Biologia

Pilobolus lança seu esporângio por um jato de seiva, com cerca de 21 mil g, a até 2,5 m

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Fungos

Pilobolus, fungo que cresce em esterco de herbívoros, lança o esporângio, a cápsula de esporos, por um jato de seiva expulso do talo. Filmado em alta velocidade, o esporângio sai a 9 m/s (mediana) com aceleração de cerca de 21 mil vezes a gravidade. A força vem de uma pressão interna de cerca de 0,5 MPa (5 atm), igual à de hifas comuns. O alcance de 2,5 m vem de medida de Buller, de 1934, não das filmagens.

Pilobolus é um fungo coprófilo: vive em esterco de herbívoros. Seu esporangióforo, o talo reprodutivo, tem uma vesícula, um balão cheio de líquido, e no topo o esporângio, a cápsula que guarda dezenas de milhares de esporos. Água entra na vesícula por osmose e a pressão de turgor (a pressão interna da célula) sobe. Ao atingir um valor crítico, o esporângio se solta, empurrado por um jato de seiva. A seiva é uma solução de íons e álcoois de açúcar, e a pressão necessária, abaixo de 1 MPa, é comum em células de fungos. O esporângio é lançado em direção à luz, cai longe do esterco e pode ser comido por herbívoros.

Carona para o verme pulmonar

Em 29 bostas de gado acompanhadas em 1988, esporângios de Pilobolus levaram larvas do verme pulmonar Dictyocaulus viviparus para fora da bosta. Com pasto alto, 17% ou mais das larvas saíram assim. O fungo não é o alvo: serve de transporte.

Como sabemos: vídeo do início do voo e química da seiva

Yafetto e colegas filmaram o disparo com câmeras de até 250 mil quadros por segundo (50 mil para Pilobolus) e mediram a velocidade no início do voo. No quadro de 0,8 ms, o esporângio tinha andado 8 mm, menos de 1% do alcance máximo. O resto da trajetória é calculado com um modelo de arrasto. A pressão foi estimada à parte: a seiva foi coletada e analisada por cromatografia de gases com espectrometria de massas (açúcares) e por ICP-MS (metais).

De onde vem a pressão

Na seiva de P. kleinii, os íons respondem por 95% da osmolalidade, a concentração total de solutos; entre os açúcares dominam manitol, pinitol e eritritol. Disso resulta cerca de 0,50 MPa, perto do valor publicado antes. Esse nível, abaixo de 1 MPa, é o de hifas comuns. Portanto o disparo não pede uma química especial: pede parede celular que aguente a pressão e uma ruptura controlada e rápida na base do esporângio.

O que decide o alcance: tamanho e arrasto

O esporângio de Pilobolus tem raio aerodinâmico de 141 µm e Reynolds de cerca de 167; o esporo único de Basidiobolus (Reynolds 10) cai a poucos centímetros. A aceleração de Pilobolus (cerca de 21 mil g) é bem menor que a de Ascobolus, mas o projétil maior perde menos velocidade para o ar. Usando a lei de Stokes, o alcance previsto é 2,9 m; os autores admitem que esse acerto pode ser coincidência, e um modelo mais complexo erra para baixo.

Luz: o disparo tem direção

Os esporangióforos de Pilobolus se curvam em direção à luz azul, e o esporângio é lançado na direção do sol nascente. Em P. crystallinus, a luz de 450 nm atrai a curvatura e a de 280 nm (UV-B) a afasta, aparentemente pelo mesmo sistema de fotorreceptores. Que genes do tipo wc-1 façam isso em Pilobolus é hipótese, apoiada no que se vê em Phycomyces e Mucor, e não mostrada diretamente nas fontes que lemos.

Como sabemos

Mecanismo, pressão, aceleração e alcance saem de artigo original com vídeo e química da seiva, em texto integral; fototropismo e carona do verme pulmonar vêm de resumos e de revisão.

Fontes

  1. PLoS ONE — The Fastest Flights in Nature: High-Speed Spore Discharge Mechanisms among Fungi
    Yafetto, L.; Carroll, L.; Cui, Y.; Davis, D. J.; Fischer, M. W. F.; Henterly, A. C.; Kessler, J. D.; Kilroy, H. A.; Shidler, J. B.; Stolze-Rybczynski, J. L.; Sugawara, Z.; Money, N. P. · 2008 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0003237
  2. Fungal Biology — Solving the aerodynamics of fungal flight: How air viscosity slows spore motion
    Fischer, M. W. F.; Stolze-Rybczynski, J. L.; Davis, D. J.; Cui, Y.; Money, N. P. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.funbio.2010.09.003
  3. Fungal Genetics and Biology — A glimpse into the basis of vision in the kingdom Mycota
    Idnurm, A.; Verma, S.; Corrochano, L. M. · 2010 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.fgb.2010.04.009
  4. Planta — Phototropic fluence-response curves for Pilobolus crystallinus sporangiophore
    Kubo, H.; Mihara, H. · 1988 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/BF00394769
  5. Research in Veterinary Science — Direct measurement of dispersal of Dictyocaulus viviparus in sporangia of Pilobolus species
    Eysker, M. · 1991 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/0034-5288(91)90049-T
  6. PLoS ONE — Shooting Mechanisms in Nature: A Systematic Review
    Sakes, A.; van der Wiel, M.; Henselmans, P. W. J.; van Leeuwen, J. L.; Dodou, D.; Breedveld, P. · 2016 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0158277
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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