Oceanografia
Peixe-leão no Atlântico: da Flórida, em 1985, ao Brasil, e o que se mediu do efeito nos recifes
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Conservação com evidências
O peixe-leão (Pterois volitans), peixe de recife nativo do Indo-Pacífico, foi visto pela primeira vez no Atlântico ocidental na Flórida, em 1985. Em menos de 30 anos ocupava a costa leste dos EUA, as Bermudas, o Caribe e o Golfo do México. No Brasil, o primeiro exemplar foi coletado em Arraial do Cabo (RJ), em maio de 2014; de 2020 a 2023, cerca de 350 animais foram registrados no litoral equatorial.
O peixe-leão é um peixe de recife de espinhos venenosos, nativo do Indo-Pacífico, que se alimenta sobretudo de outros peixes. No Atlântico ocidental o grupo é formado por Pterois volitans e, em menor número, P. miles; a maior parte dos peixes analisados no Caribe é P. volitans. Espécie invasora é a exótica que se espalha e causa dano; as etapas de introdução, estabelecimento e dispersão estão explicadas em outro texto da série. Aqui o foco é a cronologia da ocupação do Atlântico, o caminho até o Brasil e o que estudos de campo mediram sobre o efeito nos peixes nativos e sobre a remoção por mergulho com arpão. Receitas e consumo ficam fora.
Quantos foram soltos?
Uma simulação genética de 2017 estimou que a população do Atlântico descende de cerca de 118 peixes do Indo-Pacífico (intervalo de 54 a 514). É uma estimativa de modelo, não uma contagem.
Da Flórida ao Caribe e ao Golfo do México
O primeiro avistamento no Atlântico ocidental foi na Flórida, em 1985. Depois vieram aparições esporádicas na costa dos EUA, as Bermudas (2000), as Bahamas (2004) e as ilhas Turks e Caicos (2006). Em 2008 há relatos na Colômbia, nas Cayman, na Jamaica, em Porto Rico, no Haiti, em Belize e na República Dominicana. Em menos de 30 anos a espécie ocupava cerca de 7,3 milhões de km². São datas de primeiros relatos, que dependem de quem observou, e não de chegada.
Como sabemos de onde veio e quantos foram
Pesquisadores comparam o DNA dos peixes do Atlântico com o de outras populações e simulam a história da invasão. Uma simulação que inclui reprodução e acaso estimou cerca de 118 peixes fundadores (54 a 514) e apontou o comércio de aquário, não os navios, como via mais provável. O resultado depende de premissas do modelo: com redução de fertilidade em populações pequenas (efeito Allee), a estimativa sobe para 272 (106 a 950). É uma estimativa, não uma contagem.
A chegada ao Brasil
O primeiro exemplar foi coletado em Arraial do Cabo em maio de 2014, a cerca de 5.500 km do Caribe; o DNA o ligava às populações caribenhas, mas não permitiu decidir entre dispersão de larvas e soltura de aquário. Em 2020 surgiram registros em recifes profundos da Amazônia e, de 2020 a 2023, 352 peixes em 2.766 km de costa. Os autores propõem como hipótese que adultos vieram do Caribe passando por esses recifes, sobre a barreira porosa da pluma de água doce do Amazonas e do Orinoco.
O que se mediu do efeito e do controle
Experimentos curtos em pequenas áreas de recife mostram queda de presas, mas esse resultado nem sempre se repete em escala maior: em 16 recifes de Belize acompanhados por quatro anos, não se detectou efeito mensurável. O contraste pode vir da densidade do peixe-leão ou de outros fatores. Em Roatán, remoções regulares com arpão deixaram os recifes com 95% menos biomassa da espécie e 30% mais peixes nativos pequenos, mas sem diferença na riqueza de espécies. A comparação é entre sítios, não um experimento aleatorizado.
Como sabemos
Cronologia e dados do Brasil vêm de artigos abertos lidos por inteiro, mas o efeito sobre os peixes nativos e a origem da chegada ao Brasil seguem em debate.
Em debate: Experimentos pequenos mostram queda de presas; um estudo longitudinal em Belize não detectou efeito mensurável. A diferença pode vir da escala e da densidade do peixe-leão.
- Consenso científico: O primeiro avistamento de peixe-leão no Atlântico ocidental ocorreu na Flórida, em 1985. [2] Biology and ecology, Introduction
Contexto: Primeiro registro conhecido na região invadida. · Limitações: É o primeiro avistamento registrado; a data de chegada pode ser anterior. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Depois de aparições esporádicas nos EUA, o peixe-leão foi registrado nas Bahamas em 2004, nas ilhas Turks e Caicos em 2006 e, em 2008, na Colômbia, nas ilhas Cayman, na Jamaica, em Porto Rico, no Haiti, em Belize e na República Dominicana. [2] Biology and ecology, Introduction
Contexto: Anos dos primeiros relatos por país, segundo a revisão. · Limitações: Datas de primeiros relatos dependem de quem observou e registrou; não são datas de chegada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Em menos de 30 anos, o peixe-leão ampliou sua distribuição fora da área nativa para cerca de 7,3 milhões de km², abrangendo a costa leste dos EUA, as Bermudas, todo o Caribe e o Golfo do México. [1] Resumo
Contexto: Situação descrita em 2015; a área hoje é maior, porque a invasão avançou para o sul. · Limitações: O valor de 7,3 milhões de km² é o citado pelos autores, vindo de trabalhos anteriores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Uma simulação genética estimou que a população do Atlântico foi fundada por cerca de 118 peixes (intervalo de 54 a 514, com 95% de probabilidade) vindos do Indo-Pacífico. [3] Abstract
Contexto: Resultado de modelo que assume proporção sexual equilibrada e ausência de efeito Allee (queda de reprodução em populações pequenas). · Limitações: Com efeito Allee, a mesma simulação sobe para 272 (106 a 950). O número depende das premissas do modelo. · Estimativa de simulação, não contagem. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores da simulação concluem que os dados publicados apoiam a hipótese de que o peixe-leão chegou ao Atlântico pelo comércio de aquário, e não por navios. [3] Abstract
Contexto: Conclusão sobre a via de introdução original, nos EUA. · Limitações: A via é inferida de dados genéticos e de comércio, sem registro direto da soltura. · Hipótese apoiada por inferência, sem observação direta. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O primeiro peixe-leão do Brasil foi avistado por mergulhadores em 10 de maio de 2014, em Arraial do Cabo (RJ); era um adulto de 25 cm, coletado com arpão e identificado como Pterois volitans. [1] Methods
Contexto: Primeiro registro para a costa brasileira, publicado em 2015. · Limitações: Vale para o que foi documentado até a publicação do artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: A sequência de DNA do peixe de Arraial do Cabo coincidia com haplótipos do Caribe e dos EUA; como o local fica a cerca de 5.500 km do Caribe, os autores não conseguiram separar dispersão de larvas de soltura de aquário. [1] Results and Discussion
Contexto: Um único exemplar analisado. · Limitações: Um animal só; a origem do exemplar de 2014 não foi esclarecida. · Origem do exemplar de 2014 não resolvida. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os primeiros registros do peixe-leão no Atlântico Sudoeste equatorial foram obtidos em 2020, em recifes mesofóticos (profundos, de luz fraca) da Amazônia, entre 70 e 100 m de profundidade. [4] Introduction
Contexto: Foz do Amazonas, costa norte do Brasil. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: De 2020 a 2023, 352 peixes-leão (jovens, adultos e fêmeas com ovos) foram registrados em 2.766 km do litoral brasileiro. [4] Discussion
Contexto: Registros de 2020 a 2023 compilados pelos autores. · Limitações: São registros, não contagem de população; dependem de onde há mergulhadores e pescadores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: A explicação mais provável apontada para a chegada ao Brasil equatorial é a migração de adultos vindos do Caribe, usando recifes profundos como pontos de apoio para atravessar a pluma do Amazonas e do Orinoco. [4] Discussion
Contexto: Atlântico Sudoeste equatorial, a partir de 2020; baseada em dados genéticos de 38 sequências do gene COI. · Limitações: Água de lastro e soltura de aquário são descartadas por ausência de registros, não por prova. · Hipótese, descrita pelos autores como a explicação mais parcimoniosa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Experimentos e observações mostram que o peixe-leão pode reduzir peixes nativos por predação, mas os efeitos medidos em experimentos pequenos nem sempre se repetem na natureza. [2] Impact by predation
Contexto: Revisão sobre a biologia da espécie e estudos em Cuba e no Caribe. · Limitações: A revisão é de síntese; os experimentos originais usam áreas pequenas de recife. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: Em 16 recifes ao longo de cerca de 250 km da Barreira de Recifes de Belize, acompanhados de 2009 a 2013, não se detectou efeito mensurável do peixe-leão sobre a densidade, a riqueza ou a composição dos peixes pequenos nativos. [5] Abstract
Contexto: Peixes nativos de 0 a 10 cm de comprimento, antes e depois da invasão (delineamento BACI modificado). · Limitações: Os autores dizem que densidades maiores de peixe-leão podem ser necessárias para o efeito aparecer, ou que o efeito é pequeno; outros fatores podem encobri-lo. · Ausência de efeito detectado não prova ausência de efeito. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Roatán (Honduras), recifes com remoções regulares de peixe-leão tinham 95% menos biomassa da espécie e densidade 30% maior de peixes nativos de tamanho de presa do que recifes sem remoção. [6] Abstract
Contexto: Remoções voluntárias de duas a três vezes por mês, com arpão, comparadas com sítios sem remoção. · Limitações: Comparação entre sítios, não experimento aleatorizado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No mesmo estudo de Roatán, a riqueza e a diversidade de espécies de peixes nativos não diferiram entre recifes com e sem remoção. [6] Abstract
Contexto: Mesmo estudo e mesma comparação da afirmação anterior. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- PLOS ONE — First Record of Invasive Lionfish (Pterois volitans) for the Brazilian Coast
Ferreira, C. E. L.; Luiz, O. J.; Floeter, S. R.; et al. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0123002 - PeerJ — Biology and ecology of the lionfish Pterois volitans/Pterois miles as invasive alien species: a review
del Río, L.; Navarro-Martínez, Z. M.; et al. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7717/peerj.15728 - PeerJ — Simulations indicate that scores of lionfish (Pterois volitans) colonized the Atlantic Ocean
Selwyn, J. D.; Johnson, J. E.; et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7717/peerj.3996 - Scientific Reports — Genetic diversity patterns of lionfish in the Southwestern Atlantic Ocean reveal a rapidly expanding stepping-stone bioinvasion process
Maggioni, R.; Rocha, R. S.; Viana, J. T.; et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-40407-y - PeerJ — Invasive lionfish had no measurable effect on prey fish community structure across the Belizean Barrier Reef
Hackerott, S.; Valdivia, A.; Cox, C. E.; et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7717/peerj.3270 - PeerJ — Ongoing removals of invasive lionfish in Honduras and their effect on native Caribbean prey fishes
Peiffer, F.; Bejarano, S.; Palavicini de Witte, G.; et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7717/peerj.3818
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)