Ciências da Terra

Quanto gelo há na Terra e onde está: a Antártida guarda cerca de 58 m de nível do mar; a Groenlândia, 7,4 m

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Água na Terra

Se todo o gelo da Antártida derretesse, o nível do mar subiria cerca de 58 m; o da Groenlândia, cerca de 7,4 m; o de todas as geleiras e calotas de montanha, cerca de 0,3 m. Somados, são perto de 66 m, mas isso é um limite teórico, sem prazo, e não uma previsão. O número da Antártida carrega incerteza, porque o leito de rocha sob o gelo foi medido de forma desigual.

Há três reservatórios de gelo em terra. Os mantos de gelo da Antártida e da Groenlândia são os maiores; as calotas e as geleiras de montanha são bem menores, mas somam centenas de milhares de corpos de gelo espalhados pelo mundo. Para pôr tudo na mesma régua usa-se o equivalente em nível do mar: a altura que o oceano ganharia se aquele gelo virasse água e se espalhasse por igual por todos os oceanos. Só conta o gelo apoiado em terra acima da linha de flutuação, isto é, o que ainda não deslocaria água. Plataformas de gelo e gelo marinho já flutuam, já deslocam água e ficam fora dessa conta. O resultado é um limite superior teórico: não informa em quanto tempo nem se o derretimento total ocorreria.

Mais gelo, quase o mesmo mar

Quando o mapa Bedmap2, de 2013, corrigiu o leito da Antártida, o volume de gelo subiu 4,6% (1,2 milhão de km³), mas o equivalente em nível do mar passou só de 57 m para 58 m: o leito ficou em média 72,6 m mais fundo, e mais gelo passou a repousar abaixo do nível do mar.

Três reservatórios, três ordens de grandeza

A Antártida cobre quase 14 milhões de km² e chega a quase 4,9 km de espessura; as estimativas de volume vão de 27 milhões de km³ (Bedmap2) a cerca de 30 milhões (NSIDC). A Groenlândia, com 1,7 milhão de km², guarda cerca de 3 milhões de km³ (2,99 no BedMachine v3). As geleiras e calotas de montanha somam cerca de 150 mil km³, espalhadas por centenas de milhares de corpos de gelo. Juntos, os dois mantos concentram mais de 99% do gelo em terra, e a Antártida, sozinha, quase 90% (conta nossa).

Do volume ao nível do mar: a conta tem desconto

Dividir o volume pela área do oceano não basta. O gelo é menos denso que a água do mar (917 contra 1027 kg/m³) e o oceano cobre 3,618 × 10⁸ km². Para a Groenlândia, 2,99 milhões de km³ dão cerca de 7,4 m (conta nossa), igual ao valor publicado. Para a Antártida, a mesma conta com cerca de 27 milhões de km³ daria perto de 66 m, mas o publicado é 58 m: onde o gelo repousa abaixo do nível do mar, só conta o que está acima da linha de flutuação. Esses números desprezam deformação da crosta e dilatação térmica da água.

Como sabemos: medir o que está sob o gelo

A espessura vem de radar de aviões que atravessam o gelo, de sísmica e, onde faltam as duas, de gravimetria e de modelos. No Bedmap2, só 34% das células têm medição direta; nas demais o erro conservador é de ± 300 m,. Na Groenlândia, os voos da Operação IceBridge somaram mais de 580.000 km, e a conservação de massa preenche as faixas costeiras sem radar. Daí as barras de erro: o volume sai de modelos calibrados por medições esparsas, não de uma pesagem.

Geleiras e calotas: pouco gelo, muito espalhado

Os 0,32 m das geleiras e calotas parecem pouco ao lado de 58 m, mas cada região tem sua conta. Os Andes do Sul, por exemplo, somam 29,4 mil km² de gelo e entre 12,8 e 17,4 mm de nível do mar, conforme a das três estimativas. Estimativas independentes do total (311, 324 e 323 mm) concordam dentro da incerteza relativa de 25 a 28%, o que dá confiança na ordem de grandeza, mas não no detalhe regional, onde a espessura medida é escassa.

Como sabemos

Os números centrais vêm de fontes primárias e institucionais lidas, mas o valor da Antártida depende de leito medido de forma esparsa e a soma de cerca de 66 m é conta nossa.

Fontes

  1. National Snow and Ice Data Center, Universidade do Colorado em Boulder — Ice Sheets
    National Snow and Ice Data Center (NSIDC) · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. The Cryosphere (Copernicus) — Bedmap2: improved ice bed, surface and thickness datasets for Antarctica
    Fretwell, P. et al. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.5194/tc-7-375-2013
  3. Geophysical Research Letters (AGU) — BedMachine v3: Complete Bed Topography and Ocean Bathymetry Mapping of Greenland From Multibeam Echo Sounding Combined With Mass Conservation
    Morlighem, M.; Williams, C. N.; Rignot, E. et al. · 2017-11-01 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/2017GL074954
  4. Scientific Data (Nature Portfolio) — Machine-learned global glacier ice volumes
    Maffezzoli, N.; Rignot, E. et al. · 2026-07-30 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41597-026-07744-9
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)

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