Zoologia

Mico-leão-dourado: a recuperação contada em censos, a queda pela febre amarela e a retomada depois

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

O mico-leão-dourado, primata da Mata Atlântica fluminense, passou de menos de 400 indivíduos estimados em 1971 a cerca de 3.700 em 2014, com reintrodução de animais de zoológico, translocação de grupos e proteção de floresta. A febre amarela de 2016 a 2018 derrubou a estimativa em cerca de 32% até 2018 e, em duas das maiores populações, em mais de 90%. Em 2023, a estimativa foi de cerca de 4.800 (métodos diferentes em cada época).

O mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) é um primata arborícola de cerca de 600 g que vive na Mata Atlântica de baixada do estado do Rio de Janeiro. Séculos de desmatamento e a captura para o comércio de animais deixaram a espécie em fragmentos de floresta isolados, que os pesquisadores chamam de unidades de manejo. Desde 1983 há um programa de conservação, que em 1992 virou a Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD). Os números do texto vêm de estimativas por amostragem, em épocas e com métodos diferentes, e não formam uma série contínua. Metapopulação é o conjunto de populações locais ligadas, em maior ou menor grau, por animais que se dispersam entre elas.

Os bugios como sentinela

A falta dos roncos dos bugios e a morte de vários animais no mesmo lugar e época serviram de sinal às autoridades de saúde de que a febre amarela havia chegado, o que ajuda a orientar a vacinação de pessoas na região.

Reintroduzir, transladar e proteger

Entre 1984 e 2001, 146 mico-leões nascidos em zoológicos foram soltos, em maioria em propriedades particulares; seus descendentes chegaram a cerca de 1.100. Entre 1994 e 1998, 42 animais nativos foram tirados de fragmentos pequenos e levados à Reserva Biológica União, onde os descendentes, cerca de 236, ocupam todo o hábitat adequado. A meta veio de simulação: 2.000 animais em 25.000 ha de floresta conectada e protegida, com 0% de chance de extinção e 98% da diversidade genética retida em 100 anos. Em 2003 a IUCN reclassificou a espécie de criticamente em perigo para em perigo.

Como sabemos: contar um animal de 600 g na floresta

Antes de 2014, a AMLD multiplicava densidades medidas em áreas estudadas pela área de cada fragmento, o que deu cerca de 3.200 animais em 2013, supondo densidades iguais onde não havia monitoramento. O censo de 2014 tocou gravações de chamadas ao longo de transecções em 101 quadrantes sorteados e anotou as respostas; um experimento com dez grupos marcados com rádio calibrou a distância de resposta. É estimativa por amostragem, e os dois métodos não se comparam diretamente: 3.200 e 3.700 não medem o mesmo crescimento.

A febre amarela: o que foi medido e o que é inferência

Em novembro de 2016 começou no Sudeste a pior epizootia de febre amarela em 80 anos. Em maio de 2018, um mico-leão achado morto em Cambucães foi o primeiro caso confirmado em laboratório. Oito grupos, cerca de 39 animais, sumiram da Reserva de Poço das Antas sem causa determinada, e o levantamento de 2018 estimou queda de cerca de 32%. As perdas foram maiores em fragmentos maiores e mais conectados, hipótese dos autores por favorecerem os mosquitos. Os autores não confirmam a febre amarela como causa única, mas a julgam a mais provável.

Cinco anos depois: retomada e conectividade

Em 2023, um levantamento estimou cerca de 4.800 animais na área pesquisada, 31% a mais que em 2014, mesmo depois de duas das maiores populações terem perdido mais de 90%. Segundo os autores, a recuperação vem em parte da imigração de fragmentos vizinhos; quatro áreas grandes, quase vazias em 2014, explicam 71% do aumento, e o ganho de floresta pode explicar até 16%. Simulações sugerem que mais conectividade dá resiliência. Só o resumo foi lido, e não existe vacina de febre amarela para primatas não humanos.

Como sabemos

Os números centrais vêm de três artigos científicos abertos, mas são estimativas de métodos diferentes e o artigo de 2024 foi lido só no resumo.

Em debate: A causa da queda de 2018 é inferida: um único animal foi confirmado por exame como morto por febre amarela, e os autores do levantamento afirmam não poder confirmar que a doença sozinha explica a queda, embora a considerem a causa mais provável.

Fontes

  1. Scientific Reports — Yellow fever in Brazil threatens successful recovery of endangered golden lion tamarins
    Dietz, J. M. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-019-49199-6
  2. PLoS ONE — Estimating population sizes to evaluate progress in conservation of endangered golden lion tamarins (Leontopithecus rosalia)
    Ruiz-Miranda, C. R. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0216664
  3. American Journal of Primatology — Golden lion tamarin metapopulation dynamics five years after heavy losses to yellow fever
    Dietz, J. M. et al. · 2024 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/ajp.23635
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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