Oceanografia

Rendimento máximo sustentável: o que mede, o que dizem as críticas e o que a FAO mostra sobre estoques

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

A FAO chama de sobrepescado o estoque cuja biomassa está abaixo de 80% da que daria o rendimento máximo sustentável (B/BMSY < 0,8). Pela edição de 2024 do relatório SOFIA, 37,7% dos estoques marinhos avaliados estavam nessa condição em 2021, contra 10% em 1974. Pelo volume desembarcado, 76,9% das capturas vinham de estoques sustentáveis: o número muda conforme o peso dado a cada estoque.

Estoque é a parte de uma população de peixes que é explorada e avaliada como uma unidade. Biomassa é o peso total dos peixes do estoque. A ideia do rendimento máximo sustentável (RMS, ou MSY, em inglês) é que existe um nível intermediário de pesca em que se retira a maior quantidade que pode ser tirada indefinidamente do estoque. BMSY é a biomassa que sustenta esse rendimento, e a razão B/BMSY compara o estoque atual com esse alvo. Segundo Thorpe (2019), a noção surgiu nos anos 1930 e entrou na Convenção da ONU sobre o Direito do Mar de 1982. A FAO usa essas razões para classificar cada estoque como subexplorado, plenamente explorado ou sobrepescado.

Manejo perfeito não zera os estoques abaixo do alvo

Hilborn e colegas (2020) lembram que, mesmo com a pesca sempre no nível do RMS, seria de esperar cerca de metade dos estoques acima de BMSY e metade abaixo. Por isso as agências definem "sobrepescado" bem abaixo do alvo, como menos de 0,8 BMSY, e não em qualquer valor abaixo de 1.

Como sabemos o estado de um estoque

O peso total de peixes de um estoque não é contado no mar: é estimado em avaliações. A FAO afirma que sua análise mundial se apoia sobretudo em avaliações estatísticas completas, mas também em métodos para dados escassos e em consulta a especialistas. A lista que ela acompanha tem 445 estoques agregados, cerca de 72% da produção marinha. A base de Hilborn e colegas é outra: 882 estoques, 635 deles com estimativas de biomassa ou pressão de pesca em relação a pontos de referência. [a5][a6]

A régua de 80%: abaixo do alvo não é colapso

A FAO classifica como sobrepescado o estoque com menos de 80% da biomassa-alvo (B/BMSY < 0,8) e como subexplorado o que passa de 120%. Hilborn e colegas argumentam que a linha é traçada bem acima do ponto em que a sobrevivência do estoque corre risco: mesmo um manejo sempre no nível do RMS deixaria cerca de metade dos estoques abaixo de BMSY. Estoques levados abaixo de 0,2 BMSY, perto do colapso, são outro caso; o bacalhau de Newfoundland e o orange roughy têm artigos próprios. [a3][a7]

O que dizem as críticas ao conceito

Thorpe (2019) descreve o RMS como simples e intuitivo para um estoque isolado, mas lembra que ele supõe ambiente constante e que a produtividade, e com ela o RMS, muda com o tempo; ele cita Larkin (1977) nesse ponto, e o texto de Larkin não foi aberto para este artigo. Em pescarias mistas, não dá para maximizar todos os estoques ao mesmo tempo. Um estudo de 2026 achou mudanças bruscas de produtividade em mais de um quarto de 315 estoques, o que pesa contra limiares fixos, mas ainda é um resultado único. [a8][a9][a10]

O que a FAO mostra, e como ler o número

Em 2021, 37,7% dos estoques avaliados estavam sobrepescados, contra 10% em 1974 e 35,4% em 2019; pelo volume desembarcado, 76,9% das capturas vinham de estoques sustentáveis. Por área, o Mediterrâneo e Mar Negro (37,5% sustentáveis) e o Pacífico Sudeste (33,3%) estão entre os piores. A própria FAO ressalva que outros estudos chegam a percentuais diferentes porque usam outros conjuntos de estoques e menos agregação. [a1][a2][a11][a14][a15]

O que o manejo muda, e o que ainda é projeção

A FAO destaca que estoques intensamente manejados têm, em média, abundância em alta ou nos alvos, e que em regiões com manejo menos desenvolvido a pressão é maior. Em Hilborn e colegas, 24% dos estoques ainda tinham biomassa baixa e pressão alta. Uma revisão anterior achou que dez anos bastavam para recuperar estoques acima de 0,5 BMSY, mas não os próximos do colapso. A projeção de 16,5 milhões de toneladas a mais é uma estimativa de 2013, não uma medição. [a12][a13]

Como sabemos

Números e definições vêm dos relatórios SOFIA da FAO e de artigos abertos lidos nos trechos citados; a crítica de Larkin (1977) é reportada de segunda mão, via Thorpe (2019), porque o original não abre para leitura automática.

Em debate: É simples e foi adotado em tratados e metas da ONU, mas Thorpe (2019) lembra que ele supõe ambiente constante e é difícil de aplicar a pescarias com várias espécies. Um estudo de 2026 (Pélissié e colegas) encontrou mudanças bruscas de produtividade em mais de um quarto de 315 estoques, o que desafia limiares fixos. Esses pontos são críticas reais, não consenso de que o conceito deva ser abandonado.

Fontes

  1. Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) — The State of World Fisheries and Aquaculture 2024: Blue Transformation in action
    FAO · 2024 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.4060/cd0683en
  2. Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) — The State of World Fisheries and Aquaculture 2022: Towards Blue Transformation
    FAO · 2022 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.4060/cc0461en
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Effective fisheries management instrumental in improving fish stock status
    Hilborn, R. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1909726116
  4. Journal of Fish Biology — What is multispecies MSY? A worked example from the North Sea
    Thorpe, R. B. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1111/jfb.13967
  5. Science Advances — Abrupt declines in fish productivity often precede stock collapses in marine fisheries
    Pélissié, M.; Devictor, V.; Jensen, O. P.; Dakos, V. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.aed7911
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)

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