Biologia

Fungos escuros cresceram mais sob radiação em testes de 2007 e 2022, mas usá-la como energia segue hipótese

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Fungos

Em 2007, fungos melanizados irradiados cresceram mais que os controles em laboratório, e em 2022 o mofo Cladosporium sphaerospermum cresceu mais rápido na Estação Espacial. Que a melanina converta radiação em energia, porém, é hipótese: os autores não a provaram, o teste orbital teve uma única rodada de voo e variáveis como a gravidade zero não foram separadas.

Melanina é um pigmento escuro presente em muitos fungos. Radiação ionizante é a que tem energia para arrancar elétrons da matéria, como raios gama e partículas cósmicas. "Radiotropismo" designa o crescimento de fungos em direção a uma fonte de radiação; "radiotrofia", a estimulação do crescimento por ela. Nada disso é fotossíntese: ninguém mostrou que um fungo fixe carbono ou produza energia química a partir de radiação, o que seria "radiossíntese". O que existe são medições de crescimento maior em condições específicas, mais uma explicação possível para elas, e essa explicação ainda é hipótese.

A dose do laboratório era baixa

No teste de 2007 com C. sphaerospermum, o campo de radiação foi de 0,05 mGy/h, cerca de 500 vezes o fundo natural, e a dose ficou abaixo de 0,0001% da dose que mata fungos. O efeito apareceu mesmo assim, em meio pobre em nutrientes.

A ideia: melanina como um pigmento que capta energia

Dadachova e colegas partiram de uma hipótese: a radiação ionizante poderia mudar as propriedades eletrônicas da melanina e estimular o crescimento de microrganismos melanizados. Como a melanina absorve luz de todos os comprimentos de onda, a analogia era com pigmentos fotossintéticos. Em tubo de ensaio, a melanina irradiada reduziu o NADH com capacidade 4 vezes maior. Isso é química, não metabolismo de uma célula viva.

Como sabemos (1): os testes de 2007 e o que veio depois

Em 2007, três fungos melanizados cresceram mais sob um campo de 0,05 mGy/h, cerca de 500 vezes o fundo, que os controles, em meio pobre em nutrientes. Os autores reconhecem limites: o fungo sem melanina exigiu tricilazol, e colônias maiores poderiam ser células inchadas. Em 2012, outro grupo viu aumento também no mutante albino de W. dermatitidis, e o efeito sumiu em meio rico ou com agitação.

Como sabemos (2): o experimento na Estação Espacial

Um mofo, Cladosporium sphaerospermum, foi cultivado por cerca de 26 dias na ISS, numa placa com metade para o fungo e metade sem crescimento, e comparado com controles no solo. A taxa de crescimento em órbita foi em média 1,21 ± 0,37 vez a do solo. Foi uma só rodada em órbita; a microgravidade e a temperatura não puderam ser separadas da radiação, e os autores dizem que o efeito não pode ser provado de forma inequívoca.

Radiação de laboratório não é a do espaço

Em equivalente de dose, a radiação na ISS é cerca de 20 a 60 vezes o fundo da Terra, mas cerca de 80% vêm de partículas, e os testes de 2007 usaram radiação gama. Os autores do teste orbital notam que a radiação de partículas é muito mais danosa e que a resposta não se estende automaticamente de uma para a outra. A menor contagem sob o fungo (147 contra 151 por minuto) pode ser atenuação, não uso da radiação.

O que ainda não foi mostrado

Radiotropismo foi relatado em fungos de Chernobyl, segundo uma revisão de 2012, e o crescimento maior sob radiação foi medido em condições específicas. Mas nenhum estudo aqui citado demonstrou que um fungo converta radiação em energia química: os autores de 2022 escrevem que a radiossíntese "remains to be shown". Para a melanina como pigmento de resistência na Antártida, veja o post sobre fungos negros nas rochas.

Como sabemos

Os resultados citados vêm de três artigos científicos abertos lidos por inteiro, mas o mecanismo (melanina como conversor de energia) é hipótese e o relato de Chernobyl está só de segunda mão.

Em debate: Em 2007 e 2012 houve crescimento maior sob radiação em testes de laboratório, e em 2022 um teste orbital apontou crescimento maior em órbita. O efeito também apareceu em mutante sem melanina (2012), a medição orbital teve uma só rodada e confundidores, e os próprios autores tratam a radiossíntese como não demonstrada.

Fontes

  1. PLoS ONE (Albert Einstein College of Medicine) — Ionizing radiation changes the electronic properties of melanin and enhances the growth of melanized fungi
    Dadachova, E.; Bryan, R. A.; Huang, X.; Moadel, T.; Schweitzer, A. D.; Aisen, P.; Nosanchuk, J. D.; Casadevall, A. · 2007 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0000457
  2. Frontiers in Microbiology — Cultivation of the Dematiaceous Fungus Cladosporium sphaerospermum Aboard the International Space Station and Effects of Ionizing Radiation
    Averesch, N. J. H.; Shunk, G. K.; Kern, C. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2022.877625
  3. PLoS ONE — Adaptation of the Black Yeast Wangiella dermatitidis to Ionizing Radiation: Molecular and Cellular Mechanisms
    Robertson, K. L.; Mostaghim, A.; Cuomo, C. A.; Soto, C. M.; Lebedev, N.; Bailey, R. F.; Wang, Z. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0048674
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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