Oceanografia

Na pluma do Amazonas, diatomáceas com simbionte fixam nitrogênio e ajudam a levar carbono ao fundo do mar

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Micróbios

Na faixa de salinidade intermediária da pluma do Amazonas, diatomáceas que abrigam a cianobactéria Richelia fixam nitrogênio do ar. Em campanhas de 2001 a 2003, a fixação de N2 ali foi mais de seis vezes maior que nas estações oceânicas, e um estudo de 2008 estima que o carbono fixado por esses diazotrofos, ao afundar, sequestre até 1,7 Tmol por ano, além de 0,6 Tmol ligado ao nitrato do rio.

Diazotrofos são micróbios que fixam nitrogênio: transformam o N2 dissolvido na água em compostos que outros organismos aproveitam. A pluma do Amazonas leva ao mar mais fósforo e silício do que nitrogênio, e esse desequilíbrio abre espaço para diatomáceas (Hemiaulus, Rhizosolenia) que carregam a cianobactéria Richelia, a responsável pela fixação. Quando esse material afunda, parte do carbono sai da superfície em direção ao fundo; é o que o estudo chama de sequestro, diferente do nitrato que sobe do fundo e traz CO2 junto. O artigo de referência é de 2008 e usa dados de 2001 a 2003; o que a pluma em geral é e faz está em outro artigo desta coleção.

Uma simbiose que cresce sem nitrogênio adicionado

Em laboratório, linhagens de Hemiaulus hauckii com seu simbionte Richelia, isoladas no golfo do México, se multiplicaram em meio sem nitrogênio dissolvido, usando só o N2. A taxa máxima de crescimento ficou entre 0,74 e 0,93 divisões por dia (estudo de 2020).

Como sabemos: 82 estações em três cruzeiros

A equipe amostrou 82 estações do Atlântico tropical noroeste em janeiro-fevereiro e julho-agosto de 2001 e em abril-maio de 2003, a partir de 300 km ao norte da foz. Mediu a abundância de diazotrofos, a fixação de carbono (método do 14C) e de N2 (15N e redução de acetileno) e o carbono inorgânico dissolvido. Armadilhas de sedimento flutuantes a 200 m recolheram o que afundava. As estações foram agrupadas pela salinidade: menor que 30, de 30 a 35 (mesohalinas) e maior que 35. Limite: são três cruzeiros, não uma série contínua.

Dois fixadores em trechos diferentes da pluma

Perto da foz, há nitrogênio combinado, domina o fitoplâncton costeiro e quase não há fixação de N2. Na faixa mesohalina, as diatomáceas com Richelia formaram cerca de 28% da biomassa e a fixação foi a mais alta; elas dependem do silício e do fósforo do rio, e o nitrogênio vem do simbionte. Mais adiante, esgotados esses nutrientes, domina a Trichodesmium, que não forma heterocistos e fixa N2 só na luz. A sequência é a interpretação dos autores, não o acompanhamento de uma mesma massa de água.

A conta do carbono, passo a passo

Os autores usaram a fixação média de N2 nas estações mesohalinas com diatomáceas simbióticas e a razão C/N de 6,6 para obter 6,5 (± 2,5) mmol de C por m² por dia. Com a extensão mensal da pluma medida por satélite, chegaram a até 1,7 ± 0,7 Tmol de C por ano, cerca de 20 Tg. Um Tmol é um trilhão de mols; com 12 g de C por mol, 1 Tmol equivale a cerca de 12 Tg (conversão nossa). Estimativas independentes do carbono consumido, de 1,2 a 1,3 Tmol, ficaram na mesma ordem de grandeza.

O que ainda não fecha

Os dados são de 2001 a 2003; nada garante os mesmos valores hoje. Um estudo de 2017, com campanhas em 2010 e 2011, afirma que os fatores que controlam a abundância desses simbiontes seguem pouco conhecidos e encontrou uma floração de Hemiaulus com Richelia na vazão alta. A extensão do padrão a outros rios tropicais é hipótese dos autores de 2008. Falta, também, um registro do mesmo local que acompanhe a vazão ao longo de anos.

Como sabemos

Os números centrais vêm de um único estudo de 2008 (três cruzeiros, 2001 a 2003), com estimativas dos próprios autores; o contexto vem de estudos de 2017 e 2020 e de uma revisão de 2013.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Amazon River enhances diazotrophy and carbon sequestration in the tropical North Atlantic Ocean
    Subramaniam, A.; Yager, P. L.; Carpenter, E. J.; Mahaffey, C.; Björkman, K.; Cooley, S.; Kustka, A. B.; Montoya, J. P.; Sañudo-Wilhelmy, S. A.; Shipe, R.; Capone, D. G. · 2008 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0710279105
  2. Frontiers in Microbiology — Piecewise Structural Equation Model (SEM) Disentangles the Environmental Conditions Favoring Diatom Diazotroph Associations (DDAs) in the Western Tropical North Atlantic (WTNA)
    Stenegren, M.; Berg, C.; Padilla, C. C.; David, S.-S.; Montoya, J. P.; Yager, P. L.; Foster, R. A. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2017.00810
  3. PeerJ — Isolation, growth, and nitrogen fixation rates of the Hemiaulus-Richelia (diatom-cyanobacterium) symbiosis in culture
    Pyle, A. E.; Johnson, A. M.; Villareal, T. A. · 2020 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.7717/peerj.10115
  4. FEMS Microbiology Reviews — Trichodesmium - a widespread marine cyanobacterium with unusual nitrogen fixation properties
    Bergman, B.; Sandh, G.; Lin, S.; Larsson, J.; Carpenter, E. J. · 2013 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1111/j.1574-6976.2012.00352.x
Histórico de alterações
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