Ecologia
Como a IUCN decide que uma espécie está ameaçada: os cinco critérios, de A a E
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Conservação com evidências
A IUCN não classifica por opinião: compara dados a limiares fixos em cinco critérios (A a E: redução da população, área de distribuição, população pequena em declínio, população muito pequena e análise quantitativa de risco). Basta cumprir um critério para entrar em Vulnerável, Em Perigo ou Criticamente em Perigo; o que muda de uma categoria à outra é o limiar, e o dado pode ser estimado, inferido ou suspeitado.
A Lista Vermelha da IUCN usa o mesmo texto de regras para qualquer espécie, de mamíferos a plantas (micro-organismos ficam de fora). Há três categorias de ameaça, aninhadas: Vulnerável (VU), Em Perigo (EN) e Criticamente em Perigo (CR); fora delas ficam Quase Ameaçada, Menos Preocupante, Dados Insuficientes e Não Avaliada. "Indivíduos maduros" são os capazes de se reproduzir, "geração" é a idade média dos pais da coorte atual, "extensão de ocorrência" é a área do menor polígono que contém todos os locais conhecidos ou inferidos, e "área de ocupação" é a parte dessa extensão que a espécie de fato ocupa.
Dados Insuficientes não quer dizer segura
Uma espécie classificada como DD (Dados Insuficientes) não foi considerada fora de perigo: a própria IUCN diz que ela não deve ser tratada como não ameaçada até que seja avaliada. Faltam dados, e isso pede pesquisa.
A e B: o que diminuiu e onde ainda cabe
O critério A olha a redução da população ao longo do maior período entre 10 anos e três gerações: no caso A2 (causas que não cessaram, não são entendidas ou não são reversíveis), pelo menos 80%, 50% ou 30% para Criticamente em Perigo, Em Perigo e Vulnerável. O B olha o espaço: extensão de ocorrência abaixo de 100, 5.000 ou 20.000 km², ou área de ocupação abaixo de 10, 500 ou 2.000 km², mais duas de três condições, como fragmentação e declínio contínuo. A lista de causas de A inclui patógenos, como no caso dos anfíbios e do quitrídio.
C, D e E: poucos indivíduos e risco calculado
O critério C junta população pequena (menos de 250, 2.500 ou 10.000 indivíduos maduros) e declínio. O D dispensa o declínio: menos de 50, 250 ou 1.000 indivíduos maduros. O E calcula a probabilidade de extinção: pelo menos 50% em 10 anos ou três gerações, 20% em 20 anos ou cinco gerações, 10% em 100 anos.
Qualidade do dado e incerteza
O sistema foi feito para funcionar com dados imperfeitos: aceita estimar, inferir e suspeitar, e manda registrar qual dos cinco graus sustenta cada número. Quando a incerteza é grande, o avaliador documenta a faixa, escolhe uma categoria e a atitude (precavida ou "evidenciária"). Se nem isso for possível, a espécie fica em Dados Insuficientes, que não é categoria de ameaça e não deve ser lida como segurança.
O que o rótulo não diz
Os limiares foram definidos por consulta ampla e julgados adequados, sem justificativa formal para cada número, e o mapeamento em escala mais fina pode derrubar a área de ocupação abaixo do limiar. O rótulo mede risco de extinção hoje, não prioridade de ação, e extinção é processo ao acaso: persistir em alto risco não derruba a avaliação. Listas nacionais seguem regras próprias e podem divergir da global.
Como sabemos
Limiares e definições transcritos do texto oficial da IUCN (v3.1) e das diretrizes (v16), lidos na íntegra em PDF.
- Fato estabelecido: A Lista Vermelha da IUCN tem três categorias de ameaça aninhadas: Vulnerável (alto risco de extinção na natureza), Em Perigo (risco muito alto) e Criticamente em Perigo (risco extremamente alto). Quem é Criticamente em Perigo também se qualifica como Em Perigo e Vulnerável. [1] IV. The Categories, Endangered
Contexto: Texto da versão 3.1 (segunda edição, 2012) das Categorias e Critérios, usada em avaliações novas desde janeiro de 2001. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Basta cumprir um dos cinco critérios (A a E) para a espécie entrar numa categoria de ameaça; cada espécie deve ser testada contra todos, e nenhuma avaliação é aceita na Lista Vermelha sem citar ao menos um critério. [1] II. Preamble, ponto 10
Contexto: Regra do texto oficial dos critérios, aplicável a qualquer táxon no nível de espécie ou abaixo, exceto micro-organismos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O critério A mede a redução do tamanho da população ao longo do maior período entre 10 anos e três gerações. Para reduções cujas causas não cessaram, não são compreendidas ou não são reversíveis (A2), os limiares são de pelo menos 80% (Criticamente em Perigo), 50% (Em Perigo) e 30% (Vulnerável). [1] V. Criteria, A1(e)
Contexto: Aplica-se à contagem de indivíduos maduros. Para causas claramente reversíveis, compreendidas e já cessadas (A1), os limiares sobem para 90%, 70% e 50%; A3 e A4 incluem projeção futura (até 100 anos). · Limitações: Os valores 90/70/50% de A1 vêm do mesmo documento (quadro-resumo e texto dos critérios); aqui só o A2 está transcrito. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O critério B olha para a distribuição geográfica: extensão de ocorrência menor que 100 km² (Criticamente em Perigo), 5.000 km² (Em Perigo) ou 20.000 km² (Vulnerável), ou área de ocupação menor que 10, 500 ou 2.000 km². Além do tamanho, é preciso cumprir pelo menos duas de três condições (fragmentação ou poucas localidades, declínio contínuo, flutuações extremas). [1] V. Criteria, Vulnerable, B2
Contexto: As três condições são: (a) população severamente fragmentada ou em número limitado de localidades (uma, no máximo cinco ou no máximo dez, conforme a categoria); (b) declínio contínuo; (c) flutuações extremas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O critério C combina população pequena com declínio: menos de 250 indivíduos maduros (Criticamente em Perigo), 2.500 (Em Perigo) ou 10.000 (Vulnerável), e ainda um declínio contínuo, por exemplo de pelo menos 25% em três anos ou uma geração no nível mais alto de ameaça. [1] V. Criteria, Vulnerable, C
Contexto: Em Perigo exige declínio de pelo menos 20% em cinco anos ou duas gerações; Vulnerável, 10% em dez anos ou três gerações. A alternativa C2 troca a taxa por declínio contínuo mais estrutura populacional (subpopulações pequenas ou concentração em uma só). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O critério D vale para populações muito pequenas, sem exigir declínio: menos de 50 indivíduos maduros (Criticamente em Perigo), menos de 250 (Em Perigo) e menos de 1.000 (Vulnerável). Em Vulnerável há também D2, para áreas de ocupação típica abaixo de 20 km² ou cinco localidades ou menos. [1] V. Criteria, Vulnerable, D2
Contexto: O valor para Em Perigo (menos de 250) está no mesmo documento; a lacuna entre os três níveis de D segue a escala 50 / 250 / 1.000. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O critério E exige uma análise quantitativa da probabilidade de extinção na natureza: pelo menos 50% em 10 anos ou três gerações (Criticamente em Perigo), 20% em 20 anos ou cinco gerações (Em Perigo) e 10% em 100 anos (Vulnerável). Uma análise de viabilidade populacional é um exemplo de técnica aceita. [1] III. Definitions, ponto 12
Contexto: Em Perigo: probabilidade de extinção de pelo menos 20% em 20 anos ou cinco gerações (o que for mais longo, até 100 anos). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nos critérios A, B, C e D a população é contada em indivíduos maduros, isto é, capazes de se reproduzir. Quando o número oscila, o texto manda usar uma estimativa baixa, que na maioria dos casos fica bem abaixo da média. [1] III. Definitions, ponto 3
Contexto: Também não contam indivíduos maduros que nunca produzirão novos recrutas (por exemplo, quando a densidade é baixa demais para fecundação) e, com razão sexual desviada, usa-se a estimativa mais baixa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os períodos dos critérios são medidos em gerações, não só em anos, para ajustar o limiar ao ritmo de renovação de cada espécie. Geração é a idade média dos pais da coorte atual, medida entre a idade da primeira reprodução e a do reprodutor mais velho. [1] III. Definitions, ponto 4 [2] Guidelines, seção 4.3 (comprimento de geração)
Contexto: Segundo as diretrizes, a definição foi muito mal compreendida e há dificuldades com espécies de vida muito longa ou sob exploração. · Limitações: A faixa "maior que a idade da primeira reprodução e menor que a do mais velho" vem do próprio texto de definição (f1). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A IUCN distingue cinco graus de qualidade do dado: observado, estimado, projetado, inferido e suspeitado, nesta ordem decrescente. O critério A aceita redução inferida ou suspeitada; o C1 só aceita declínio estimado; o C2 aceita observado, projetado ou inferido. [2] Seção 3.1
Contexto: Se o dado for de qualidade menor que a exigida, o critério é considerado não cumprido mesmo que o número passe o limiar (Tabela 3.1 das diretrizes). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A falta de dados de alta qualidade não impede avaliar: estimativa, inferência e projeção são aceitas, desde que a base seja documentada. Quando os dados são insuficientes para qualquer categoria, usa-se Dados Insuficientes (DD), que não é categoria de ameaça. [1] II. Preamble, ponto 9
Contexto: O texto desencoraja o uso liberal de DD: espécies pouco conhecidas muitas vezes podem receber categoria de ameaça pelo que se sabe da deterioração do hábitat. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A incerteza é tratada de forma explícita: o avaliador registra a melhor estimativa e uma faixa plausível, escolhe uma única categoria e documenta a atitude adotada, que deve ser precavida mas realista, usando por exemplo limites inferiores plausíveis em vez da melhor estimativa. [1] Annex 1: Uncertainty
Contexto: Atitude "evidenciária" classificaria como ameaçada só com evidência forte; a "precavida" classifica como ameaçada a menos que seja certo que não é. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A escala de mapeamento influencia o resultado: quanto mais fino o mapa, menor a área de ocupação encontrada e mais fácil passar sob os limiares do critério B, o que o próprio texto reconhece como fonte possível de inconsistência e viés. [1] II. Preamble, ponto 7
Contexto: A IUCN prevê, em alguns casos, um fator de correção de escala para padronizar estimativas de área de ocupação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Os valores numéricos dos limiares foram definidos por consulta ampla e julgados apropriados, sem justificativa formal para cada número. Segundo Rodríguez e colaboradores (2011), o sistema para espécies se apoia em teoria e resultados empíricos e foi extensamente testado (Mace et al. 2008, que não foi lido por nós). [1] I. Introduction, ponto 3 [3] Introdução
Contexto: A afirmação de teste extenso é de f3 citando Mace et al. (2008); o artigo não leu Mace et al. A adoção formal é de 1994; a versão 3.1 atual é de 2001. · Limitações: Fonte de segunda mão para o teste empírico. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A categoria mede risco de extinção sob as circunstâncias atuais, não define prioridade de conservação. E, como a extinção é um processo ao acaso, uma espécie que persiste numa categoria de alto risco não prova que a avaliação estava errada. [1] II. Preamble, ponto 2
Contexto: Prioridades envolvem também custos, logística e chance de sucesso (II. Preamble, ponto 11). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- IUCN, Gland, Suíça — IUCN Red List Categories and Criteria: Version 3.1, Second edition
IUCN (Species Survival Commission) · 2012 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - IUCN, Species Survival Commission — Guidelines for Using the IUCN Red List Categories and Criteria, Version 16
IUCN Standards and Petitions Committee · 2024 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Conservation Biology — Establishing IUCN Red List criteria for threatened ecosystems
Rodríguez, J. P. et al. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/j.1523-1739.2010.01598.x
Histórico de alterações
- Versão 2 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 1; conferência de trechos automatizada)
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 1; conferência de trechos automatizada)