Física

Como vimos os vírus pela primeira vez: o microscópio eletrônico de Ruska e as imagens de 1938 a 1940

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Micróbios

A luz visível não distingue detalhes menores que o seu comprimento de onda, limite que o comunicado do Nobel de 1986 situa em cerca de 400 nm. Elétrons, focalizados por bobinas magnéticas, têm ondas muito mais curtas. O microscópio de Ernst Ruska (1933) já superava o de luz e, na Siemens, mostrou vírus de camundongo, o do mosaico do tabaco e, em 1940, bacteriófagos.

Um vírus é uma partícula formada por ácido nucleico e proteínas, sem metabolismo próprio. Os vírus humanos sem envelope medem de 22 a 90 nm (1 nm = um milionésimo de milímetro), abaixo do que um microscópio de luz resolve. Por isso, a descoberta dos vírus, por filtração em 1892 e 1898, foi indireta: o agente passava pelo filtro, mas ninguém o via. O microscópio eletrônico de transmissão troca a luz por um feixe de elétrons que atravessa uma amostra finíssima. Como os elétrons também se comportam como ondas, de comprimento muito menor, a imagem separa detalhes que a luz mistura. Em 1938–1940, a técnica passou do laboratório de física para a medicina e a biologia.

A foto que queimava a amostra

Nas primeiras imagens, o próprio feixe destruía o objeto: nas fotos de fagos de 1940, as partículas eram danificadas pelo bombardeio de elétrons e passavam a parecer vazias. Foi preciso aprender a olhar o que sobrava.

Por que a luz não basta para ver um vírus

O comunicado do Nobel de 1986 resume o limite: com luz, não se distinguem detalhes menores que o comprimento de onda, e a resolução de um microscópio de luz visível fica na ordem de 4.000 Å, ou 400 nm (conversão nossa). Os vírus humanos sem envelope medem de 22 a 90 nm, todos abaixo desse limite. Isso explica a história da filtração: o agente atravessava o filtro, mas permanecia invisível.

Elétrons como luz: bobinas, ondas curtas e a conta de 1931

Uma bobina magnética focaliza elétrons como uma lente de vidro focaliza luz. Ruska, ainda estudante em Berlim, melhorou a lente com uma capa de ferro, obtendo foco curto, e, ao saber da hipótese de de Broglie, convenceu-se de que as ondas dos elétrons seriam cerca de cinco ordens de grandeza menores que as da luz. Em 1933 seu aparelho já dava definição melhor que a de um microscópio de luz.

Como sabemos: 1938, 1939 e 1940

Com a Siemens, os irmãos Ernst e Helmut Ruska passaram do aparelho de laboratório ao instrumento de uso biológico. Os registros mais citados são o vírus da ectromélia (c. 1938), o do mosaico do tabaco (1939) e os fagos (1940), em duas notas curtas submetidas no mesmo dia à mesma revista. A revisão de Ackermann e a de Goldsmith e Miller discordam sobre qual vírus veio primeiro, ponto que o post deixa em aberto.

O que as primeiras imagens escondiam

As imagens eram de amostras cruas: o feixe destruía fagos, que passavam a parecer vazios, e a secagem distorce vírus. Por isso o sombreamento (1945) e a coloração negativa (1959) mudaram a clareza das imagens. Hoje, o congelamento rápido da suspensão permite examinar estruturas sem alteração química, base da criomicroscopia, tema de outro post.

Como sabemos

Física e cronologia vêm de fontes institucionais e revisões lidas na íntegra; porém 'primeiro vírus visto' diverge entre as revisões e os artigos de 1938 e 1939 não foram lidos.

Em debate: Qual foi o primeiro vírus visto ao microscópio eletrônico?

Fontes

  1. Real Academia Sueca de Ciências / NobelPrize.org — Press release: The 1986 Nobel Prize in Physics
    Royal Swedish Academy of Sciences · 1986 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. Fundação Nobel / NobelPrize.org — The Development of the Electron Microscope and of Electron Microscopy (Nobel Lecture)
    Ruska, E. · 1986 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Bacteriophage — The first phage electron micrographs
    Ackermann, H.-W. · 2011 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.4161/bact.1.4.17280
  4. Clinical Microbiology Reviews — Modern uses of electron microscopy for detection of viruses
    Goldsmith, C. S.; Miller, S. E. · 2009 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1128/cmr.00027-09
  5. Fundação Nobel / NobelPrize.org — Ernst Ruska – Biographical
    Ruska, E. · 1986 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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