Evolução

O fungo do koji, A. oryzae, é um A. flavus domesticado; genomas apontam uma ou duas origens, e o debate segue

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Fungos

O fungo do koji, Aspergillus oryzae, descende de dentro da diversidade de A. flavus, com o qual divide 99,5% de similaridade nas regiões codificantes. Em relação ao parente selvagem, tem menos variação genética, mais cópias do gene da α-amilase e baixa expressão dos genes das aflatoxinas. Se foi uma domesticação ou duas, é debatido.

Koji é o arroz (ou outro grão) coberto pelo mofo Aspergillus oryzae, cujas enzimas quebram amido e proteínas na produção de saquê, missô e shoyu. Domesticar um fungo é obter, por seleção humana, populações adaptadas a um alimento. A. flavus, o parente selvagem, vive em solo e lavouras e algumas linhagens produzem aflatoxina, um carcinógeno. Os genomas das duas espécies são tão parecidos que a separação em duas espécies é discutida: A. oryzae aparece aninhado em um dos grupos de A. flavus nas árvores genéticas. A comparação de genomas e de genes ativos, medidos durante o crescimento em arroz, mostra o que mudou. A fonte dos genes de uma linhagem domesticada é, em grande parte, a variação já presente na espécie selvagem.

Tem o gene da toxina, mas não a produz

Algumas linhagens de A. oryzae guardam o conjunto de genes da aflatoxina, inteiro ou em partes, mas não produzem a toxina. Nos genomas, esse conjunto não se agrupa por toxicidade, o que sugere perda em paralelo, em linhagens distintas.

Qual é o parente selvagem

A pergunta tem resposta prática e resposta taxonômica. Na prática, os genomas põem A. oryzae dentro de A. flavus, e a literatura trata o fungo do koji como uma forma domesticada dele. Na taxonomia, as duas espécies seguem separadas, em parte para evitar confusão regulatória. O estudo de 2025 acha que isso é frágil: os neotipos das duas espécies caíram no mesmo grupo. Além disso, o artigo cita outra análise que aponta A. minisclerotigenes e A. aflatoxiformans como parentes mais próximos.

O que mudou no fungo

Em comparação com A. flavus, o fungo do koji mostra menos variação genética, mais cópias do gene da α-amilase e expressão baixa dos genes de toxinas em arroz. Há mudanças em genes do metabolismo e de regulação, e preservação dos genes das enzimas úteis. Os autores de 2012 resumem: a domesticação de micróbios teria sido sobretudo remodelação metabólica. É uma interpretação, e não um resultado medido em experimento de seleção.

Uma ou duas domesticações

Estudos de 2012 e 2019 viam o fungo do koji como um ramo só nas árvores, compatível com uma domesticação. O estudo de 2025 vê dois grupos separados, um deles com genomas aparentemente clonais e de baixa diversidade, e sugere ao menos duas domesticações. Os autores dizem que a origem desse grupo segue incerta. As amostras diferem em tamanho e composição (16, 82 e 639 genomas), o que pode pesar no resultado, mas nenhum dos artigos testa isso diretamente.

Limites e vieses

Os 639 genomas vêm de 35 estudos e têm muitas amostras dos Estados Unidos (382 da América do Norte), 429 de lavouras e 108 de hospedeiros humanos, mas só dois de ambiente natural. Isso pesa num tema que depende de conhecer o parente selvagem. Já o estudo de 2019 usou só linhagens de fabricantes japoneses de esporos. Os resultados valem para as amostras disponíveis, e novos genomas podem mover a árvore.

Como sabemos

A origem a partir de A. flavus e as mudanças de metabolismo estão bem documentadas, mas amostras pequenas e vieses de coleção sustentam o resto, e o número de domesticações é contestado.

Em debate: Em 2012, com 16 genomas, e em 2019, com 82, o fungo do koji aparecia como um só ramo, compatível com uma domesticação. Em 2025, com 639 genomas, surgem dois grupos que não formam um ramo único, e os autores sugerem ao menos duas domesticações.

Fontes

  1. DNA Research (via PubMed Central) — Evolution of Aspergillus oryzae before and after domestication inferred by large-scale comparative genomic analysis
    Watarai, N.; Yamamoto, N.; Sawada, K.; Yamada, T. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/dnares/dsz024
  2. Current Biology (via PubMed Central) — The evolutionary imprint of domestication on genome variation and function of the filamentous fungus Aspergillus oryzae
    Gibbons, J. G.; Salichos, L.; Slot, J. C.; Rinker, D. C.; McGary, K. L.; King, J. G.; Klich, M. A.; Tabb, D. L.; McDonald, W. H.; Rokas, A. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2012.05.033
  3. IMA Fungus (via PubMed Central) — Global population genomics redefines domestication and clinical diversity in the Aspergillus flavus-oryzae complex
    Pfliegler, W. P.; Németh, B.; Bodnár, V.; Pusztahelyi, T.; Carbone, I.; Pócsi, I. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3897/imafungus.16.172343
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

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