Ecologia
Restaurar em escala: o Pacto da Mata Atlântica elevou a recuperação florestal em 10 a 20 pontos percentuais
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
Assuntos: Conservação com evidências
Numa avaliação com grupo de comparação, terras apoiadas pelo Pacto pela Restauração da Mata Atlântica recuperaram, entre 2010 e 2018, 10 a 20 pontos percentuais mais floresta do que terras semelhantes sem apoio: ao menos 4.600 ha, numa amostra de seis estados. A meta do Pacto é de 15 milhões de ha até 2050, e a área medida com causa comprovada é de outra ordem de grandeza.
O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica é uma rede de instituições (ONGs, empresas, governos, pesquisadores) que apoia donos de terra a recuperar floresta nos 17 estados do bioma. Restauração ativa é plantar mudas ou semear; regeneração natural é deixar a floresta voltar sozinha, às vezes com cerca ou retirada de plantas exóticas. Meta é o que a rede quer alcançar; área medida é o que satélites e levantamentos de campo registram; efeito causal é a parte da área medida que não teria surgido sem o programa. As três coisas não se confundem, e este texto separa cada uma. Os números vêm de dois estudos de 2025 que usam mapas do MapBiomas, de resolução de 30 m.
Cada hectare plantado pode custar até US$ 8.000
Segundo o estudo sobre o Pacto, o plantio de mudas pode custar até US$ 8.000 por hectare só no investimento inicial. Por isso as ONGs da rede costumam cobrir quase todo o custo direto para o dono da terra.
Meta não é área medida
A meta do Pacto é viabilizar a recuperação de 15 milhões de hectares até 2050. A avaliação de 2025 analisou 33.011 ha de parcelas apoiadas em seis estados e estimou que o Pacto causou cerca de 4.600 ha de floresta a mais, valor que os autores chamam de limite inferior. Os dois números não são comparáveis: um é objetivo para o bioma inteiro, o outro é um efeito medido numa amostra parcial até 2018. O que a avaliação mostra é que o apoio tem efeito, não que a meta está perto ou longe.
Como sabemos: comparar com terras semelhantes
Contar floresta nova no mapa não prova que o programa a criou, porque parte voltaria sozinha. Por isso os autores pareiam cada célula de 2 ha apoiada com células vizinhas parecidas (declividade, altitude, uso do solo, área protegida) e comparam a mudança antes (2000–2009) e depois (2010–2018). Antes de 2009 as duas curvas eram semelhantes; depois, divergiram. Os limites: a data de entrada de cada dono não é conhecida, o satélite demora 3 a 5 anos para ver mata nova e variáveis ocultas podem sobrar.
O que se perde depois: reversões
Restaurar não garante que a floresta fique. De 1985 a 2022, um estudo do bioma inteiro contou 2.253.850 ha de restauração que durou e 459.699 ha derrubados entre 3 e 10 anos depois. Outro, de 1990 a 2017, achou que 27% das florestas jovens foram cortadas de novo e que isso escondia a perda de florestas antigas. A avaliação do Pacto vai só até 2018, e por isso não diz se o ganho dura: a pergunta segue aberta.
Onde funciona melhor e quem mantém a floresta
O efeito do Pacto foi maior longe das cidades, onde a terra rende menos em outros usos, e nos estados com mais multas florestais, embora os autores não separem uma coisa da outra. No estudo de posse da terra, terras indígenas e assentamentos tiveram mais restauração duradoura que propriedades privadas, e também mais reversões. As explicações são propostas dos autores, entre elas a lei de 2006 que protege florestas com mais de 10 anos, e ainda não foram testadas diretamente.
Como sabemos
Os números do Pacto vêm de uma avaliação com grupo de comparação, mas de uma amostra parcial e com dados de satélite até 2018; a meta é declaração da própria rede.
- Evidência forte: Na avaliação publicada em 2025, o apoio do Pacto aumentou a cobertura de floresta restaurada em 10 a 20 pontos percentuais em relação a terras semelhantes sem apoio. [1] Resumo
Contexto: Terras privadas apoiadas pelo Pacto em seis estados da Mata Atlântica, período 2010–2018, comparadas com terras pareadas sem apoio. · Limitações: Estudo observacional com pareamento: controla o que foi medido, não elimina fatores ocultos. O mecanismo (barreiras financeiras e de informação) é interpretação dos autores, apoiada em entrevistas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A faixa de 10 a 20 pontos varia com a definição de tratamento: cerca de 9,9 pontos se qualquer parte da célula de 2 ha tinha apoio, e cerca de 20 pontos se a célula estava totalmente coberta por parcelas do Pacto. [1] Results, Participation in PACTO induced additional restoration
Contexto: O desfecho é a floresta líquida recuperada dividida pela área inicialmente sem floresta em cada célula de 2 ha; não é porcentagem da propriedade inteira. · Limitações: Pontos percentuais da área restaurável da célula, não da floresta total. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O método comparou terras apoiadas pelo Pacto com terras semelhantes antes e depois do início do programa, para isolar o efeito do apoio (pareamento por escore de propensão e diferença-em-diferenças). [1] Introduction
Contexto: Unidades de 2 ha; controles buscados entre 0,5 e 5 km das parcelas apoiadas, dentro do mesmo município. · Limitações: Os autores não sabem o ano exato de entrada de cada propriedade e tratam todas como apoiadas a partir de 2010. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: As parcelas apoiadas na amostra somam 33.011 ha em seis estados, em 4.697 parcelas de 7 ha em média. [1] Results
Contexto: Dados de treze organizações executoras (dez ONGs e três empresas) reunidos num projeto-piloto de mapeamento. · Limitações: É o que foi mapeado até então, não o total do que a rede apoiou. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Os autores estimam que o Pacto causou cerca de 4.600 ha de floresta restaurada na amostra, o que equivale a 21% da área restaurável das parcelas totalmente tratadas; eles dizem que é um limite inferior. [1] Results
Contexto: Cálculo dos autores a partir do efeito médio, da intensidade de tratamento média (35%) e da área sem floresta das células tratadas (66.851 ha). · Limitações: É área atribuída ao programa na amostra analisada, não a área total restaurada pelo Pacto no bioma. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A meta do Pacto é viabilizar a recuperação de 15 milhões de hectares até 2050, com metas e monitoramento anuais. [3] Seção Meta
Contexto: Meta declarada pela própria rede em sua página institucional; é um objetivo, não um resultado. · Limitações: A página não informa quanto já foi recuperado nem como o total será verificado; por isso este texto não compara a meta com a área já restaurada. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: O Pacto foi estabelecido em abril de 2009 e articula instituições públicas e privadas, empresas, comunidade científica e proprietários de terras nos 17 estados do bioma. [3] Sobre o Pacto, O movimento
Contexto: Descrição da própria organização. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: O efeito do Pacto foi maior onde o custo de oportunidade da terra tende a ser menor (mais longe das cidades): o dobro a cerca de 130 km de uma cidade do que a menos de 1 km. [1] Results, Impact heterogeneity
Contexto: A distância à cidade serve de indicador do lucro que o dono deixa de ter com agricultura ou pasto. · Limitações: A distância é um indicador indireto; os autores não tinham dados de valor da terra. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: O efeito é maior em Bahia e Paraná, onde as multas florestais por hectare de floresta por habitante rural são maiores; os autores não descartam que o custo de oportunidade explique parte do padrão. [1] Results, Impact heterogeneity
Contexto: Multas do Ibama por infrações contra vegetação nativa, 2000–2018, usadas como indicador de fiscalização. · Limitações: Correlação entre seis estados; multas não captam toda a fiscalização. · Ligação entre fiscalização e efeito é compatível com os dados, não provada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O satélite de 30 m só detecta floresta restaurada depois de 3 a 5 anos, e o mapa das parcelas é incompleto; os autores dizem por isso que as estimativas provavelmente subestimam o efeito. [1] Discussion
Contexto: Aplica-se à avaliação do Pacto de 2000 a 2018. · Limitações: A direção do viés (subestimar) é argumento dos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em outro estudo de 2025, de 1985 a 2022, a Mata Atlântica ganhou 2.253.850 ha de restauração que durou ao menos 10 anos e perdeu 459.699 ha de restauração derrubada entre 3 e 10 anos depois. [2] Introduction
Contexto: Território de 1,9 milhão de áreas (propriedades privadas, terras indígenas, assentamentos, territórios quilombolas e unidades de conservação) no bioma inteiro. · Limitações: Este é um estudo descritivo de mapas, sem grupo de comparação para o Pacto; inclui regeneração natural e restauração ativa sem distingui-las. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A mesma análise mostra que terras indígenas e assentamentos de reforma agrária tiveram mais restauração duradoura por unidade do que propriedades privadas, e também mais reversões. [2] Resumo
Contexto: Comparação pareada por tamanho, cobertura florestal em 1985, clima, relevo, distância a estradas, rios e cidades, e densidade populacional. · Limitações: Diferenças médias por território, não por hectare; as áreas diferem muito em tamanho. Protegidas e quilombolas não diferiram das privadas de modo significativo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores propõem seis explicações para as diferenças entre regimes de posse, entre elas a Lei da Mata Atlântica (2006), que proíbe derrubar floresta com mais de 10 anos e teria levado donos a derrubar a mata nova antes disso; é hipótese, não resultado medido. [2] Underlying mechanisms
Contexto: O artigo cita estudos anteriores para esse efeito da lei; os dados do próprio artigo não o testam. · Limitações: Explicações propostas na discussão, sem teste direto. · Escrita como hipótese dos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: De 1990 a 2017, a cobertura de floresta nativa na Mata Atlântica ficou estável em cerca de 28 milhões de ha, mas a perda de florestas antigas foi escondida pelo ganho de florestas jovens, e 27% das jovens foram derrubadas de novo. [4] Resumo
Contexto: Mapas anuais do MapBiomas (Landsat, 30 m) para o bioma, que distinguem floresta nativa de plantios e estimam a idade da floresta nativa. · Limitações: Só o resumo foi lido; o estudo não avalia o Pacto. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Uma revisão de 2026 conclui que a evidência dos resultados da restauração na Mata Atlântica é desigual, sobretudo quando se separa o que foi relatado do que tem base causal, com linha de base, controle ou monitoramento de longo prazo. [5] Abstract
Contexto: Revisão de estudos revisados por pares e de iniciativas documentadas no bioma. · Limitações: Só o resumo e partes da introdução foram lidos. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Estimativa: O plantio de mudas, forma dominante de restauração ativa na região, pode custar até US$ 8.000 por hectare só no investimento inicial. [1] Results, Drivers of restoration success
Contexto: Valor máximo citado pelos autores a partir de outra publicação; custos variam com o local e o método. · Limitações: É teto, não custo médio. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Nature Communications — Evidence on scaling forest restoration from the Atlantic Forest Restoration Pact in Brazil
Toto, R.; Alix-García, J.; Sims, K. R. E.; Coutinho, B.; Muñoz Brenes, C.; Pugliese, L.; Mendes, A. F. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41467-025-59194-3 - Nature Communications — Land tenure regimes influenced long-term restoration gains and reversals across Brazil’s Atlantic forest
Benzeev, R.; Zhang, S.; Piffer, P. R.; Mills-Novoa, M. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41467-025-64732-0 - Pacto pela Restauração da Mata Atlântica — O movimento (Sobre o Pacto)
Pacto pela Restauração da Mata Atlântica · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - Science Advances — Hidden destruction of older forests threatens Brazil’s Atlantic Forest and challenges restoration programs
Rosa, M. R.; Brancalion, P. H. S.; et al. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.abc4547 - Environmental Management — Restoration Contexts and Trends in the Brazilian Atlantic Forest: Evidence from Science and Practice
Oliveira, S. C.; Soares-Filho, B. S.; Domingues, G. F.; Oliveira, U. · 2026 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s00267-026-02528-8
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)