Biologia
Fungos negros nas rochas da Antártida vivem nos poros do arenito; alguns isolados resistiram a Marte simulado
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Fungos
Nos vales sem gelo da Antártida, onde o inverno chega a −20 a −50 °C e a pouca água vem de neve que em geral sublima, os microrganismos predominantes vivem dentro da rocha, a cerca de 10 mm da superfície. Ali, fungos de parede escura formam uma zona preta sob a crosta de líquens. Em laboratório, alguns isolados toleraram vácuo, ultravioleta e atmosfera marciana simulados, mas secos e em dormência.
Criptoendolítico quer dizer escondido nos poros de uma rocha. Nos Vales Secos de McMurdo, o maior trecho livre de gelo da Antártida, o arenito abriga comunidades de líquens, algas, cianobactérias, bactérias e fungos. Os "fungos negros" ou meristemáticos não formam líquen: crescem como colônias compactas, de expansão lenta e em forma de couve-flor, com paredes celulares grossas e muito pigmentadas. O que se sabe de sua resistência vem sobretudo de testes com colônias secas de poucos isolados. Isso mede tolerância em dormência, não vida ativa em outros mundos.
Sem crescer, mas com células aparentemente vivas
Após vácuo e a maior dose de ultravioleta, o isolado Cryomyces minteri não formou colônias em placa, mas corantes de viabilidade ainda marcaram células como vivas. Os autores sugerem um estado "viável, mas não cultivável"; é hipótese.
Uma comunidade em camadas, a cerca de 10 mm de profundidade
Nas comunidades criptoendolíticas mais estudadas, os organismos se dispõem em faixas distintas a cerca de 10 mm abaixo da superfície do arenito quartzítico, cuja porosidade homogênea e alta translucidez favorecem a colonização. Os fungos negros ocupam a zona escura logo abaixo da crosta de líquens e, na leitura de Selbmann e colegas (2021), formam uma barreira escura sobre as demais camadas, filtrando a radiação solar nociva. A rocha ainda amortece o frio e retém um pouco de água.
O que torna esses fungos tão resistentes
Os fungos negros meristemáticos formam colônias lentas, em forma de couve-flor, de estrutura pouco diferenciada e paredes grossas e muito pigmentadas. Onofri e colegas (2008) atribuem a elas a alta tolerância e citam a melanina, pigmento conhecido por proteger contra UV, radiação ionizante, calor extremo e dessecação. Em 2019, Pacelli e colegas detectaram melanina por espectroscopia Raman em Cryomyces antarcticus e a escolheram como alvo para detectar biossinais. Que a melanina explique a resistência é uma hipótese, não um resultado isolado.
Como sabemos: sobreviver não é o mesmo que crescer
Em câmaras do Centro Aeroespacial Alemão, colônias secas de três isolados enfrentaram, isolados ou combinados, vácuo, ciclos de temperatura, ultravioleta e uma atmosfera marciana simulada. A resposta foi lida de dois modos: contagem de colônias que voltaram a crescer em placa e corantes que marcam células vivas ou mortas. Os dois nem sempre concordam: sob vácuo mais a maior dose de UV, C. minteri não cresceu, mas as células pareciam viáveis. Já a parede espessa de C. antarcticus impediu a coloração, e esse isolado só foi avaliado por cultura.
Do arenito a Marte: o que o resultado permite dizer
Para os autores, os Vales Secos de McMurdo são o análogo terrestre mais próximo de Marte, ainda que nada na Terra seja realmente comparável. Colônias secas de C. antarcticus ficaram 16 meses fora da Estação Espacial Internacional e toleraram o estresse combinado, em órbita da Terra e com condições marcianas apenas simuladas. Isso mostra tolerância em dormência, não que esses fungos vivam em Marte. Para outros organismos testados no espaço, veja o post sobre líquens e o da panspermia.
Outro limite: o que a cultura e o DNA enxergam
Numa amostragem de rochas da Terra de Vitória, de 910 a 3.100 m de altitude, Selbmann e colegas (2021) usaram cultura e sequenciamento de DNA. Dos 32 táxons de fungos negros, 13 apareceram só na cultura, 15 só no sequenciamento e 4 nos dois. Os autores concluem que os métodos se complementam; paredes muito melanizadas podem dificultar a extração de DNA. Ou seja, a lista de fungos negros dessas rochas ainda é parcial.
Como sabemos
Os dados vêm de cinco documentos científicos abertos, mas os testes de resistência usam poucos isolados secos e os mecanismos (melanina, estado viável não cultivável) são hipóteses.
- Consenso científico: No deserto antártico, os microrganismos que exploram os poros das rochas (habitat criptoendolítico) são as formas de vida predominantes. [2] Resumo
Contexto: Áreas livres de gelo da Terra de Vitória, na Antártida continental. · Limitações: Vale para as áreas livres de gelo estudadas, não para a Antártida inteira. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nos Vales Secos de McMurdo, o ar do inverno oscila entre −20 e −50 °C (às vezes menos) e a água vem sobretudo da neve, menos de 100 mm de equivalente em água por ano, que em grande parte sublima ou é levada pelo vento. [1] Introdução
Contexto: Sul da Terra de Vitória, nos Vales Secos de McMurdo (Deserto de Ross). · Limitações: Valores gerais da região, citados de trabalhos anteriores pelo artigo de 2008. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: As comunidades criptoendolíticas antárticas colonizam sobretudo arenito quartzítico, de porosidade homogênea e alta translucidez, e se organizam em camadas distintas a cerca de 10 mm abaixo da superfície da rocha. [2] Introdução
Contexto: Comunidades dominadas por líquens da Terra de Vitória. · Limitações: "Cerca de 10 mm" é a organização típica descrita pelos autores, não uma medida fixa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O interior da rocha oferece proteção contra o ultravioleta e contra ciclos de congelamento e degelo (pela inércia térmica da rocha), além de estabilidade física do substrato e retenção de água. [2] Introdução
Contexto: Nicho endolítico dos desertos livres de gelo antárticos. · Limitações: Descrição de revisão de literatura da introdução do artigo, não resultado novo do estudo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Fungos negros não liquenizados são componentes recorrentes dessas comunidades e ocupam a zona escura logo abaixo da crosta de líquens; os autores descrevem a camada de fungos melanizados como uma barreira que filtra a radiação solar nociva acima das demais camadas. [1] Introdução [2] Introdução
Contexto: Comunidades criptoendolíticas dominadas por líquens da Terra de Vitória. · Limitações: O papel de "filtro solar" é a leitura dos autores citando trabalhos anteriores. A ordem das camadas é descrita de modo um pouco diferente nos dois artigos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os fungos negros meristemáticos formam colônias de expansão lenta, em forma de couve-flor, com estruturas pouco diferenciadas e paredes celulares grossas e muito pigmentadas. [1] Discussão
Contexto: Caracterização geral de fungos negros meristemáticos, segundo o artigo de 2008. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: A alta resistência dos isolados testados é atribuída a essas características morfológicas e fisiológicas, entre elas a melanina, pigmento conhecido por proteger contra UV, radiação ionizante, temperaturas extremas e dessecação; em Cryomyces antarcticus, a melanina foi detectada por espectroscopia Raman e escolhida como alvo de detecção de biossinais. [1] Discussão [5] Resumo
Contexto: Três isolados de Cryomyces (estudo de 2008) e C. antarcticus CCFEE 515 (estudo de 2019). · Limitações: O estudo de 2008 não isolou o efeito da melanina: a atribuição é proposta pelos autores ("could be ascribed"), não demonstrada ali. · Explicação proposta pelos autores; o experimento não separou o efeito da melanina dos demais fatores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Colônias secas de dois isolados de Cryomyces antarcticus e de um de C. minteri foram expostas, em simuladores de laboratório, a condições espaciais e marcianas simuladas, isoladas ou combinadas. Em 13 testes, houve sobrevivência em 13 para C. minteri, 10 para C. antarcticus CCFEE 515 e 6 para C. antarcticus CCFEE 534. [1] Discussão
Contexto: Testes de verificação feitos no Centro Aeroespacial Alemão (DLR), em Colônia, com colônias secas. · Limitações: Poucos isolados, três réplicas por teste e grandes desvios-padrão, como admitem os autores ("despite wide standard deviations"). Sobrevivência = crescimento em placa ou células marcadas como viáveis. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os isolados responderam de modo diferente: após vácuo, C. antarcticus CCFEE 534 perdeu por completo a capacidade de crescer em uma semana, enquanto o CCFEE 515, da mesma espécie, ainda crescia após 22 dias. [1] Resultados, vácuo
Contexto: Vácuo de 10⁻⁵ Pa em colônias secas, avaliado por colônias formadas em placa. · Limitações: Um isolado por linhagem; não se pode generalizar para a espécie inteira. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Sob vácuo combinado com a maior dose de UV, C. minteri não cresceu em placa, mas corantes de viabilidade sugeriram células vivas; os autores aventam um estado "viável, mas não cultivável". [1] Discussão
Contexto: Isolado C. minteri CCFEE 5187. Em C. antarcticus a coloração falhou porque a parede espessa impediu a entrada dos corantes. · Limitações: Explicação não testada no estudo; os dois métodos (cultura e corante) discordam nesse tratamento. · Os autores escrevem "might be due to"; é hipótese sem teste direto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Colônias secas de C. minteri e de C. antarcticus CCFEE 515, incubadas por 60 minutos a 80 e a 90 °C, apresentaram alta viabilidade, o que os autores chamaram de inesperado. [1] Resultados, altas temperaturas
Contexto: Colônias secas de seis meses; cinco réplicas por teste. · Limitações: Colônias desidratadas; a resistência de células hidratadas e ativas é outra questão. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os autores consideram os Vales Secos de McMurdo o análogo terrestre mais próximo de Marte, embora nenhum lugar da Terra seja realmente comparável. [1] Introdução
Contexto: Comparação em termos de frio, secura e radiação. · Limitações: Análogo não é equivalente: a atmosfera e a pressão marcianas, por exemplo, são reproduzidas só em câmaras. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Colônias secas de C. antarcticus CCFEE 515, crescidas em pastilhas análogas ao solo de Marte e da Lua, ficaram 16 meses expostas fora da Estação Espacial Internacional, em órbita baixa, e toleraram o estresse combinado quanto a sobrevivência, DNA e estrutura celular. [4] Resumo
Contexto: Experimento BIOMEX (missão EXPOSE-R2, da ESA), em órbita baixa da Terra. · Limitações: As "condições marcianas" foram simuladas na órbita da Terra; nenhum fungo foi testado em Marte. Só o resumo foi lido. Outros trabalhos citam 18 meses de exposição para essa missão; usamos os 16 meses do resumo. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num levantamento de fungos negros em rochas da Terra de Vitória, só cerca de 12,5% dos 32 táxons apareceram tanto na cultura em laboratório quanto no sequenciamento de DNA: 13 só na cultura e 15 só no sequenciamento. [2] Resultados
Contexto: Rochas coletadas em 2015-2016 ao longo de um gradiente de altitude de 910 a 3.100 m, em lados voltados ao norte e ao sul. · Limitações: O próprio artigo traz 12,5%, 12,6% e 12% em trechos diferentes (4 de 32 = 12,5%). Parte da diferença pode vir de falhas na extração de DNA de paredes muito melanizadas, segundo os autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Fungos negros isolados da superfície de líquens antárticos agruparam-se, em sua maioria, com espécies de rocha das comunidades criptoendolíticas; os autores leem isso como indício de que os líquens abrigam esses micróbios antes de ambos migrarem para dentro da rocha. [3] Resumo
Contexto: Treze linhagens fúngicas isoladas de 16 amostras de líquens da Terra de Vitória. · Limitações: A ideia de que as mesmas linhagens "seguem" o líquen para dentro da rocha é a interpretação dos autores, a partir de parentesco genético, não observação do movimento. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Studies in Mycology (Universidade da Tuscia e Centro Aeroespacial Alemão) — Resistance of Antarctic black fungi and cryptoendolithic communities to simulated space and Martian conditions
Onofri, S. et al. · 2008 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3114/sim.2008.61.10 - Journal of Fungi (Universidade da Tuscia) — Culture-Dependent and Amplicon Sequencing Approaches Reveal Diversity and Distribution of Black Fungi in Antarctic Cryptoendolithic Communities
Selbmann, L.; Stoppiello, G. A.; Onofri, S.; Stajich, J. E.; Coleine, C. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/jof7030213 - Biology (Universidade da Tuscia e Universidade de Graz) — Antarctic Epilithic Lichens as Niches for Black Meristematic Fungi
Selbmann, L.; Grube, M.; Onofri, S.; Isola, D.; Zucconi, L. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/biology2020784 - Astrobiology (PubMed) — Survival, DNA, and Ultrastructural Integrity of a Cryptoendolithic Antarctic Fungus in Mars and Lunar Rock Analogs Exposed Outside the International Space Station
Onofri, S. et al. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1089/ast.2017.1728 - Astrobiology (PubMed) — Responses of the Black Fungus Cryomyces antarcticus to Simulated Mars and Space Conditions on Rock Analogs
Pacelli, C. et al. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1089/ast.2016.1631
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)