Biologia

O motor do flagelo bacteriano: como estatores movidos por prótons giram o rotor e invertem o sentido

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Micróbios

O flagelo bacteriano gira como um motor. Um rotor (anéis MS e C) é cercado por estatores, que convertem o fluxo de íons pela membrana em torque; em E. coli e Salmonella o íon é o próton. Cada estator tem cinco proteínas MotA em volta de duas MotB. Para inverter o giro, a proteína CheY, fosforilada, liga-se ao anel C e o motor passa ao sentido horário.

Muitas bactérias nadam girando flagelos. Cada flagelo tem três partes: um motor embutido nas membranas, o gancho (uma junta flexível) e o filamento helicoidal, que age como hélice. No motor, o rotor é a parte que gira; os estatores são unidades presas à parede celular que empurram o rotor. A força vem da diferença de concentração e de carga de íons entre os dois lados da membrana, a força próton-motriz. "Anti-horário" e "horário" são vistos do filamento para o motor. A maior parte do conhecimento vem de Escherichia coli e Salmonella; outras espécies variam.

Mais de 100 mil rotações por minuto

Em E. coli e Salmonella o motor chega a 300 rotações por segundo; na bactéria marinha Vibrio alginolyticus, a 1.700 por segundo, ou cerca de 102 mil por minuto (conta nossa, ×60). São velocidades máximas, com carga muito pequena.

O estator: um canal de íons que também gira

Cada estator é um canal: cinco MotA envolvem duas MotB, e o resíduo MotB D32 recebe e libera o próton. Como a MotB fica presa à parede, o que se move é a MotA, que empurra o anel C. Um modelo propõe que as duas D32 se alternem e que cada abertura de canal gire o anel de MotA em cerca de 36°. É hipótese: a estrutura mostra o arranjo, não o passo.

Como sabemos: do giro visível ao passo medido

A rotação foi mostrada prendendo o filamento a uma lâmina: o corpo da célula passa a girar. Com uma esfera minúscula e um só estator, o motor avança em 26 passos por volta. A criomicroscopia deu a forma das peças, em espécies diferentes. Em 2025, a fotodescoloração polarizada em E. coli viva indicou o MotB parado e o MotA girando cerca de 6,2 vezes mais rápido que o motor. Cada método tem limite: estruturas são estáticas e o resultado de 2025 é de um só estudo.

Trocar de sentido: CheY-P e o anel C

A célula percebe substâncias do ambiente e controla a fosforilação de CheY. Quando CheY-P se liga ao anel C, ele muda de forma e o motor passa de anti-horário a horário. Com os motores em anti-horário os flagelos formam um feixe e a célula segue reto; com um ou mais em sentido horário o feixe se desfaz e a célula muda de direção. Esse padrão vale para E. coli e Salmonella; outras bactérias podem ter outras estratégias.

Dois modelos para a inversão e uma lacuna

Os autores da estrutura de 2024 concluem que os estatores precisariam se reposicionar na membrana durante a inversão. O estudo de 2025 propõe que a mesma rotação do MotA move o anel C nos dois sentidos, porque o anel muda de forma e os contatos em FliG mudam de posição. São modelos distintos. Também segue em estudo como o ciclo do D32 se liga à interação entre MotA e FliG; uma revisão de 2019 já apontava a lacuna.

Como sabemos

Arquitetura e controle por CheY são consenso em fontes abertas; o mecanismo íon-torque e a inversão têm modelos ainda em teste.

Em debate: Como o motor inverte o sentido: reposicionamento dos estatores (estrutura de Salmonella, 2024) ou mesma rotação do estator com contatos diferentes no anel C (modelo de engrenagens, E. coli, 2025). Ver afirmação a12.

Fontes

  1. Nature Microbiology (Universidade de Oxford) — Structures of the stator complex that drives rotation of the bacterial flagellum
    Deme, J. C. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. Cell Research (Universidade de Zhejiang) — Structural basis of the bacterial flagellar motor rotational switching
    Tan, J.; Zhang, L.; Zhou, X.; Han, S.; Zhou, Y.; Zhu, Y. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41422-024-01017-z
  3. Biomolecules (RIKEN; Universidade de Osaka) — Structure and Function of the Bi-Directional Bacterial Flagellar Motor
    Morimoto, Y. V.; Minamino, T. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/biom4010217
  4. Biomolecules — Flagella-Driven Motility of Bacteria
    Nakamura, S.; Minamino, T. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/biom9070279
  5. PNAS (Universidade Harvard) — Torque-generating units of the bacterial flagellar motor are rotary motors
    Hosu, B. G.; Vrabioiu, A. M.; Samuel, A. D. T. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2515291122
  6. Biomolecules — Structure and Dynamics of the Bacterial Flagellar Motor Complex
    Nakamura, S.; Minamino, T. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/biom14121488
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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