Paleontologia
Ourasphaira, de cerca de 1 bilhão de anos, é lida como fungo; há candidatos mais antigos, ainda mais incertos
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Fungos
Os microfósseis de Ourasphaira giraldae, do Ártico canadense, têm de 1,01 a 0,89 bilhão de anos e foram interpretados em 2019 como fungos, pela forma, pela ultraestrutura e por espectroscopia. Antes disso, fungos sem ambiguidade só apareciam no meio do Paleozoico. A leitura é plausível, mas não consensual: um relógio molecular de 2025 a considera compatível, não provada. Há candidatos ainda mais velhos, de 2,4 bilhões de anos, mais incertos.
Fungos formam um reino à parte, com parede celular de quitina, um polímero resistente também presente em artrópodes. Seus corpos são filamentos finos, as hifas, que se ramificam em redes chamadas micélio. Fósseis assim são difíceis de reconhecer porque certas bactérias também formam filamentos. Para o Pré-Cambriano, os pesquisadores combinam três linhas: a forma ao microscópio, a estrutura da parede em microscopia eletrônica e a química, medida por espectroscopia. Em paralelo, relógios moleculares comparam genomas atuais e usam fósseis de idade conhecida como calibração para estimar quando os grupos se separaram.
Do Rhynie chert ao Ártico
Os fungos mais famosos do registro fóssil, os do Rhynie chert, na Escócia, têm cerca de 407 milhões de anos. Ourasphaira, se for fungo, é mais de duas vezes mais velha.
O que Ourasphaira mostra
O artigo de 2019 descreve microfósseis de parede orgânica no folhelho da Formação Grassy Bay, no Supergrupo Shaler, com 1.010 a 890 milhões de anos. Os autores os interpretam como fungos por três linhas: forma, parede em camadas e espectros de quitina. Segundo eles, são mais de meio bilhão de anos mais velhos que os fungos até então aceitos sem ambiguidade.
Por que a quitina não encerra a questão
Os espectros de Ourasphaira mostram os picos típicos de quitina e quitosana, mas fracos, e a região dos sacarídeos, necessária para reconhecer o polímero, é muito fraca nos exemplares mais degradados. Além disso, a quitina ocorre fora dos fungos. Por isso o sinal químico reforça a hipótese fúngica sem fechá-la.
Outros candidatos e o que a comparação com o relógio permite
Em 2020, filamentos de 810 a 715 milhões de anos do Congo foram interpretados como fungos, com marcação de quitina. Em 2017, fósseis de um basalto de 2,4 bilhões de anos foram propostos como micélio; os autores admitem que podem ser um grupo desconhecido de organismos parecidos. O relógio molecular de 2025 não os usa como calibração, por serem plausíveis, não inequívocos.
Como sabemos e o que falta
Falta uma identificação independente, por exemplo outros exemplares com ultraestrutura e química melhor preservadas, ou um achado em rochas de idade bem delimitada. Até lá, a leitura honesta é: há evidência fóssil compatível com fungos de cerca de 1 bilhão de anos, mas nenhuma é universalmente aceita, e a idade real do grupo-coroa dos fungos fica entre cerca de 1,4 e 0,9 bilhão de anos.
Como sabemos
Os números e as ressalvas foram conferidos em fontes abertas, mas o artigo principal (Loron et al. 2019) só foi lido no resumo e nas legendas dos dados estendidos.
Em debate:
Em debate:
- Interpretação: Microfósseis multicelulares de parede orgânica da Formação Grassy Bay (Supergrupo Shaler, Ártico canadense), com idade aproximada de 1.010 a 890 milhões de anos, foram interpretados por Loron e colegas (2019) como de afinidade fúngica. [1] Resumo
Contexto: Folhelho estuarino do Ártico canadense; os fósseis foram nomeados Ourasphaira giraldae. · Limitações: A faixa de idade tem cerca de 120 milhões de anos de largura. Li só o resumo do artigo (texto integral pago) e as legendas dos dados estendidos. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Segundo os autores, esses microfósseis são mais de meio bilhão de anos mais antigos que as ocorrências de fungos que se consideravam inequívocas até então. [1] Resumo
Contexto: A comparação é com os fungos do Devoniano e do Ordoviciano descritos antes de 2019. · Limitações: Vale só se a identificação como fungo se confirmar; é a premissa do próprio artigo. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Até 2019, fósseis identificáveis como fungos sem ambiguidade estavam ausentes do registro fóssil até meados da Era Paleozoica. [1] Resumo
Contexto: Afirmação dos autores em 2019, sobre o estado do registro naquele momento. · Limitações: Depende do critério de "inequívoco", que é justamente o ponto em debate para os fósseis do Proterozoico. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Espectros de infravermelho (FTIR) de exemplares de Ourasphaira mostram os picos típicos de quitina e quitosana, mas em intensidade menor que a do padrão de referência, e a região dos sacarídeos, necessária para reconhecer o polímero, é muito fraca nos exemplares mais degradados. [5] Extended Data Fig. 3 (legenda)
Contexto: Espectros adicionais de exemplares em estado de degradação mais avançado; cada medição foi repetida três vezes. · Limitações: Li apenas as legendas dos dados estendidos, não os resultados principais (Fig. 2) nem os métodos. Quitina fóssil degrada e o sinal depende de comparação com padrões. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Consenso científico: Os fungos do Rhynie chert, na Escócia, com cerca de 407 milhões de anos, são considerados um marco do registro fóssil de fungos e da colonização da terra firme. [2] Introdução
Contexto: Período Devoniano. O Rhynie chert tem fungos de vários grupos (quitrídios, glomeromicetos, ascomicetos, entre outros). · Limitações: A afirmação é de uma revisão feita na introdução do artigo de Bonneville et al. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Em 2020, outra equipe descreveu filamentos fósseis em folhelho dolomítico de 810 a 715 milhões de anos do Supergrupo Mbuji-Mayi, na República Democrática do Congo, e os identificou como redes de fungos com quitina remanescente. [2] Resumo
Contexto: Filamentos de cerca de 5 µm de largura, com septos raros e ramificação em ângulo alto. · Limitações: É a interpretação dos autores; os próprios autores apontam que fungos do Pré-Cambriano são difíceis de distinguir de procariotos. · Os autores chamam o achado de "o mais antigo molecularmente identificado", embora o material de Ourasphaira seja mais velho; a diferença está no critério de identificação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: No material do Congo, um corante que se liga a oligômeros de N-acetilglucosamina (WGA-FITC) marcou as paredes dos filamentos, e não marcou matéria orgânica de origem não fúngica da mesma rocha. [2] Resultados, evidência de quitina
Contexto: A quitina é o polímero da parede celular dos fungos, mas também ocorre em outros grupos, como artrópodes. · Limitações: A marcação mostra N-acetilglucosamina, não identifica sozinha o grupo; os autores combinam com Raman, FTIR e XANES. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Fungos do Pré-Cambriano são difíceis de distinguir de restos de procariotos, e o tamanho do filamento sozinho não serve de critério. [2] Resultados, morfologia
Contexto: É a razão de o registro ser disputado e de se usar morfologia, ultraestrutura e química em conjunto. · Limitações: Afirmação de autores que defendem uma identificação fúngica; descreve a dificuldade geral do campo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Um basalto de 2,4 bilhões de anos da Formação Ongeluk, na África do Sul, contém fósseis filamentosos em vesículas e fraturas, com estruturas que lembram micélio. [3] Resumo
Contexto: Habitat de biosfera profunda, em rocha vulcânica submarina. · Limitações: Li só o resumo (texto integral pago). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Os autores do estudo do basalto dizem que, a menos que sejam um ramo desconhecido de organismos semelhantes a fungos, os fósseis implicariam um grupo dos fungos muito mais antigo que se pensava. [3] Resumo
Contexto: Os fósseis são dados como indistinguíveis de filamentos fósseis do Fanerozoico atribuídos a fungos. · Limitações: A própria redação é condicional. Não há quitina medida; a atribuição é morfológica e por analogia. · Hipótese: o resumo não apresenta confirmação química nem concordância com os relógios moleculares. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Estimativa: Uma análise de relógio molecular de 2025, com 110 espécies e 225 marcadores, estima a idade do grupo-coroa dos fungos em 1.401 a 896 milhões de anos. [4] Resumo
Contexto: Grupo-coroa: o último ancestral comum dos fungos atuais e todos os seus descendentes. · Limitações: A faixa de incerteza tem cerca de 500 milhões de anos; depende das calibrações com fósseis e de transferências horizontais de genes. · Estimativa com intervalo largo, não uma data. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os autores dessa análise consideram as idades de Ourasphaira (1.010 a 890 Ma) e do Congo (810 a 715 Ma) compatíveis com seus resultados, mas não usaram esses fósseis como calibração porque a atribuição ao grupo-coroa lhes parece plausível, não inequívoca. [4] Discussão, "How old are Fungi?"
Contexto: Compatibilidade de datas não prova identidade: a data do fóssil só cabe na faixa do relógio. · Limitações: Posição de um grupo de pesquisa; outros especialistas podem pesar o critério de outro modo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: A análise de 2025 também considera compatível com seu relógio a existência de fósseis fúngicos ainda mais antigos, como os do grupo Lakhanda (1.025 a 1.015 Ma), mas diz que eles são mais incertos. [4] Discussão, "How old are Fungi?"
Contexto: Os exemplares são estruturas semelhantes a micélio da Sibéria (Lakhanda). · Limitações: Não li o estudo original dos fósseis de Lakhanda; a descrição vem desta análise. · Candidato disputado; não há consenso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Nature — Early fungi from the Proterozoic era in Arctic Canada
Loron, C. C.; François, C.; Rainbird, R. H.; Turner, E. C.; Borensztajn, S.; Javaux, E. J. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-019-1217-0 - Science Advances — Molecular identification of fungi microfossils in a Neoproterozoic shale rock
Bonneville, S.; Delpomdor, F.; Préat, A.; et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.aax7599 - Nature Ecology & Evolution — Fungus-like mycelial fossils in 2.4-billion-year-old vesicular basalt
Bengtson, S.; Rasmussen, B.; Ivarsson, M.; et al. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41559-017-0141 - Nature Ecology & Evolution — A timetree of Fungi dated with fossils and horizontal gene transfers
Autoria não conferida (ver página do artigo) · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41559-025-02851-z - Nature — Early fungi from the Proterozoic era in Arctic Canada (página do artigo, dados estendidos)
Loron, C. C.; et al. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-019-1217-0
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 1; conferência de trechos automatizada)