Biologia
Uma revisão de 2017 estima 2,2 a 3,8 milhões de espécies de fungos; só cerca de 120 mil têm nome aceito
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Fungos
Ninguém sabe ao certo. Uma revisão de 2017 estima entre 2,2 e 3,8 milhões de espécies de fungos, e cerca de 120 mil têm nome aceito; pelas contas dos autores, só de 3% a 8% dos fungos já foram nomeados. Outros trabalhos chegam a valores bem menores ou muito maiores, até 12 milhões, porque cada método parte de suposições diferentes e nenhum deles conta os fungos diretamente.
Fungos são um reino à parte, que inclui cogumelos, bolores, leveduras e os fungos dos líquens. Para estimar quantas espécies existem é preciso saber o que se chama de espécie: em fungos, muitas só se distinguem pelo DNA. Um marcador padrão é o ITS, trecho de DNA usado como "código de barras". Em amostras de solo ou ar, o sequenciamento ambiental lê o DNA de tudo o que há ali, sem isolar os organismos, e agrupa leituras parecidas em unidades chamadas OTUs, que fazem o papel de espécies provisórias. Cada estimativa global combina uma contagem do que já foi descrito com uma extrapolação do que falta, e os dois lados são incertos.
Um fungo, 189 espécies
O líquen Cora glabrata, tratado por muito tempo como uma única espécie, foi dividido por análises de DNA em pelo menos 189. É o recorde citado na revisão de 2017 para espécies escondidas sob um nome só.
Por que as estimativas variam tanto
A estimativa de 1,5 milhão, de 1991, nasceu da relação entre fungos e plantas no Reino Unido. Desde então, outras abordagens produziram resultados diferentes: cerca de 0,6 milhão a partir do ritmo de descrição de grupos taxonômicos, 2,2 a 3,8 milhões na revisão de 2017 e cerca de 12 milhões em 2019. Os métodos se sobrepõem em parte, e os próprios autores de 2017 dizem que é difícil combiná-los.
Espécies escondidas sob um mesmo nome
Espécies crípticas são biologicamente distintas, mas parecem iguais ao microscópio. Quando se analisa o DNA de um "fungo" coletado no mundo todo, ele costuma se dividir em várias espécies regionais, como no mata-moscas Amanita muscaria e no líquen Cora glabrata. A revisão de 2017 aplica um fator de correção geográfica a esses resultados, e o fator é definido pelos autores.
O que o DNA ambiental conta, e o que não conta
O sequenciamento ambiental encontra fungos que nunca foram cultivados nem vistos, como o grupo Archaeorhizomycetes, conhecido primeiro só por DNA. Mas uma sequência não é uma espécie: dois autores que defendem a faixa de 2,2 a 3,8 milhões mostram que o agrupamento em OTUs pode inflar a conta por um fator de 5 a 50 em um caso testado. Wu e colegas, em outra conta, tratam OTUs de modo mais direto e chegam a 12 milhões.
Nomear o que só se conhece por DNA
Pelas regras atuais, o nome de um fungo precisa de um espécime ou cultura de referência. Como boa parte da diversidade só aparece como sequência, houve propostas para aceitar sequências como tipo, o que encontrou oposição. Wu e colegas sugerem um tipo digital provisório. Enquanto isso, milhares de sequências ficam sem nome e não entram nas contagens oficiais de espécies.
Como sabemos
As faixas e os métodos foram conferidos nas revisões, mas todos os números globais são estimativas controversas e as fontes são de autores de um mesmo debate.
Em debate:
Em debate:
- Estimativa: Hawksworth e Lücking (2017) concluíram que a estimativa tradicional de 1,5 milhão de espécies de fungos é conservadora e propuseram a faixa de 2,2 a 3,8 milhões. [1] Resumo
Contexto: Reino Fungi, incluindo líquens e Microsporidia; não inclui oomicetos nem mixomicetos. · Limitações: É uma estimativa de dois autores a partir de métodos que se sobrepõem em parte; os próprios autores dizem que a combinação deles é difícil. · Faixa de uma revisão específica, não consenso: outras estimativas vão de cerca de 0,6 milhão a 12 milhões. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2017 havia cerca de 120.000 espécies de fungos descritas e aceitas; uma análise de 2018 dá 115.000 a 140.000. O total de nomes publicados é de 2 a 3 vezes o de espécies aceitas, por causa de sinônimos. [1] Seção "Numbers of Described Species" [3] Resumo
Contexto: Contagem do Index Fungorum e do Species Fungorum (Catalogue of Life), em 2017-2018. · Limitações: O número aceito muda todo ano com novas descrições e revisões; não verifiquei a contagem mais recente. A pauta falava em cerca de 150 mil, valor que as fontes lidas não sustentam. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Com 120.000 espécies aceitas, os autores calculam que no melhor caso apenas 8%, e no pior apenas 3%, dos fungos já têm nome. [1] Resumo
Contexto: Proporção de 120.000 sobre 3,8 milhões (3%) e sobre 2,2 milhões (cerca de 5%); o valor de 8% corresponde a cerca de 1,5 milhão. · Limitações: Depende inteiramente da estimativa do total, que é a parte incerta. · Percentual derivado de uma estimativa, não de uma contagem. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O ritmo de descrição de fungos ficou em cerca de 1.300 espécies novas por ano nos 40 anos anteriores a 2017 e não mostra sinal de estabilização do total aceito. [1] Seção "Numbers of Described Species"
Contexto: Dados do Index Fungorum, de 1750 a 2015; os autores citam alta para cerca de 1.800 por ano desde 2010. · Limitações: Nomes novos não equivalem a espécies realmente novas, porque é difícil checar se algo já foi nomeado antes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Em 45 estudos de DNA que reexaminaram grupos de fungos, o número de espécies reconhecidas depois, dividido pelo de antes, teve mediana 3,0 e média 14,5; ponderada por tamanho do grupo e estilo de vida, a média foi 11,3. Os autores usam isso para sugerir que há cerca de dez vezes mais espécies do que as reconhecidas. [1] Seção "Evidence from species recognition studies"
Contexto: Estudos publicados entre 1998 e 2016, de liquens, patógenos de plantas, fungos do solo e outros. · Limitações: Amostra de estudos escolhida pelos autores, com fatores de correção geográfica e pesos definidos por eles; estudos que acham grupos já bem delimitados têm menos chance de serem publicados. · Média puxada por casos extremos (Cora glabrata, de 1 para 189 espécies); a mediana é bem menor. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Medições de fungos em locais específicos dão razões fungo:planta de 1,8:1 a 19,1:1; a média das citadas, 9,8:1, aplicada a cerca de 380.000 plantas vasculares, leva a quase 3,8 milhões de espécies de fungos. No Esher Common (Reino Unido), 3.400 fungos para 420 plantas dão 8:1. [1] Seção "Evidence from extrapolations based on plant:fungus ratios"
Contexto: Método análogo ao usado por Erwin para insetos: conta-se quantos fungos há por planta em locais bem estudados e multiplica-se pelo número global de plantas. A multiplicação 9,8 x 380.000 é nossa e dá 3,72 milhões (o texto diz "quase 3,8 milhões"). · Limitações: A razão varia com o local e o esforço de coleta; o número de fungos de um local continua subindo por décadas, enquanto o de plantas não. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Um estudo com 365 amostras de solo no mundo concluiu que a riqueza de fungos teria sido superestimada em 1,5 a 2,5 vezes pelas razões fungo:planta; Hawksworth e Lücking respondem que extrapolar do solo para todos os fungos de um local não se sustenta. [1] Seção "Evidence from extrapolations based on plant:fungus ratios"
Contexto: O estudo de solo é o de Tedersoo e colegas (2014), conhecido aqui por segunda mão, pelo relato de Hawksworth e Lücking. · Limitações: Só li a crítica de uma das partes; o artigo original de Tedersoo não foi aberto. · Divergência publicada entre especialistas sobre se solo representa o conjunto dos fungos de um local. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Nas leituras de DNA ambiental, o limiar de semelhança usado para agrupar sequências muda o resultado: num conjunto de leituras de um mesmo gênero de fungos de solo, o agrupamento poderia superestimar a riqueza de espécies em um fator de 5 a 50. [1] Seção "Evidence from environmental sequencing techniques"
Contexto: Teste com 106.563 leituras do gênero Archaeorhizomyces; a análise filogenética por alinhamento indicou cerca de 500 linhagens, enquanto o agrupamento deu de 2.658 a 28.435 OTUs conforme o limiar (95% a 99%). · Limitações: Dado não publicado em periódico na época (citado como Smith e Lücking, em preparação), de um único gênero; os autores são os mesmos que defendem a faixa de 2,2 a 3,8 milhões. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em novembro de 2016 o GenBank tinha 34.878 espécies de fungos com nome e outras 94.059 unidades do tipo espécie sem nome. [1] Seção "Evidence from environmental sequencing techniques"
Contexto: Contagem de 25 de novembro de 2016, informada por C. L. Schoch ao artigo; o texto diz que os dois números cresceram 68% e 117% em cinco anos. · Limitações: As OTUs sem nome não são, todas, espécies novas: parte pode ser de espécies conhecidas mas ainda sem sequência, já que cerca de 85.000 espécies aceitas não têm nenhuma. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2017 o Sequence Read Archive guardava mais de um bilhão de leituras do marcador ITS de fungos, cerca de mil vezes mais que o número de sequências ITS de fungos no GenBank. [3] Resumo
Contexto: Consulta de 19 de outubro de 2017; o Sequence Read Archive guarda leituras brutas de estudos ambientais, o GenBank guarda sequências individuais. · Limitações: Dado de 2017, já defasado; o volume de leituras só cresce. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Somando fontes de espécies não reconhecidas (cerca de 1 milhão por espécies crípticas, ao menos 1 milhão por sequenciamento ambiental e no máximo 120 mil por coleta tradicional), Hawksworth e Lücking chegam a pouco mais de 2,2 milhões, o limite inferior da faixa. [1] Seção "Toward a working number of global fungal species richness"
Contexto: O limite superior (3,8 milhões) vem do método da razão fungo:planta; os autores assumem que o sequenciamento ambiental acrescenta ao menos tanto quanto as espécies crípticas. · Limitações: A parcela do sequenciamento ambiental é suposição ("pelo menos tão alta quanto" a das espécies crípticas), não medição. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Wu e colegas (2019) estimaram cerca de 12 milhões de espécies (faixa de 11,7 a 13,2 milhões), multiplicando estimativas anteriores pela razão entre OTUs de métodos sem cultivo e espécies obtidas por cultivo nas mesmas amostras. [2] Seção "Revised estimate of fungal diversity"
Contexto: A razão média de 8,8 vem de uma compilação de estudos que compararam espécies cultivadas e OTUs nas mesmas amostras (de 0,6 a 107,3 vezes). · Limitações: Trata cada OTU como espécie, o que a crítica de Hawksworth e Lücking considera enganoso (afirmação a8), e aplica uma razão obtida em amostras específicas ao total global. · Valor muito acima do consenso mais citado; a conta tem premissas fortes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Uma regressão sobre a série de espécies descritas indicaria que descrever todas as espécies da faixa de 2,2 a 3,8 milhões só ocorreria por volta dos anos 2210 a 2245, no ritmo histórico. [2] Introdução, Figura 1
Contexto: Regressão exponencial entre o número de fungos conhecidos nas edições do Dictionary of the Fungi e os anos (R2 = 0,99). · Limitações: Extrapolação do ritmo passado; mudanças em técnicas ou no número de taxonomistas alteram o resultado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Há debate sobre aceitar uma sequência de DNA como "tipo" para nomear fungos conhecidos só por DNA: Hawksworth e Lücking e colegas defendem; a Comissão Internacional de Taxonomia de Fungos e outros se opuseram. [2] Seção "Fungal nomenclature based on environmental sequences" [3] Resumo
Contexto: Pelo Código Internacional de Nomenclatura, o nome de um fungo exige um tipo físico (espécime ou cultura). Wu et al. propõem um "tipo digital" provisório, com nome formado pela linhagem mais a espécie. · Limitações: Descrevo a divergência até 2019; não verifiquei se o Código foi alterado depois. · Divergência real e publicada entre especialistas; f3 é de autores favoráveis à proposta e f2 resume também as objeções. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Microbiology Spectrum (ASM) — Fungal Diversity Revisited: 2.2 to 3.8 Million Species
Hawksworth, D. L.; Lücking, R. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1128/microbiolspec.funk-0052-2016 - Mycology (Instituto de Microbiologia, Academia Chinesa de Ciências) — Current insights into fungal species diversity and perspective on naming the environmental DNA sequences of fungi
Wu, B.; Hussain, M.; Zhang, W.; Stadler, M.; Liu, X.; Xiang, M. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1080/21501203.2019.1614106 - IMA Fungus — Formal description of sequence-based voucherless Fungi: promises and pitfalls, and how to resolve them
Lücking, R.; Hawksworth, D. L. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.5598/imafungus.2018.09.01.09
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 1; conferência de trechos automatizada)