Biologia

Podridão branca e marrom: genomas de 2014 sugerem um contínuo, e não duas categorias, na madeira

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Fungos

Na divisão clássica, fungos de podridão branca degradam toda a parede celular da madeira, lignina inclusive, e os de podridão marrom deixam a lignina quase intacta. Em 2014, 33 genomas de basidiomicetos incluíram espécies sem as peroxidases da lignina que têm, porém, o arsenal de celulases da podridão branca, e os autores propuseram um contínuo. Análises de 2024 ainda separam bem os dois grupos pelo genoma, com ambiguidade em dezenas de espécies.

A madeira tem três componentes principais: celulose (polímero de glicose, em microfibrilas cristalinas), hemicelulose e lignina, um polímero aromático resistente. Os fungos de podridão branca usam peroxidases de classe II (PODs) e muitas enzimas sobre a celulose cristalina. Os de podridão marrom perderam quase todas essas enzimas e, segundo o modelo corrente, oxidam a celulose com radicais gerados por reação de Fenton (ferro mais peróxido de hidrogênio). O resíduo marrom é lignina modificada. A origem evolutiva dessas enzimas é tema de outro artigo; aqui o foco é como a classificação funciona hoje.

Genes não são atividade

Os genomas de 2014 diziam o que o fungo pode fazer, não o que faz na madeira. Por isso os autores testaram em laboratório dois fungos sem POD e viram erosão de todas as camadas da parede, embora só em pontos.

Como sabemos: genomas, análise multivariada e ensaios

Riley et al. compararam 33 genomas e fizeram uma análise de componentes principais com correção filogenética sobre famílias de enzimas ativas em carboidratos e lignina. Dois fungos recém-sequenciados, sem PODs, agruparam-se perto do modelo de podridão branca Phanerochaete chrysosporium. Ensaios em madeira de pinho e de álamo mostraram erosão de todas as camadas da parede, mas só em áreas localizadas. Genoma indica potencial; o ensaio checa a função, e aqui foi limitado.

O que muda para a podridão marrom

O estudo de 2014 achou expansão de genes de policetídeo-sintases redutoras em linhagens independentes de podridão marrom, o que sugere algum papel na vida desses fungos, ainda sem função conhecida. Em 2022, raios X sobre celulose mostraram que o padrão de dois fungos (um de podridão marrom, um de serapilheira) não igualava o da reação de Fenton em tubo. Em 2025, o Gloeophyllum trabeum removeu até 36% da lignina da madeira em laboratório, mais que o relatado antes.

Um contínuo ou duas caixas?

Em 2024, um algoritmo previu o modo de decomposição com mais de 98% de acerto só pelo número de genes, de modo que as duas categorias têm assinatura genômica. Mas 34 espécies ficaram em probabilidade intermediária, mais da metade dos fungos de podridão marrom tem genes de peroxidases e nenhuma família separa os grupos por completo. A leitura mais cautelosa é que o par é útil como atalho, não como descrição completa.

Onde termina este artigo

A datação das peroxidases e a hipótese de ligação com o fim do carvão foram tratadas em outro artigo, e a digestão de madeira por cupins, que usa outros agentes, em outro ainda. Este texto cuida só da divisão funcional entre fungos de podridão branca e marrom e do que os genomas e ensaios mostram sobre ela, sem repetir aquelas discussões.

Como sabemos

Quatro artigos abertos lidos na íntegra, com trechos conferidos; o debate de nomenclatura segue aberto.

Em debate: Riley et al. (2014) propõem um contínuo e restringir o termo podridão branca; Hasegawa et al. (2024) acham que genes separam os dois grupos com mais de 98% de acerto, mas relatam uma categoria intermediária (podridão cinza) e ausência de uma regra genômica absoluta.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Extensive sampling of basidiomycete genomes demonstrates inadequacy of the white-rot/brown-rot paradigm for wood decay fungi
    Riley, R. et al. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1400592111
  2. Applied and Environmental Microbiology (Universidade de Tóquio) — Random forest machine-learning algorithm classifies white- and brown-rot fungi according to the number of the genes encoding Carbohydrate-Active enZyme families
    Hasegawa, N.; Sugiyama, M.; Igarashi, K. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1128/aem.00482-24
  3. Applied and Environmental Microbiology (Universidade de Lund) — X-Ray Scattering Reveals Two Mechanisms of Cellulose Microfibril Degradation by Filamentous Fungi
    Floudas, D.; Gentile, L. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1128/aem.00995-22
  4. Biomacromolecules (American Chemical Society) — Detailed Characterization of the Conversion of Hardwood and Softwood Lignin by a Brown-Rot Basidiomycete
    Rese, M.; van Erven, G.; Veersma, R. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1021/acs.biomac.4c01403
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)

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