantém a vazão mais estável e dá segurança a captações de água. Esse efeito tem limite: com a seca a partir de 2012, as vazões que chegavam aos reservatórios caíram até os menores níveis de armazenamento já registrados, segundo a ANA. Em fevereiro de 2017, a vazão natural em Três Marias foi 71,9% menor que a média do mês.

Por que a vazão cai, e o que ainda se discute

Entre 1980 e 2015, a vazão do rio diminuiu e, em média, mais de 86% dessa queda vem da vazão de base. Sobre a causa há duas leituras que não se excluem. Uma aponta a chuva: no semiárido, 16 de 25 anos até 2016 tiveram chuva abaixo do normal. A outra, de Lucas et al., aponta retiradas de água para irrigação, porque a chuva anual não mostrou tendência na maior parte da bacia. O peso de cada fator ainda não foi medido.

Como sabemos

Números e mecanismo vêm de fontes institucionais e de artigos revisados por pares lidos na íntegra; vazões variam entre fontes e a causa da queda é hipótese.

Em debate: Lucas et al. (2021) apontam retiradas de água subterrânea e superficial como possível causa, porque a chuva anual não teve tendência significativa na maior parte da bacia; Marengo et al. (2018) documentam anos seguidos de chuva abaixo do normal no semiárido. Os estudos medem períodos e áreas diferentes, e o peso de cada causa não foi quantificado.

Fontes

  1. Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) — A Bacia: principais características, regiões hidrográficas e biomas
    Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  2. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Sala de Situação — São Francisco (Saiba mais)
    Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  3. Water (MDPI); cópia aberta no repositório da Universidade do Arizona — Significant Baseflow Reduction in the Sao Francisco River Basin
    Lucas, M. C.; Kublik, N.; Rodrigues, D. B. B.; Meira Neto, A. A.; Almagro, A.; Melo, D. C. D.; Zipper, S. C.; Oliveira, P. T. S. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3390/w13010002
  4. Anais da Academia Brasileira de Ciências (SciELO) — Climatic characteristics of the 2010-2016 drought in the semiarid Northeast Brazil region
    Marengo, J. A.; Alves, L. M.; Alvala, R. C. S.; Cunha, A. P.; Brito, S.; Moraes, O. L. L. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1590/0001-3765201720170206
  5. Environmental Monitoring and Assessment (Springer) — Geostatistical and multi-criteria decision-making models to subsidize a quantitative monitoring network of aquifers intensively used for irrigated agriculture: the case of Urucuia Aquifer System, Brazil
    Leão, B. R. C.; da Silva Junior, G. C.; Marques, E. A. G. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s10661-026-15324-y
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)

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