Biologia
Quem descobriu os bacteriófagos? Twort (1915), d'Herelle (1917) e a disputa pela prioridade
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Micróbios
Dois pesquisadores descreveram, de forma independente, um agente filtrável que dissolve bactérias. O inglês Frederick Twort o observou em 1915 em colônias de micrococos que ficavam transparentes. O franco-canadense Félix d'Herelle o descreveu em 1917 como um parasita de bactérias. Hoje se reconhecem os dois, mas há quem atribua a descoberta plena a d'Herelle.
Bacteriófagos, ou fagos, são vírus que infectam bactérias. Em 1915 chamava-se de vírus "ultramicroscópico" ou "filtrável" um agente invisível ao microscópio comum que atravessa filtros finos de porcelana, e não se sabia ao certo sua natureza. Twort trabalhava no Brown Institution, em Londres, e procurava vírus filtráveis inofensivos; seu achado veio de culturas ligadas à vacínia. D'Herelle estudava, no Instituto Pasteur, em Paris, as fezes de convalescentes de disenteria. Os dois viram lise, isto é, a dissolução das células bacterianas por um agente transmissível de cultura em cultura. A diferença esteve na interpretação, e foi ela que alimentou a disputa. A imagem direta dos fagos só veio com o microscópio eletrônico, no fim da década de 1930.
Uma doença de micrococos
Twort escreveu em 1915 que o material transparente, por levar à própria destruição das colônias e passar a culturas sadias, quase poderia ser considerado uma doença infecciosa aguda de micrococos. Ele não deu o passo seguinte, o de chamá-lo de parasita.
Como Twort viu o fenômeno
Twort não procurava vírus de bactérias. Queria cultivar vírus filtráveis inofensivos a partir de solo, estrume, capim e água de lagoa, e não obteve nenhum. Seus resultados vieram de cultivos de vacina de bezerro, em que colônias de micrococos ficavam vítreas e transparentes. Tocando uma cultura sadia com um pouco desse material, a transparência se espalhava a partir do ponto. Ele concluiu com cautela: a origem no próprio micrococo era a mais provável, e a enzima, uma hipótese de trabalho.
Como d'Herelle mostrou que era um parasita vivo
D'Herelle partiu de fezes de convalescentes de disenteria: semeou-as em caldo e filtrou. O filtrado dissolvia o bacilo de Shiga e podia ser repassado a novas culturas. O argumento decisivo foi a diluição: a cerca de um milionésimo, a mistura espalhada em ágar deixava círculos sem crescimento num tapete de bacilos. Uma substância química, escreveu, não se concentraria em pontos definidos; logo, eram colônias de um organismo. Ele concluiu que o agente era um "bactériophage obligatoire".
Limites das duas provas
Nenhum dos dois viu o agente. Em 1915 e 1917 a prova era indireta: filtração, transmissão em série, diluição e efeito sobre bactérias. Por isso a pergunta sobre a natureza do agente ficou em aberto por mais de duas décadas, e a maior parte da comunidade científica ficou com a ideia da enzima lítica. A visão viral de d'Herelle só foi confirmada quando a microscopia eletrônica visualizou o fago, no fim dos anos 1930. Mecanismos de infecção e usos clínicos ficam para outros textos.
Reconhecimento
D'Herelle recebeu honrarias, como a Lane Lecture e doutorados honorários, mas nunca o Prêmio Nobel. Bordet, seu principal opositor, havia ganho o Nobel em 1919 por trabalhos sobre imunidade. Revisões recentes tratam Twort e d'Herelle como co-descobridores independentes, e há historiadores que, pesando a interpretação, dão a d'Herelle o crédito da descoberta.
Como sabemos
Os dois trabalhos originais foram lidos na íntegra; a disputa vem de historiadores com texto aberto em PMC.
Em debate: Twort (1915) descreveu a lise transmissível e considerou uma enzima provável; d'Herelle (1917) a interpretou como parasita vivo. Historiadores divergem sobre o peso de cada interpretação, mas concordam que o fenômeno foi visto antes por Twort.
- Fato estabelecido: Em 4 de dezembro de 1915, Twort, inglês, publicou na Lancet, a partir do Brown Institution (Londres), que um material transparente obtido de colônias de micrococos atravessava filtros finos de porcelana. [1] p. 1242 [5] As controvérsias científicas
Contexto: Brown Institution, Londres, 1915. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Twort procurava vírus filtráveis inofensivos em solo, estrume, capim e água de lagoa; os resultados interessantes vieram de cultivos de vacínia glicerinada de bezerro, em que colônias de micrococos que não se subcultivavam ficavam vítreas e transparentes. [1] p. 1242
Contexto: Micrococos brancos e amarelos isolados de vacínia. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O material transparente espalhava-se pela cultura ao toque e podia ser passado de cultura em cultura por um número indefinido de gerações, mas não crescia sozinho em nenhum meio. [1] p. 1242
Contexto: Experimentos de Twort com micrococos de vacínia. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Twort não definiu a natureza do agente: considerou provável que o material fosse produzido pelo próprio micrococo e inferiu que continha uma enzima, sem descartar um vírus ultramicroscópico. [1] p. 1243
Contexto: Conclusões do próprio Twort em 1915. · Limitações: Twort registrou que a possibilidade de ser um vírus não fora definitivamente descartada; não a defendeu. · Interpretação do autor em 1915, apresentada com cautela por ele mesmo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na nota de 1917, d'Herelle relatou que o filtrado de caldo semeado com fezes de convalescentes de disenteria parava o crescimento do bacilo de Shiga e o dissolvia (lise), em horas ou dias. [2] p. 374
Contexto: Fezes de convalescentes de disenteria bacilar; bacilo de Shiga. · Limitações: Texto lido em OCR do Internet Archive. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: D'Herelle mostrou a natureza viva e replicante do agente: diluído a cerca de um milionésimo e espalhado sobre ágar, ele deixava círculos sem crescimento num tapete de bacilos, que só poderiam ser colônias do agente. [2] p. 374
Contexto: Experimento com cultura lisada de Shiga diluída; é o princípio do que hoje se chama placa de lise. · Limitações: A expressão "placa de lise" e a leitura moderna do método são nossas; a nota descreve "cercles" sem cultura. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: D'Herelle estimou que uma cultura lisada de Shiga continha de cinco a seis bilhões de germes filtrantes por centímetro cúbico. [2] p. 374
Contexto: Contagem de d'Herelle em 1917, por diluição. · Limitações: A unidade "cúbico" vem da frase seguinte da nota; o OCR corta o fim desta frase. · Estimativa de 1917 por diluição, não contagem direta de partículas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: D'Herelle concluiu na nota que o agente era um "bactériophage obligatoire", um parasita que só se multiplica à custa de bacilos vivos. [2] p. 375
Contexto: Nota de 1917. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: D'Herelle, franco-canadense, é creditado com a descoberta do bacteriófago em 1917, no Instituto Pasteur de Paris; ele já havia feito as observações básicas em 1916, como voluntário sem salário, e a nota saiu em 10 de setembro de 1917. [5] Introdução [3] §2 [4] Introdução
Contexto: Paris, 1916–1917. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Segundo o historiador W. C. Summers, Twort descreveu o fenômeno, mas não o interpretou como vírus, parasitismo intracelular ou reprodução em série de um agente infeccioso, o que d'Herelle fez; por isso Summers atribui a d'Herelle o crédito da descoberta. [4] Introdução
Contexto: Avaliação histórica de um autor. · Limitações: Outros textos tratam os dois como co-descobridores independentes; a diferença está no peso dado à interpretação. · Julgamento de historiador; a prioridade é debate historiográfico, não dado experimental. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Uma revisão de 2025 trata os dois como co-descobridores independentes e registra que Twort notou, em 1915, um agente filtrável, transparente e infeccioso que dissolvia culturas de micrococos, sem definir sua natureza. [6] Introdução
Contexto: Revisão sobre aplicações dos fagos; a história é só a introdução. · Limitações: Fonte secundária; a base primária é a de Twort (f1) e d'Herelle (f2). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A prioridade foi contestada por Jules Bordet e seu discípulo André Gratia, que por quase uma década atacaram d'Herelle, discutindo a ideia de vírus e dizendo que Twort chegara primeiro; em 1931, d'Herelle recorreu aos tribunais de Paris para forçar a publicação de seu desafio a Bordet nos Annales do Instituto Pasteur. [3] §2
Contexto: Anos 1920 a 1931, Bruxelas e Paris. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Uma revisão histórica sustenta que Bordet voltou a atenção a Twort porque este se inclinava à natureza enzimática do fago, e que estudos historiográficos documentam a boa-fé substancial de d'Herelle; segundo W. C. Summers, o próprio Twort teve papel menor na controvérsia. [5] As controvérsias científicas [4] Nota 2
Contexto: Controvérsia dos anos 1920–1930. · Limitações: Leitura de historiadores; as motivações pessoais são inferidas por eles. · Motivos pessoais descritos por historiadores, não verificáveis diretamente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A maior parte da comunidade científica, inclusive os manuais-padrão, ficou com a ideia de Bordet de que o fago era uma enzima lítica que se autoperpetuava, até a microscopia eletrônica visualizar o fago: as primeiras imagens saíram na Alemanha em 1939 e foram publicadas em 1940. [3] §3
Contexto: Debate científico até a Segunda Guerra. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: D'Herelle recebeu honrarias, como a Lane Lecture e doutorados honorários, mas nunca o Prêmio Nobel; Bordet, seu principal opositor, ganhou o Nobel em 1919 por trabalhos sobre imunidade. [5] As controvérsias científicas [3] §2
Contexto: Reconhecimento em vida. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- The Lancet (Brown Institution, Londres) — An investigation on the nature of ultra-microscopic viruses
Twort, F. W. · 1915-12-04 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/S0140-6736(01)20383-3 - Académie des sciences (Paris) — Sur un microbe invisible antagoniste des bacilles dysentériques (Comptes rendus de l'Académie des sciences, t. 165, n. 11, p. 373-375)
d'Herelle, F. · 1917-09-10 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Bacteriophage — The strange history of phage therapy
Summers, W. C. · 2012 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.4161/bact.20757 - Bacteriophage — Félix Hubert d'Herelle (1873-1949): History of a scientific mind
Summers, W. C. · 2016 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1080/21597081.2016.1270090 - Canadian Journal of Infectious Diseases and Medical Microbiology — Phage as an antimicrobial agent: d'Herelle's heretical theories and their role in the decline of phage prophylaxis in the West
Fruciano, D. E.; Bourne, S. · 2007 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1155/2007/976850 - Antibiotics (MDPI) — A Century of Bacteriophages: Insights, Applications, and Current Utilization
Dkhili, S.; Ribeiro, M.; Ben Slama, K. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/antibiotics14111080
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)