Ecologia
Como o Brasil avalia o risco de extinção: o processo do ICMBio e o que o Livro Vermelho de 2018 registrou
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Conservação com evidências
O ICMBio avalia a fauna brasileira com o método da IUCN: especialistas aplicam os critérios em oficinas e uma etapa final valida o resultado. No ciclo concluído em 2014 e publicado em 2018, foram avaliados 12.254 táxons e 1.182 (9,6%) ficaram em categoria de ameaça. Mas 1.671 (13,6%) ficaram com dados insuficientes, e a lista nacional não equivale à global.
A IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) criou um método de categorias e critérios para estimar o risco de extinção; os critérios em si estão em outro post. Os países podem aplicá-lo ao seu território. No Brasil, o Programa Pró-Espécies atribui ao ICMBio a avaliação da fauna e ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro a da flora. Quando uma espécie ocorre também em outros países, avalia-se só a parte da população que está no Brasil (avaliação regional). Táxon é qualquer grupo reconhecido na classificação; aqui, espécies e algumas subespécies. As categorias de ameaça são Vulnerável (VU), Em Perigo (EN) e Criticamente em Perigo (CR).
Uma espécie em 700 metros de rio
O sapinho da capa do livro, Melanophryniscus admirabilis, vive em apenas 700 m de rio no Rio Grande do Sul. Em 2014, uma hidrelétrica que o submergiria foi abandonada, e a espécie segue como Criticamente em Perigo.
Quem avalia e como sabemos o resultado
Para cada grupo de animais, especialistas da comunidade científica atuam como coordenadores de táxon. O ICMBio monta uma ficha por espécie, com dados e mapa; pesquisadores com experiência na espécie a complementam e o público pode enviar informações pela internet. Em oficinas, os pesquisadores aplicam em conjunto o método da IUCN, orientados por analistas do Instituto. Uma última oficina valida o resultado ao checar se a categoria é coerente com a ficha. A rodada de 2009 a 2014 mobilizou especialistas de mais de 200 instituições.
Nacional não é global
A IUCN desenvolveu o método para avaliações globais e o adaptou para regiões. Numa avaliação regional, só se julga a parte da população que está dentro do território. Por isso uma espécie pode ter categoria diferente na lista nacional e na global: a IUCN dá o exemplo de uma espécie Menos Preocupante no mundo que é Criticamente em Perigo numa região onde é rara, e o contrário. Só para espécies endêmicas a população avaliada é a mesma nos dois casos; nas demais, comparar categoria com categoria sem checar o escopo leva a erro.
O que os números de 2018 mostram
Foram avaliados 12.254 táxons: todas as 8.818 espécies de vertebrados conhecidas no país (8.922 táxons com subespécies) e 3.332 invertebrados. Do total, 1.182 (9,6%) estão em categoria de ameaça; para as análises do livro valem 1.173, os já reconhecidos nas portarias. Entre vertebrados, os peixes cartilaginosos têm a maior proporção de ameaçados (32,5%). A Mata Atlântica concentra 50,5% das espécies ameaçadas do país.
O que os números não dizem
Primeiro, 1.671 táxons (13,6%) estão em Dados Insuficientes, categoria que não declara a espécie segura. Segundo, só 3% dos invertebrados do país foram avaliados, e escolhidos por critério, então a proporção entre eles não vale para o grupo. Terceiro, a comparação com a lista anterior mistura efeitos: 716 espécies entraram e 170 saíram, mas o ICMBio atribui o aumento mais ao esforço e ao conhecimento do que ao declínio, e só cinco saídas foram melhora real. Nada disso mede quantas espécies existem no Brasil.
A lista oficial mais recente
A Portaria MMA 148, de 7 de junho de 2022, atualizou os anexos das portarias de 2014 para fauna e flora. Contando as linhas numeradas dos anexos, a fauna ameaçada tem 1.249 espécies ou subespécies e a flora, 3.209 (contagem nossa, porque a portaria não traz o total). A flora é avaliada pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que, por meio do CNCFlora, publicou o Livro Vermelho da Flora do Brasil em 2013. Não verificamos se há portaria mais recente que a de 2022.
Como sabemos
Números e processo vêm do texto integral do volume 1 e da Portaria 148/2022; os totais da lista de 2022 são contagem nossa.
- Fato estabelecido: Todas as 8.818 espécies de vertebrados que ocorrem no Brasil, descritas até meados de 2014, foram avaliadas; com subespécies de alguns primatas e aves, são 8.922 táxons de vertebrados. [1] Resultados, Táxons avaliados
Contexto: Fauna brasileira, avaliação concluída em 2014 e publicada em 2018. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Também foram avaliados 3.332 invertebrados, cerca de 3% das espécies de invertebrados reconhecidas para o país, e o total de táxons com risco de extinção avaliado foi 12.254. [1] Resultados, Táxons avaliados
Contexto: Só Odonata, Collembola, Onychophora e Porifera tiveram todas as espécies conhecidas avaliadas; nos demais grupos de invertebrados houve seleção. · Limitações: Invertebrados foram escolhidos por informação mínima disponível e, às vezes, por indício prévio de ameaça; o percentual de ameaçados entre eles não representa o conjunto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Dos 12.254 táxons avaliados, 1.182 (9,6%) ficaram em categoria de ameaça e 72,2% em Menos Preocupante (LC). [1] Resultados, Categorias dos táxons avaliados
Contexto: Porcentagem sobre os 12.254 táxons avaliados, não sobre toda a fauna do país. · Limitações: O percentual mistura vertebrados (todos avaliados) com uma seleção de invertebrados. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Para as análises do livro valem 1.173 táxons ameaçados reconhecidos pelas Portarias MMA 444 e 445 de 2014; os outros nove ainda não tinham descrição formal e só entram nas portarias quando forem descritos. [1] Resultados, Categorias dos táxons avaliados
Limitações: A diferença 1.182 menos 1.173 igual a 9 é a conta que o próprio livro apresenta. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A categoria Dados Insuficientes (DD) reúne 1.671 táxons, 13,6% dos avaliados, mais que a soma de Criticamente em Perigo e Em Perigo; DD não significa segura: indica que faltam dados e que a espécie pode estar ameaçada. [1] Categorias, Dados Insuficientes
Contexto: A coluna 1.671 é a de DD segundo o cabeçalho da Tabela II (EX RE EW CR EN VU total DD NT LC total NA). · Limitações: A leitura das colunas e a comparação com CR + EN (319 + 408 = 727) são cálculo nosso sobre a tabela; o PDF extrai a tabela como linha corrida. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O processo do ICMBio parte de fichas por espécie, consultadas a especialistas e ao público, passa por oficinas em que pesquisadores aplicam o método da IUCN conduzidos por analistas do Instituto, e fecha com uma oficina de validação que checa a coerência entre a categoria e a ficha. A rodada de 2009 a 2014 mobilizou especialistas de mais de 200 instituições. [1] Apresentação, de Braulio Ferreira de Souza Dias
Contexto: Descrição do ciclo concluído em 2014 para a fauna; a Instrução Normativa ICMBio 34/2013 fixa atores, etapas e prazos. · Limitações: O número de instituições vem da Apresentação, assinada por Braulio Ferreira de Souza Dias (UnB, ex-coordenador do projeto financiador), e não de um texto do ICMBio. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A avaliação da fauna deve ser repetida em ciclos de cinco anos, de modo que ciclos sucessivos mostrem mudanças no estado de conservação. [1] O processo de avaliação do estado de conservação da fauna brasileira
Contexto: É a previsão do processo, não garantia de que cada ciclo ocorra no prazo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Pelo Programa Pró-Espécies, o ICMBio avalia a fauna e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro avalia a flora, ambos pelo método de categorias e critérios da IUCN; nas espécies não endêmicas, a avaliação nacional é uma avaliação regional, que considera só os limites do território brasileiro. [1] Método
Contexto: Fauna: ICMBio; flora: JBRJ. O volume 1 trata da fauna; a flora só é mencionada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A IUCN avisa que a categoria global de uma espécie pode não ser a mesma que a nacional: uma espécie Menos Preocupante no mundo pode ser Criticamente em Perigo numa região onde é rara ou está em declínio, e o inverso também ocorre. [3] Seção 2.1.2, Geographical scale of categorization
Contexto: Vale para qualquer lista nacional ou regional feita com os critérios da IUCN. · Limitações: A lista da IUCN (global) e a do Brasil respondem a perguntas diferentes e não devem ser somadas nem comparadas número a número. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Dos 627 táxons da lista anterior (2003 e 2004), 170 deixaram a lista de ameaçados; o livro aponta só cinco casos de melhora real do estado de conservação e diz que sair da lista não implica necessariamente melhora. [1] Espécies que saíram da lista de ameaçadas
Contexto: Comparação entre a lista de 2003/2004 e a de 2014. · Limitações: As causas das saídas incluem novos registros, medida mais precisa do declínio e ajuste na aplicação do método. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Entre o Livro Vermelho de 2008 e o de 2018, 716 espécies passaram a integrar a lista nacional; o ICMBio atribui o aumento mais ao tamanho do esforço de avaliação e ao avanço do conhecimento do que a um declínio, embora reconheça que houve declínio. [1] Prefácio
Contexto: Interpretação de quem conduziu a avaliação. · Limitações: O livro não separa quantas das 716 são avanço de conhecimento e quantas são piora real. · O livro dá o saldo (716 entraram, 170 saíram) e a interpretação institucional; não há comparação espécie a espécie no volume 1. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A Mata Atlântica concentra 50,5% das espécies ameaçadas do Brasil (596 espécies na figura por bioma), e 38,5% são endêmicas do bioma; é o bioma com mais espécies ameaçadas em números absolutos e em proporção da riqueza. [1] Figura 10d
Contexto: Espécies que ocorrem em mais de um bioma são contadas em todos eles. · Limitações: Percentual sobre os táxons ameaçados da lista de 2014; reflete também onde há mais pesquisa e mais pesquisadores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Entre os vertebrados, os peixes cartilaginosos têm a maior proporção de táxons ameaçados (32,5%); o livro só calcula porcentagem por grupo para os que tiveram todas as espécies do país avaliadas. [1] Tabela IV
Contexto: Só vertebrados estão nesse caso; para invertebrados a proporção não pode ser lida como taxa de ameaça do grupo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A lista oficial foi atualizada pela Portaria MMA 148, de 7 de junho de 2022, que altera os anexos das Portarias 443, 444 e 445 de 2014. Contando as linhas numeradas dos anexos publicados no Diário Oficial, a fauna ameaçada tem 1.249 espécies ou subespécies (764 no Anexo I da Portaria 444 e 485 no da 445) e a flora, 3.209. [2] Anexo 1 (flora), última linha numerada
Contexto: Fauna e flora ameaçadas na lista oficial segundo a Portaria 148/2022. · Limitações: Os totais 764 + 485 = 1.249 e 3.209 são contagem nossa a partir da numeração das linhas dos anexos (a portaria não traz o total no texto); não verificamos portaria posterior. A lista de 2022 vem de reavaliação e não é comparável linha a linha com a de 2014. · Totais por contagem de linhas numeradas. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O sapinho-admirável-de-barriga-vermelha (Melanophryniscus admirabilis), que ilustra a capa do livro, vive em apenas 700 m de trecho de rio no Rio Grande do Sul e está Criticamente em Perigo; em 2014, a proposta de uma pequena hidrelétrica que o submergiria foi abandonada. [1] Texto de abertura do volume 1, assinado por Marcelo Marcelino de Oliveira [2] Anexo 2, Anexo I (fauna), linha 285
Contexto: Categoria CR confirmada na lista de 2022. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- ICMBio / Ministério do Meio Ambiente — Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção: Volume I
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) · 2018 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Diário Oficial da União, Imprensa Nacional — Portaria MMA nº 148, de 7 de junho de 2022 (atualiza a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção)
Ministério do Meio Ambiente · 2022-06-08 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - IUCN, Species Survival Commission — Guidelines for Using the IUCN Red List Categories and Criteria, Version 16
IUCN Standards and Petitions Committee · 2024 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 1; conferência de trechos automatizada)