Biologia

Líquens secos sobreviveram ao espaço aberto; isso mostra resistência, não que vivam em Marte

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Fungos

Em 2005, líquens passaram 16 dias fora da Terra e recuperaram o metabolismo em até 24 horas. No LIFE, com 559 dias na Estação Espacial Internacional, a alga de Xanthoria elegans voltou a crescer em cultura, embora com danos celulares. Isso mostra tolerância à dessecação e à radiação, não vida ativa em outros mundos: em Marte simulado, outro líquen sobreviveu, mas sem fotossíntese.

Líquen é uma associação entre um fungo e uma alga (ou cianobactéria). Muitos secam por completo e voltam à atividade quando se molham, estado chamado anidrobiose; é esse estado seco que está em jogo no espaço, onde o vácuo retira a água. Os experimentos ficam em plataformas externas de satélites ou da Estação Espacial Internacional, na órbita baixa da Terra, e usam filtros que deixam passar mais ou menos ultravioleta. Depois, a viabilidade é medida por fluorescência da clorofila, microscopia e corantes que distinguem células com membrana íntegra. Simulações de Marte repetem pressão, gás e luz do planeta em câmaras de laboratório.

Em Marte simulado, o líquen respirou melhor à noite

Em câmara que imitava Marte, Xanthoria parietina mostrou maior eficiência fotossintética à noite, com 100% de umidade relativa, e quase fotoinibição de dia, quando a umidade caía a 0,1%. O líquen precisa de água para funcionar.

Dois voos, dois prazos

O experimento LICHENS levou Rhizocarpon geographicum e Xanthoria elegans, coletadas na Espanha central, ao módulo BIOPAN-5, do lado de fora do satélite Foton-M2: foram 16 dias em órbita, em 2005. O LIFE foi mais longo: X. elegans ficou 559 dias, cerca de 18 meses, na plataforma EXPOSE-E, fora da Estação Espacial Internacional. Em ambos os casos, a sobrevivência foi avaliada depois que as amostras voltaram à Terra.

Como sabemos que "sobreviveu"

Sobreviver aqui tem critérios técnicos. A fluorescência da clorofila a indica se a reação de luz da fotossíntese funciona. Corantes LIVE/DEAD marcam células com membrana íntegra ou comprometida, a microscopia examina a organização das células e o cultivo mostra se a alga volta a crescer. Os resultados não são tudo ou nada: em 2005, houve mais células com membrana comprometida nas amostras de voo, e no LIFE só uma fração das células da alga seguiu cultivável.

Marte simulado não é Marte

As câmaras de simulação reproduzem pressão, gás e ciclos de umidade e luz da região equatorial marciana, mas só durante o tempo do ensaio. Xanthoria parietina passou 30 dias a 600 Pa, com ciclos de umidade e ultravioleta, e sobreviveu, e o ultravioleta foi o que mais a danificou. Circinaria gyrosa, testada ativa, também sobreviveu 30 dias, mas sua alga não fez fotossíntese. Sobreviver não equivale a crescer ou a se reproduzir.

O que isso não prova

Os testes mostram que um líquen seco tolera o vácuo, a radiação e o ultravioleta da órbita baixa da Terra. Não mostram que ele cresceria em Marte, nem que sobreviveria ao lançamento por impacto, ao trânsito entre planetas e à entrada atmosférica, etapas que a hipótese da litopanspermia exigiria. Servem, sobretudo, para delimitar o que a vida terrestre suporta, tema do post sobre os limites da vida em cultura (extremófilos).

Como sabemos

Resultados conferidos em documentos abertos; dois estudos centrais (2005 e 2016) lidos só pelo resumo.

Em debate:

Fontes

  1. Astrobiology — Lichens survive in space: results from the 2005 LICHENS experiment
    Sancho, L. G. et al. · 2007 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1089/ast.2006.0046
  2. Origins of Life and Evolution of Biospheres — Characterisation of Growth and Ultrastructural Effects of the Xanthoria elegans Photobiont After 1.5 Years of Space Exposure on the International Space Station
    Brandt, A.; Posthoff, E.; de Vera, J.-P.; Onofri, S.; Ott, S. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s11084-015-9470-1
  3. Scientific Reports — Survivability of the lichen Xanthoria parietina in simulated Martian environmental conditions
    Lorenz, C. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-32008-6
  4. Frontiers in Microbiology — Cellular Responses of the Lichen Circinaria gyrosa in Mars-Like Conditions
    de la Torre Noetzel, R. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2018.00308
  5. Frontiers in Microbiology — EXPOSE-R2: The Astrobiological ESA Mission on Board of the International Space Station
    Rabbow, E. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2017.01533
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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