Genética

Cerca de 23 mil tipos de acasalamento num só cogumelo: como os fungos escolhem parceiros

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Fungos

O cogumelo Schizophyllum commune tem, por estimativa, 23.328 tipos de acasalamento possíveis, mas eles não são sexos como os dos animais. São combinações de variantes de dois conjuntos de genes, A e B, em cromossomos diferentes. Dois indivíduos só acasalam com sucesso quando suas variantes são compatíveis, o que impede a união entre parentes próximos e torna compatível a maioria dos encontros entre não aparentados.

Em animais, 'sexo' costuma significar dois papéis fixos, macho e fêmea. Em fungos, a palavra técnica é 'tipo de acasalamento' (mating type): uma identidade genética que define com quem um indivíduo pode se unir. Em S. commune, um fungo de madeira morta presente em vários continentes, o esporo germina num micélio de um só núcleo por célula (monocário). Quando dois monocários compatíveis se encontram, eles se fundem e formam um micélio fértil, o dicário, que produz os cogumelos. A compatibilidade é decidida por dois locos (posições no genoma), A e B. Cada um tem duas partes ligadas (Aα, Aβ, Bα, Bβ) e cada parte existe em muitas versões, os alelos. O resultado é um número enorme de combinações possíveis, mas a população real traz só uma fração delas.

Uma linhagem de sedimento de 20 milhões de anos

Em 2025, pesquisadores chineses cruzaram 149 linhagens vindas de um único cogumelo de S. commune, isolado de sedimentos com carvão de cerca de 20 milhões de anos, e acharam oito padrões de reação, em vez dos quatro do modelo clássico.

De onde vem o número 23.328

A cifra é uma multiplicação. A estimativa clássica atribui a S. commune cerca de 9 versões de Aα, 32 de Aβ, 9 de Bα e 9 de Bβ. O locus A teria então 9 × 32 = 288 combinações e o B, 9 × 9 = 81; 288 × 81 = 23.328 (conta nossa, fechando com o total do artigo). É um número de combinações possíveis, estimado a partir de cruzamentos. Ele não diz que existem 23 mil 'sexos' no mesmo lugar, nem que uma população reúna todas as combinações.

Feromônios e receptores: como o fungo reconhece o parceiro

O locus B contém genes de feromônios (pequenos peptídeos liberados) e de receptores desses feromônios. A troca de núcleos só ocorre quando o receptor de uma linhagem reconhece o feromônio da outra. Estudos com mutações no locus Bβ2 mostraram que trocas de poucos aminoácidos podem fazer um receptor passar a reconhecer, ou deixar de reconhecer, certo feromônio. Daí vem o 'vocabulário' de variantes: cada tipo de B tem a sua combinação, e dois indivíduos com B iguais não ativam o processo um do outro.

Como sabemos: cruzamentos, e agora sequências

A ideia de dois locos independentes com muitos alelos vem de cruzamentos desde Kniep (1920): colocam-se monocários lado a lado e observa-se se formam um dicário fértil. Contar variantes por esse método exige testar muitas linhagens, daí os valores serem estimativas. Sequenciar os genes mudou a escala: em Trichaptum, 180 linhagens permitiram agrupar alelos por similaridade e prever 17.550 tipos. O limite é que a classificação depende de um limiar escolhido, e um estudo de 2025 em S. commune propõe subtipos que o modelo clássico não previa.

Por que evitar o parente

O benefício aceito para o sistema tetrapolar é evitar a endogamia: entre os esporos de um mesmo cogumelo só 25% podem acasalar, contra 50% num sistema de um só locus, e a grande variedade de alelos faz quase todo não aparentado ser compatível. Para a manutenção da diversidade, pesquisas em Trichaptum apontam seleção balanceadora de longo prazo. Esta última é hipótese baseada em outro gênero; em S. commune, os mecanismos exatos seguem em estudo. Leveduras, que acasalam por outro esquema, ficam fora deste texto.

Como sabemos

A estrutura do sistema é consenso, mas o total de 23.328 é uma estimativa lida em fonte secundária e Fowler (2001) e Kothe (1996) foram lidos só no resumo.

Fontes

  1. Journal of Fungi (Basel) — Evidence for the Existence of Mating Subtypes Within the Schizophyllum commune: Mating Behavior and Genetic Divergence
    Chu, C. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/jof11040277
  2. FEMS Microbiology Reviews — Tetrapolar fungal mating types: sexes by the thousands
    Kothe, E. · 1996 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/j.1574-6976.1996.tb00227.x
  3. Genetics — Changes in mate recognition through alterations of pheromones and receptors in the multisexual mushroom fungus Schizophyllum commune
    Fowler, T. J.; Mitton, M. F.; Vaillancourt, L. J.; Raper, C. A. · 2001 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/genetics/158.4.1491
  4. PLoS Genetics — Large-scale fungal strain sequencing unravels the molecular diversity in mating loci maintained by long-term balancing selection
    Peris, D. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pgen.1010097
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 1; conferência de trechos automatizada)

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