Ecologia

Genomas datam em ~295 milhões de anos a digestão da lignina por fungos; o elo com o fim do carvão é contestado

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Fungos

Em 2012, a comparação de 31 genomas de fungos estimou que as peroxidases que atacam a lignina surgiram há cerca de 295 milhões de anos, por volta do fim do Carbonífero, e os autores sugeriram que isso teria ajudado a encerrar a era do carvão. É uma hipótese: em 2016, outro grupo mostrou que a mesma datação admite origens bem mais antigas e que clima e tectônica explicam melhor o carvão.

A lignina é o polímero que enrijece a madeira e protege a celulose da decomposição. Os fungos de podridão branca, da classe Agaricomycetes (cogumelos e orelhas-de-pau), degradam todos os componentes da parede celular, lignina inclusive; os de podridão marrom modificam a lignina, mas quase não a degradam. Nos 31 genomas de 2012, só os de podridão branca têm cópias de peroxidases de classe II, as enzimas que oxidam a lignina. O intervalo Carbonífero-Permiano é o maior de formação de carvão da história da Terra, e a hipótese em exame diz que parte dele veio de plantas que se acumularam porque quase nada sabia decompor lignina.

Quatro vezes podridão marrom

Na árvore de 2012, a podridão marrom aparece em quatro linhagens independentes, e nenhum dos fungos de podridão marrom analisados tem as peroxidases que atacam a lignina. A perda dessa capacidade também aconteceu mais de uma vez.

Como sabemos: reconstruir ancestrais e datar a árvore

Os autores montaram a árvore de parentesco dos 31 fungos com 71 ou 26 genes de cópia única e contaram as cópias de genes de peroxidase em cada ramo. Programas que reconciliam a árvore dos genes com a das espécies estimam quantas cópias tinham os ancestrais: houve expansão no ancestral dos Agaricomycetes e contração nas linhagens de podridão marrom. Para dar idades, usaram relógios moleculares calibrados por fósseis em três pontos (ancestrais de Boletales, Agaricales e Ascomycota). O resultado é uma média por nó, acompanhada de um intervalo de incerteza.

O que dizem os fósseis e a química do carvão

Os fósseis de podridão branca tidos como definitivos mais antigos são do Permiano (cerca de 260 milhões de anos) e do Triássico (cerca de 230 milhões), segundo Floudas; Nelsen cita o Triássico. Madeiras do Devoniano ao Permiano trazem hifas e danos compatíveis com degradação fúngica de tecido lignificado, sem feições que liguem o fungo a uma linhagem. E em muitos depósitos carboníferos a turfa era dominada pela periderme não lignificada das licopsídeas, o que enfraquece a ideia de que lignina acumulada causou o carvão.

O que explicaria o carvão sem o atraso dos fungos

Nelsen e colegas argumentam que turfa só se acumula onde a produção vegetal supera a decomposição e onde há subsidência (afundamento da crosta) para preservá-la. No fim do Paleozoico, bacias formadas na montagem de Pangeia, em clima tropical úmido, reuniram essas condições. Depósitos do Cretáceo-Paleógeno na América do Norte, formados muito depois de os fungos de madeira existirem, teriam taxas de acúmulo regionais parecidas. É uma interpretação baseada em dados norte-americanos, não uma prova.

Outra datação, outro passo evolutivo

Em 2019, outro grupo ressuscitou peroxidases ancestrais de Polyporales e mediu seu ataque à lignina. A primeira peroxidase com triptofano exposto, capaz de oxidar lignina não fenólica, foi datada em 194 ± 70 milhões de anos, na época da diversificação das angiospermas. Esse é um passo posterior ao da peroxidase mais antiga, reconstruída em cerca de 295 milhões de anos em 2012. Mostra que "a origem da degradação da lignina" não é uma data única, e sim uma sequência de inovações enzimáticas.

Como sabemos

Datação e crítica foram lidas no texto integral; a ligação com o carvão é hipótese em debate e as datas têm incerteza ampla.

Em debate: Floudas et al. (2012) associaram a origem da degradação enzimática da lignina ao fim do pico de soterramento de carbono; Nelsen et al. (2016) rejeitam a hipótese do atraso evolutivo, com base em geoquímica, fósseis e na distribuição do carvão no tempo, e propõem clima e tectônica.

Fontes

  1. Science (manuscrito no OSTI, Departamento de Energia dos EUA) — The Paleozoic origin of enzymatic mechanisms for lignin degradation reconstructed using 31 fungal genomes (manuscrito do autor)
    Floudas, D. et al. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1221748
  2. Science 336(6089):1715-1719 (PubMed) — The Paleozoic origin of enzymatic lignin decomposition reconstructed from 31 fungal genomes (registro e resumo)
    Floudas, D. et al. · 2012 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1221748
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (PMC) — Delayed fungal evolution did not cause the Paleozoic peak in coal production
    Nelsen, M. P.; DiMichele, W. A.; Peters, S. E.; Boyce, C. K. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1517943113
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences (PMC) — Peroxidase evolution in white-rot fungi follows wood lignin evolution in plants
    Ayuso-Fernández, I.; Rencoret, J.; Gutiérrez, A.; Ruiz-Dueñas, F. J.; Martínez, A. T. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1905040116
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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