Biologia

Bactérias com bússola: como cadeias de cristais de magnetita orientam o nado das magnetotácticas

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Micróbios

Bactérias magnetotácticas fabricam, dentro da célula, compartimentos de membrana chamados magnetossomos, cada um com um cristal de magnetita (Fe3O4) ou de greigita (Fe3S4). Os magnetossomos se enfileiram e formam um dipolo magnético que alinha a célula, de modo passivo, às linhas do campo terrestre; os flagelos fazem o movimento. Grupos da UFRJ estudam esses organismos em lagoas do Rio de Janeiro.

Magnetotácticas não são um grupo único: espalham-se por vários filos de bactérias e vivem em ambientes aquáticos com pouco oxigênio, sobretudo na faixa em que a água ou o sedimento passam do oxigenado ao sem oxigênio. A "agulha" é uma cadeia de magnetossomos. Cada magnetossomo é uma vesícula derivada da membrana da célula, onde um único cristal é sintetizado, com tamanho típico de 35 a 120 nm, o de um único domínio magnético: pequeno o bastante para ser um ímã permanente estável. Os genes ficam agrupados numa região do cromossomo, a "ilha de magnetossomos", e codificam proteínas chamadas Mam e Mms. A célula não detecta o campo magnético: o torque do dipolo a alinha, como a agulha de uma bússola, e é o nado, movido por flagelos, que a leva adiante.

Bússola que nada para o sul

Magnetotácticas do hemisfério norte nadam, em geral, no sentido do campo; as do hemisfério sul costumam nadar no sentido contrário. A primeira cultura pura de uma magnetotáctica do hemisfério sul veio da Lagoa de Itaipu, no Rio de Janeiro, em 2014.

Do ferro dissolvido ao cristal: uma sequência provável

Em Magnetospirillum, proteínas Mam e Mms deformam a membrana interna e formam uma vesícula; MamB e MamM importam ferro divalente para dentro dela; proteínas com domínio de heme (os magnetocromos) ajudam a manter a razão certa entre Fe2+ e Fe3+; e Mms6 e outras proteínas iniciam o cristal e controlam seu tamanho. As revisões descrevem as etapas como uma simplificação: provavelmente ocorrem ao mesmo tempo, e o modelo exato de nucleação segue em disputa.

Como sabemos: mutantes, ímãs e microscópio eletrônico

Os genes foram achados com mutantes que deixaram de responder a um ímã e, ao microscópio eletrônico, não tinham magnetossomos ou os tinham deformados. Depois, deleções de genes isolados e a transferência de operons para uma bactéria não magnética (Rhodospirillum rubrum) mostraram quais bastam. Os limites: a ilha de magnetossomos pode se perder espontaneamente, e genes duplicados mascaram o efeito de apagar apenas um deles.

Para que serve a bússola? Uma hipótese

A explicação mais citada é que a bússola poupa tempo: ao restringir o nado a uma linha, a bactéria acha mais depressa o ponto em que o oxigênio é pouco, mas ainda existe. Os autores escrevem que isso é pensado ('is thought to'), não demonstrado em todas as espécies. As magnetotácticas do sul tendem a nadar no sentido contrário ao das do norte, como esperado se a inclinação do campo as empurra para baixo nos dois hemisférios; mas há relatos dos dois tipos em ambos.

Pesquisa brasileira: lagoas do Rio de Janeiro

Na Lagoa de Araruama, um estudo publicado em 2007 com coautores do CBPF e da UFRJ mediu o momento magnético de organismos multicelulares com cerca de 17 células e achou alinhamento acima de 80%. Na Lagoa de Itaipu, uma equipe da UFRJ isolou em 2014 a Magnetofaba australis IT-1, a primeira cultura pura de uma magnetotáctica do hemisfério sul segundo os autores. Os dois trabalhos partem de amostras de sedimento e água dessas lagoas.

Como sabemos

O mecanismo geral é bem estabelecido em Magnetospirillum, mas a função ecológica do alinhamento, o modelo de nucleação dos cristais e a origem antiga do grupo são hipóteses ou estimativas; o texto vem de revisões e de dois artigos brasileiros.

Fontes

  1. PLoS Genetics — Magnetic genes: Studying the genetics of biomineralization in magnetotactic bacteria
    McCausland, H. C.; Komeili, A. · 2020 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pgen.1008499
  2. Journal of Structural Biology: X — Current view of iron biomineralization in magnetotactic bacteria
    Ben-Shimon, S.; Stein, D.; Zarivach, R. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.yjsbx.2021.100052
  3. Biophysical Journal — Magnetic Optimization in a Multicellular Magnetotactic Organism
    Winklhofer, M.; Abraçado, L. G.; Davila, A. F.; Keim, C. N.; Lins de Barros, H. G. P. · 2007 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1529/biophysj.106.093823
  4. Frontiers in Microbiology — Isolation, cultivation and genomic analysis of magnetosome biomineralization genes of a new genus of South-seeking magnetotactic cocci within the Alphaproteobacteria
    Morillo, V.; Abreu, F.; Araujo, A. C.; de Almeida, L. G. P.; Enrich-Prast, A.; Farina, M.; de Vasconcelos, A. T. R.; Bazylinski, D. A.; Lins, U. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2014.00072
  5. The ISME Journal — Renaissance for magnetotactic bacteria in astrobiology
    Zhang, W. et al. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41396-023-01495-w
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos