Biologia

Quatro enzimas formam o ciclo da luz dos fungos; os genes teriam surgido há cerca de 160 milhões de anos

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Fungos

A luz verde dos fungos vem de um ciclo de enzimas que parte do ácido cafeico, um metabólito comum: a hispidina sintase o transforma em hispidina, a H3H em luciferina (3-hidroxihispidina), a luciferase a oxida emitindo luz e uma hidrolase provavelmente recicla o resíduo. Os genes ficam agrupados no genoma. Análises genômicas indicam origem única, estimada em cerca de 160 milhões de anos, e muitas perdas depois.

Luciferina é a molécula que emite luz ao ser oxidada; luciferase é a enzima que catalisa a reação. Em fungos, a luciferina é a 3-hidroxihispidina, feita em duas etapas a partir do ácido cafeico, e a reação gasta oxigênio. Todos os fungos bioluminescentes conhecidos são basidiomicetos da ordem Agaricales, em cinco linhagens. O ciclo foi descrito em 2018 por uma equipe russa com colaboradores da Espanha, da Áustria, do Japão e da USP, no fungo Neonothopanus nambi. A função do brilho para o fungo é outro assunto, tratado no post sobre por que alguns fungos brilham no escuro; aqui a pergunta é de onde vêm os genes e como a característica evoluiu.

Um gene sem parentes conhecidos

A luciferase de N. nambi tem 267 aminoácidos e, em 2018, não tinha homólogos descritos nem semelhança marcada com domínios proteicos conservados. Isso a coloca como representante de uma família de proteínas nova.

Como os genes foram achados

O ponto de partida foi a luciferase, achada ao expressar em levedura uma biblioteca de cDNA do fungo e borrifar 3-hidroxihispidina sintética nas placas. Como genes de metabólitos secundários costumam ficar agrupados, os autores procuraram vizinhos dela nos genomas e acharam h3h e hisps. Depois testaram cada gene em levedura. A hidroxilase foi apontada por semelhança com uma enzima conhecida que faz reação idêntica.

O que a levedura brilhante prova e o que não prova

A levedura com quatro genes brilhou a olho nu com ácido cafeico; com mais três genes bacterianos que fazem ácido cafeico a partir de tirosina, brilhou em meio comum. Isso mostra que esses genes bastam para o ciclo funcionar numa célula alheia. Não mostra como o fungo regula o brilho nem para que ele serve. A enzima que recicla o resíduo foi inferida por semelhança e não testada no estudo.

Uma só origem, muitas perdas

A luciferase e o aglomerado são homólogos em fungos distantes, o que levou os autores de 2020 a rejeitar origens múltiplas e a estimar a origem em cerca de 160 milhões de anos. Uma origem única exige muitas perdas: a maioria das espécies de Mycena não brilha e o aglomerado se perdeu ali com frequência, mas se manteve em Armillaria. A idade vem de relógio molecular com três fósseis e carrega incerteza.

Onde as leituras divergem

Os estudos de 2018 e 2020 concordam em origem única e perdas posteriores, mas descrevem de modo diferente onde a luciferase surgiu na árvore. A ideia de que a luz veio de etapas intermediárias não luminescentes, com papel adaptativo próprio, é uma inferência: essas etapas não foram testadas em experimento.

Como sabemos

Genes, enzimas e reconstituição em levedura vêm de estudos abertos lidos no texto; a datação e o ponto exato da origem são estimativas com leituras divergentes.

Em debate: Em 2018, Kotlobay e colegas situaram a duplicação da luciferase na base dos Agaricales; em 2020, Ke e colegas dataram a origem do aglomerado no ancestral das linhagens micenoide e marasmioide, há cerca de 160 milhões de anos. Uma revisão de 2024 considera incorreta a leitura de Ke e colegas sobre o estudo de 2018. Os estudos concordam em origem única e perdas posteriores.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Genetically encodable bioluminescent system from fungi
    Kotlobay, A. A.; Sarkisyan, K. S.; Mokrushina, Y. A.; et al. · 2018-11-26 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1803615115
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Mycena genomes resolve the evolution of fungal bioluminescence
    Ke, H.-M.; Lee, H.-H.; Lin, C.-Y. I.; et al. · 2020-11-23 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2010761117
  3. Science Advances — Mechanism and color modulation of fungal bioluminescence
    Kaskova, Z. M.; Dörr, F. A.; Petushkov, V. N.; et al. · 2017-04-26 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.1602847
  4. Journal of Fungi — Diversity, Distribution, and Evolution of Bioluminescent Fungi
    Perry, B. A.; Desjardin, D. E.; et al. · 2024-12-31 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/jof11010019
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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