Geografia
Mar de Aral: com os rios desviados para irrigação, a evaporação passou a superar a entrada de água
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
Assuntos: Água na Terra
O Mar de Aral encolheu porque, a partir dos anos 1960, a água dos rios Amu Darya e Syr Darya, suas únicas entradas de água superficial, foi desviada para irrigar lavouras, sobretudo de algodão. Num lago fechado, a evaporação passou a superar o que chegava: o nível caiu, o sal se concentrou e, em 2014, o lobo leste do Aral Sul sumiu por completo, segundo imagens da NASA.
O Aral ficava numa região árida da Ásia Central, entre o Cazaquistão e o Uzbequistão. Era um lago terminal: não tinha saída para o oceano, então a água só saía por evaporação. Seu volume dependia de um balanço simples entre o que entrava (a vazão dos rios Amu Darya e Syr Darya, mais pouca chuva) e o que evaporava. Esse balanço ficou aproximadamente em equilíbrio por décadas, mas deixou de fechar quando a água dos rios passou a ser retirada por canais. Salinidade é a quantidade de sais dissolvidos, aqui dada em partes por mil (‰, cerca de gramas de sal por quilograma de água). Num lago que perde água só por evaporação, o sal fica, e a concentração sobe.
O Pequeno Aral voltou a subir
Em 2005, a barragem de Kok-Aral separou o Pequeno Aral, ao norte, do resto. Ali o nível voltou a subir e a salinidade média, de 5,3‰ em 2013, ficou abaixo da dos anos 1960.
A conta que deixou de fechar
Num lago terminal, o nível sobe quando entrada mais chuva superam a evaporação, e cai no caso contrário. Por cerca de 200 anos antes de 1960 o Aral ficou numa faixa de +50 a +53 m de altitude, sinal de que entradas e evaporação se compensavam. Quando os canais passaram a tirar água dos dois rios, a entrada caiu e a evaporação passou a vencer. Quanto menor a superfície, menos água se perde; no Pequeno Aral a queda parou em 1988, quando entrada e evaporação voltaram a se igualar, mas no Grande Aral a dessecação continuou.
Da retirada à ausência de rio
A área irrigada da bacia subiu de cerca de 5 milhões de hectares em 1960 para 8,2 milhões em 2010, segundo um estudo de 2025 que cita outra fonte. O Syr Darya deixou de chegar ao mar em 1974 e o Amu Darya, pelo leito principal, em 1982. Em 1988-1989 a área havia caído 40% e o volume era 33% do de 1960.
O sal que sobra
A evaporação leva água pura e deixa o sal. A salinidade média foi de 10,3‰ antes da regressão a 17‰ em 1980, 30‰ em 1988-1989 e 100‰ em 2004 no Grande Aral. À medida que o lago se concentrava, certos sais (carbonatos, gesso, halita) se depositavam em sequência, e a composição da água mudava. Já o Pequeno Aral, com a entrada do Syr Darya retida pela barragem, teve a salinidade reduzida a 5,3‰ em 2013.
Como sabemos
Há duas linhas de evidência. A primeira são séries de nível e de salinidade medidas em campo, reunidas por pesquisadores e resumidas na revisão de Aladin e colegas (2018). A segunda são as imagens do sensor MODIS do satélite Terra, da NASA, que acompanham o contorno do lago desde 2000. Os limites: os números de áreas e de irrigação aqui são citados de segunda mão, e a NASA escreve com cautela que as perdas de 2005 a 2009 "parecem" ligadas à seca.
Como sabemos
O mecanismo (desvio, evaporação, sal) tem fontes lidas por inteiro e consistentes entre si; vários números de área e de irrigação vêm de segunda mão.
- Fato estabelecido: Nos anos 1960, a União Soviética iniciou um grande projeto de desvio de água nas planícies áridas do Cazaquistão, do Uzbequistão e do Turcomenistão, para transformar o deserto em lavouras de algodão e de outras culturas. [1] texto principal, parágrafo 1
Contexto: Bacia do Mar de Aral, Ásia Central, a partir de 1960. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O Amu Darya e o Syr Darya eram as únicas entradas de água superficial do Aral, e a precipitação na bacia é muito baixa e muito menor que a evaporação; por isso os dois rios sempre pesaram no balanço de água do lago. [2] Introduction
Contexto: Bacia do Aral; descrição geral de Aladin et al. (2018). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O Aral é um lago fechado e terminal: seu nível e sua salinidade dependem da razão entre a vazão dos rios, a precipitação e a evaporação. [2] Changes in water level and chemistry of the Aral Sea
Contexto: Lagos sem saída para o mar. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Antes da regressão moderna, as entradas equilibravam a evaporação líquida: o mar esteve aproximadamente estável de 1911 a 1960, e o nível ficou perto de +50 a +53 m acima do nível do mar por cerca de 200 anos. [2] Changes in water level and chemistry of the Aral Sea [3] A modern example of ecosystem collapse
Contexto: Século XX até 1960; os dois estudos citam séries anteriores (Keith et al. cita Micklin 2006; Aladin et al. cita Bortnik e Chistyayeva 1990). · Limitações: Não lemos as séries originais; os números vêm de revisões que as citam. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A retirada crescente de água do Amu Darya e do Syr Darya para irrigar algodão começou nos anos 1960 e iniciou a regressão moderna, porque a evaporação passou a superar a entrada de água doce. [2] Changes in water level and chemistry of the Aral Sea [3] A modern example of ecosystem collapse
Contexto: Bacia do Aral, 1960 em diante. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A área irrigada da bacia subiu de cerca de 5 milhões de hectares em 1960 para 8,2 milhões em 2010, com lavouras de alto consumo de água, como algodão e arroz. [4] Introduction
Contexto: Bacia do Aral, 1960 a 2010; Liu et al. (2025) citam outros autores para esse número. · Limitações: Número de segunda mão: lemos Liu et al. citando outra fonte, que não abrimos. · Valor aproximado repetido por Liu et al. a partir da literatura; não conferido na fonte original. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O Syr Darya deixou de chegar ao mar em 1974, pelo represamento do leito no baixo curso, e o Amu Darya deixou de desaguar pelo leito principal em 1982; em alguns anos, como 1982, 1983 e 1985, não houve entrada alguma. [2] Changes in water level and chemistry of the Aral Sea
Contexto: Séries de vazão reportadas por Aladin et al. (2018). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Antes de 1960 o Aral tinha cerca de 6,8 × 10^4 km² de superfície (aproximadamente 68 mil km²), o quarto maior lago interior do mundo; em 1988-1989 a área havia caído 40% e o volume era só 33% do de 1960. [2] Changes in water level and chemistry of the Aral Sea [4] Introduction
Contexto: Área anterior a 1960 segundo Liu et al. (2025); redução até 1988-1989 segundo Aladin et al. (2018). · Limitações: Cada número vem de um estudo diferente, que por sua vez cita outra fonte. 68 mil km² é conversão nossa (6,8 × 10^4). · Valores citados de segunda mão por revisões; a ordem de grandeza é consistente entre elas. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A salinidade média subiu de cerca de 10,3‰ antes da regressão para 17‰ em 1980, 30‰ em 1988-1989 e 100‰ em 2004 na parte sul (Grande Aral). [2] Changes in water level and chemistry of the Aral Sea
Contexto: Médias do lago inteiro até 1989; depois, do Grande Aral (a parte sul). ‰ = gramas de sal por quilograma de água. · Limitações: Outros estudos dão 11 g/L em 1960 (Liu et al., 2025, citando outra fonte); as diferenças de poucas décimas vêm de método e de média. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2009 o Grande Aral estava dividido em três corpos residuais; a salinidade da bacia oeste, mais funda, passava de 100‰, e a da bacia leste, rasa, podia passar de 200‰. [2] Changes in water level and chemistry of the Aral Sea
Contexto: Grande Aral (sul), outono de 2009. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A parte leste do Aral Sul desapareceu por completo em 2014, segundo imagens do satélite Terra da NASA. [1] texto principal, parágrafo 1
Contexto: Lobo leste do Aral Sul; série de imagens MODIS de 2000 a 2018. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os recuos mais fortes do lobo leste do Aral Sul parecem ter ocorrido entre 2005 e 2009, quando uma seca reduziu e depois cortou a vazão do Amu Darya. [1] texto principal, parágrafo 3
Contexto: Lobo leste do Aral Sul, 2005 a 2009. · Limitações: A própria NASA escreve "appear to have occurred" e liga o recuo à seca; não é uma medição de causa isolada. · Interpretação das imagens de satélite, escrita com cautela pela NASA; a seca somou-se ao desvio, não o substituiu. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Em 2000-2001, em plena seca, a entrada de água dos rios no lago chegou a apenas 200 milhões de metros cúbicos por ano. [4] Introduction
Contexto: Aral, 2000-2001. · Limitações: Número citado por Liu et al. (2025) a partir de outra fonte, não aberta por nós. · Valor de segunda mão. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O dique e a barragem de Kok-Aral, concluídos em 2005, separam o Aral Norte do Sul e impedem que a água do Norte escoe para o Sul; o Aral Norte voltou a subir, e em 2013 sua salinidade média era de 5,3‰. [1] texto principal, parágrafo 4 [2] Changes in water level and chemistry of the Aral Sea
Contexto: Pequeno Aral (Norte), Cazaquistão, 2005 a 2013. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A poeira salgada do fundo exposto assentou sobre campos e degradou o solo, e as lavouras passaram a ser lavadas com volumes cada vez maiores de água dos rios. [1] texto principal, parágrafo 4
Contexto: Região do Aral; descrição da NASA. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- NASA Earth Observatory — World of Change: Shrinking Aral Sea
NASA Earth Observatory · 2026-03-05 (última atualização da página) · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Environmental Science and Pollution Research — The zoocenosis of the Aral Sea: six decades of fast-paced change
Aladin, N. V.; Gontar, V. I.; Zhakova, L. V.; Plotnikov, I. S.; Smurov, A. O.; Rzymski, P.; Klimaszyk, P. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s11356-018-3807-z - PLoS ONE — Scientific foundations for an IUCN Red List of Ecosystems
Keith, D. A. et al. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0062111 - Scientific Reports — Characteristics of salt dust aerosols and their transport implications in the Aral Sea
Liu, J.; Ding, J.; Liu, B.; Wu, S.; Han, Z. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-025-86880-5
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)