Ecologia

Reintroduções: de 11% a 94% de sucesso, conforme o grupo avaliado, e o que separa acerto de fracasso

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

As estimativas publicadas de sucesso de reintroduções vão de 11% a 94%, porque os levantamentos avaliam grupos de animais, épocas e critérios diferentes. Num levantamento de solturas feitas de 1973 a 1986, 86% das de espécies de caça deram certo, contra 46% das de espécies ameaçadas. Qualidade do habitat, número de animais soltos e duração do programa ajudaram a prever o resultado.

Translocação é o movimento de organismos por humanos, com soltura em outro lugar. A IUCN chama de translocação de conservação a que tem como objetivo principal um benefício de conservação, e a divide em reforço (soltar animais numa população que já existe), reintrodução (soltar dentro da área original da espécie, de onde ela desapareceu) e introduções fora dessa área. A reintrodução procura restabelecer uma população viável. Como a população passa por fases (estabelecimento, crescimento e regulação), "deu certo" depende de quando e com que objetivo se mede. Casos específicos, como o mico-leão-dourado e a ararinha-azul, têm artigos próprios.

Muitos artigos, poucos experimentos

Entre 1990 e 2005, 454 artigos sobre reintroduções saíram em 101 periódicos. A maior parte era retrospectiva: avaliava o que já tinha sido feito, em vez de testar hipóteses definidas antes da soltura.

O que a IUCN chama de reintrodução, e de sucesso

Para a IUCN, a reintrodução solta organismos dentro da área de distribuição original, de onde a espécie desapareceu, e procura restabelecer uma população viável. Difere do reforço, que acrescenta animais a uma população existente, e das introduções de conservação, fora da área original. Nas diretrizes, uma população translocada com sucesso passa por estabelecimento, crescimento e regulação por densidade. Medir sucesso no primeiro ano e no décimo responde, portanto, a perguntas diferentes.

Por que 11% e 94% não se comparam

Segundo a revisão de Sutton (2015), estimativas de revisores diferentes ficam em 46%, 11%, 20% e 26%, enquanto translocações de mamíferos herbívoros na África do Sul chegam a 94%. O levantamento de Griffith e colegas separou espécies de caça (86%) das ameaçadas (46%). Os números respondem a perguntas distintas: quais animais, em que época, com que definição de sucesso. Por isso não cabe resumi-los numa taxa única.

O que se associa ao resultado

No levantamento de 1989, habitat, local da soltura na distribuição da espécie, número de animais soltos, duração do programa e traços reprodutivos classificaram corretamente 81% dos casos. As diretrizes da IUCN acrescentam que o sucesso aumenta com o número de indivíduos soltos e que não basta remover a causa original do declínio: outras ameaças podem ter surgido e a área antiga pode ter perdido o habitat. São associações, não prova de causa em cada caso.

Como sabemos, e o que ainda falta saber

Os números vêm de levantamentos de casos publicados, não de experimentos. Seddon e colegas (2007) viram que a maior parte da pesquisa era retrospectiva, e Taylor e colegas (2017) que ela segue centrada no estabelecimento de curto prazo, com poucos estudos comparando alternativas de manejo. Sutton (2015) levanta a hipótese de que liderança e gestão influenciam o desfecho, a partir de um único projeto; falta testá-la em mais casos.

Como sabemos

As definições e os números principais têm fonte aberta, mas parte das taxas (11%, 20%, 26%, 94%) vem de segunda mão e não há taxa única.

Fontes

  1. IUCN Species Survival Commission — Guidelines for Reintroductions and Other Conservation Translocations (versão 1.0)
    IUCN/SSC · 2013 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Science — Translocation as a species conservation tool: status and strategy
    Griffith, B.; Scott, J. M.; Carpenter, J. W.; Reed, C. · 1989 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.245.4917.477
  3. PeerJ — Leadership and management influences the outcome of wildlife reintroduction programs: findings from the Sea Eagle Recovery Project
    Sutton, A. E. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.7717/peerj.1012
  4. Conservation Biology — Developing the science of reintroduction biology
    Seddon, P. J.; Armstrong, D. P.; Maloney, R. F. · 2007 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/j.1523-1739.2006.00627.x
  5. Trends in Ecology & Evolution — Is reintroduction biology an effective applied science?
    Taylor, G.; Canessa, S.; Clarke, R. H.; Ingwersen, D.; et al. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.tree.2017.08.002
  6. Science — Reversing defaunation: restoring species in a changing world
    Seddon, P. J.; Griffiths, C. J.; Soorae, P. S.; Armstrong, D. P. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1251818
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)

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