Biologia

Fungos sem oxigênio que digerem fibra vegetal no intestino de herbívoros, de vacas a tartarugas terrestres

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Fungos

Os Neocallimastigomycota são fungos que vivem sem oxigênio no trato digestivo de herbívoros. No rúmen podem somar até 20% da biomassa microbiana e são descritos como os micro-organismos mais eficientes em degradar fibra vegetal. Em 2024 foram achados também em tartarugas terrestres, onde têm menos enzimas de degradação e menos genes tomados de bactérias.

Rúmen é a primeira câmara do estômago de bois, ovelhas e cabras, onde o alimento fermenta sem oxigênio; cavalos e tartarugas terrestres fermentam no intestino grosso. Fungos anaeróbios são um filo à parte, o Neocallimastigomycota, reconhecido como fungo em 1975. Trocaram as mitocôndrias por hidrogenossomos, organelas que produzem energia sem oxigênio. Digerem a fibra com glicosídeo-hidrolases, enzimas que cortam as cadeias de açúcar da celulose e da hemicelulose. Algumas dessas enzimas vieram de bactérias por transferência horizontal de genes: a passagem de DNA entre organismos que não são pais e filhos. A digestão da celulose por outros animais está em artigos próprios, sobre cupins e anfípodes.

Parceria que gera metano

Em cultura, os fungos anaeróbios trabalham melhor ao lado de arqueias metanogênicas, que consomem o hidrogênio e o formiato da fermentação. A parceria aumenta a degradação de fibra, e as arqueias liberam metano.

Energia sem oxigênio

Esses fungos não têm mitocôndrias típicas: têm hidrogenossomos, que produzem energia por fermentação. Os produtos principais são hidrogênio, gás carbônico, formiato, acetato e lactato; propionato e butirato, típicos das bactérias do rúmen, não aparecem. Em co-cultura com arqueias metanogênicas, que consomem hidrogênio e formiato, a degradação de fibra aumenta.

Ferramentas de digestão e genes emprestados

O genoma de Pecoramyces ruminantium tem 357 glicosídeo-hidrolases, contra 95 em Fibrobacter succinogenes, bactéria ruminal especializada em lignocelulose. Os fungos também têm celulossomos: complexos que prendem várias enzimas num mesmo suporte. Muitas dessas enzimas parecem vir de bactérias, por transferência horizontal; a origem é inferida por comparação de sequências.

Como sabemos: das fezes de tartarugas aos genes

A equipe sequenciou um marcador de DNA em fezes de 11 tartarugas terrestres de zoológico, isolou fungos em cultura estritamente anaeróbia e sequenciou seus transcriptomas, o conjunto de genes ativos. Com eles, calculou a árvore evolutiva e a idade dos ramos por relógio molecular. Os limites: só animais de zoológico, poucas linhagens cultivadas e datas com intervalo largo.

O que muda com as tartarugas

Os fungos de tartaruga têm menos enzimas, cresceram mais devagar em celulose e não cresceram em xilana. Tiveram só 35 eventos de transferência horizontal, contra 277 nos fungos de mamíferos. Os autores ligam o repertório menor à escassez desses eventos, mas essa ligação causal é interpretação. A data de origem do grupo também é discutida: 66 milhões de anos em 2019, 104 a 112 em 2024.

Como sabemos

Três documentos abertos lidos; a biologia geral está bem sustentada, mas as datas de origem divergem entre estudos e parte dos números vem de revisão (segunda mão).

Em debate: Quando surgiram os fungos anaeróbios?

Fontes

  1. Nature Communications — Anaerobic fungi in the tortoise alimentary tract illuminate early stages of host-fungal symbiosis and Neocallimastigomycota evolution
    Pratt, C. J. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-024-47047-4
  2. Frontiers in Microbiology — PCR and Omics Based Techniques to Study the Diversity, Ecology and Biology of Anaerobic Fungi: Insights, Challenges and Opportunities
    Edwards, J. E. et al. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2017.01657
  3. mSystems — Molecular Dating of the Emergence of Anaerobic Rumen Fungi and the Impact of Laterally Acquired Genes
    Wang, Y. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1128/msystems.00247-19
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos