Ecologia

Mexilhão-dourado: como um molusco asiático chegou à bacia do Prata e o que mudou em rios e usinas

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), bivalve de rios asiáticos com cerca de 3 cm, foi detectado na Argentina em 1991; a introdução na América do Sul é atribuída à água de lastro de navios. Seguiu a navegação pela bacia do Prata e chegou ao Uruguai, ao Paraguai, à Bolívia e ao Brasil. Nos rios, filtra o plâncton e cobre superfícies duras; em usinas e captações, obstrui tubulações e sistemas de refrigeração.

O mexilhão-dourado é um bivalve de água doce que se fixa em superfícies duras, naturais ou artificiais, e vive em grupos densos. Suas larvas nadam livres por semanas antes de se fixar, o que permite que viajem na água de lastro (a água que navios carregam nos tanques para ganhar estabilidade) e rio acima. Bioincrustação (biofouling) é o acúmulo de organismos sobre estruturas submersas, como canos, grades e cascos. Uma espécie exótica chega por ação humana; vira invasora quando se espalha e causa dano, etapas explicadas em outros textos da série. Aqui o foco é o caso sul-americano: a rota de entrada, o que o animal muda nos rios e o que causa em instalações. O controle químico fica fora deste texto.

Alimento novo para os peixes

Mais de 50 espécies de peixes se alimentam do mexilhão-dourado na América do Sul, segundo uma revisão de 2022; algumas passaram a depender quase só dele. A invasora entrou na cadeia alimentar local.

A rota: lastro, Prata, Pantanal

O mexilhão é nativo de rios asiáticos e foi detectado na Argentina em 1991. A ficha do GISD atribui a entrada à água de lastro de navios de longo curso. De lá, a navegação pelos rios Paraguai e Paraná o levou rio acima: em janeiro de 1999 já cobria rochas do rio Paraguai em Forte Coimbra, no Pantanal. Hoje há registro em cinco países da região: Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil.

O que muda no rio

O mexilhão é um filtrador: ao tirar partículas da água, reduz o fitoplâncton e a deixa mais clara. Em certas condições, a luz maior favorece algas do fundo e florações de cianobactérias. Os bancos abrigam mais invertebrados e viram alimento para mais de 50 espécies de peixes, mas, sobre bivalves nativos, a fixação em massa pode sufocá-los. O saldo para a biodiversidade ainda não foi avaliado como um todo.

Nas usinas, captações e embarcações

Em estruturas artificiais, o animal encontra superfície dura e água em circulação. Ele se fixa em canos, grades e sistemas de resfriamento e reduz a vazão da água. Uma revisão de 2025 o considera o molusco aquático exótico de maior efeito econômico na América do Sul. No Pantanal, o setor de navegação relatou motores superaquecidos por obstrução do resfriamento. Uma revisão de 2023 cita perdas de até US$ 128 milhões por ano no setor elétrico brasileiro.

Como sabemos, e onde há incerteza

A data de 1991 é a primeira detecção, não a chegada: uma revisão situa a introdução por volta de 1990. Os efeitos ecológicos vêm de estudos de campo e experimentos na região do Prata, aqui lidos só pelo resumo. Em 2001, a Embrapa instalou substratos artificiais no rio Paraguai e viu a colonização morrer quando o oxigênio caiu a zero, o que sugere que a baixa de oxigênio pode limitar a espécie no Pantanal: é hipótese de uma observação. Densidade e custo vêm de segunda mão, e a projeção até a Amazônia, de modelos.

Como sabemos

Rota, datas e tipos de dano são consistentes entre cinco fontes institucionais, mas o texto integral da revisão de 2015 não foi lido e os números econômicos e de densidade vêm de segunda mão.

Fontes

  1. Hydrobiologia — Ecosystem impacts of the invasive bivalve Limnoperna fortunei (golden mussel) in South America
    Boltovskoy, D.; Correa, N. · 2015 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s10750-014-1882-9
  2. Global Invasive Species Database, IUCN SSC Invasive Species Specialist Group — Species profile: Limnoperna fortunei (Global Invasive Species Database)
    IUCN/SSC Invasive Species Specialist Group (ISSG) · 2005 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Embrapa Pantanal — Mexilhão dourado no Pantanal: um problema ambiental e econômico
    Oliveira, M. D.; Barros, L. F. · s.d. (início dos anos 2000) · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. iScience — Toward invasive mussel genetic biocontrol: Approaches, challenges, and perspectives
    Hernández Elizárraga, V. H.; et al. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.isci.2023.108027
  5. Biology — What Do We Know About Non-Native, Invasive, and Transplanted Aquatic Mollusks in South America?
    Darrigran, G.; et al. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/biology14020151
  6. Hydrobiologia — Ecosystem services provided by the exotic bivalves Dreissena polymorpha, D. rostriformis bugensis, and Limnoperna fortunei
    Burlakova, L. E.; Karatayev, A. Y.; Boltovskoy, D.; Correa, N. M. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s10750-022-04935-4
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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