Grandes descobertas

Fanny Hesse e o ágar: a sugestão que trocou a gelatina nas placas de cultura de Koch

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Micróbios

Koch cultivava bactérias em gelatina, que derretia em dias quentes e podia ser digerida por algumas delas. Segundo relatos históricos, a sugestão de trocá-la por ágar, que ela usava em geleias e pudins, veio de Fanny (Lina) Hesse, mulher do assistente Walther Hesse. O ágar só derrete perto de 85 °C e permitiu isolar colônias. As fontes divergem no ano (1881 ou 1882), e a contribuição dela só veio a público em 1992.

Meio de cultura é a mistura de nutrientes em que micróbios são cultivados. Em meio líquido, células de espécies diferentes se misturam; num meio sólido, cada célula fica fixa e, ao se multiplicar, forma uma colônia, massa visível de descendentes, de onde se obtém uma cultura pura (de uma só espécie). Para solidificar um caldo, junta-se um agente gelificante. Pasteur criara em 1860 o primeiro meio líquido artificial; Koch buscava uma superfície sólida. A gelatina serviu primeiro e o ágar, um polissacarídeo, a substituiu. Este artigo trata do que se sabe sobre como isso aconteceu e do papel de Fanny Hesse.

Quem desenhava as colônias

Além de preparar os meios, Lina Hesse desenhava colônias de bactérias ampliadas, em diferentes fases de crescimento, para as publicações do marido, segundo um perfil da Lancet. Ele raramente reconheceu a ajuda dela, e ela nunca buscou crédito.

Gelatina: a primeira superfície sólida e onde falhava

Segundo as revisões, Koch juntou gelatina ao caldo e a espalhou sobre uma placa de vidro, o primeiro meio sólido, que dava colônias separadas. A gelatina, porém, derretia com o calor (entre 25 e 37 °C, conforme a revisão) e é digerida pela gelatinase, enzima de certas bactérias. Um meio que derrete ou é consumido pelo que cresce nele deixa de servir como superfície.

A sugestão do ágar e o que ele trouxe

O relato mais repetido diz que Lina Hesse, que por anos revestiu tubos de vidro com gelatina para o marido e usava ágar em geleias e pudins, propôs a troca. O ágar solidifica entre 32 e 42 °C e derrete perto de 85 °C (Marks diz até 90 °C), é transparente e as enzimas de micróbios não o digeriam. Isso permitiu culturas de longa duração, decisivas na pesquisa sobre tuberculose.

Como sabemos o que Fanny Hesse fez, e o que falta

Um perfil na Lancet (2021) diz que a contribuição dela só veio a público em 1992, numa biografia curta do casal escrita por um neto. Revisões de 2015 a 2025 repetem a atribuição, mas nenhuma das fontes que abrimos reproduz documento da época. Elas divergem no ano (1881 ou 1882). Ficam sem leitura: o texto de 1992 e uma história da introdução do ágar publicada em 1939. A atribuição é plausível e amplamente repetida, mas ainda frágil como documento.

Da superfície ao prato de Petri, e o limite do ágar

Em 1887, Julius Richard Petri trocou a placa de vidro por uma caixa circular, que limita a contaminação. Cavaillon e Legout citam os dois Hesse e Petri como parte da equipe de Koch que desenvolveu o meio com ágar e a placa. O ágar tem limite: bactérias muito sensíveis ao oxigênio não crescem nele, assunto do artigo sobre a anomalia da contagem em placa.

Como sabemos

A atribuição a Fanny Hesse é repetida por várias revisões, mas apoiada em relato de família de 1992 e sem documento da época conferido; o ano diverge entre as fontes.

Em debate: Marks (2021) data a sugestão de 1881; Das et al. (2015), de 1882. Todas as fontes abertas por nós a atribuem a Fanny Hesse, mas sem documento da época.

Fontes

  1. The Lancet — Past and present women pioneers in biomedical science
    Marks, L. · 2021 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/s0140-6736(21)01647-0
  2. Frontiers in Microbiology — Progress in the development of gelling agents for improved culturability of microorganisms
    Das, N.; Tripathi, N.; Basu, S.; Bose, C.; Maitra, S.; Khurana, S. · 2015 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2015.00698
  3. New Microbes and New Infections — Bacterial culture through selective and non-selective conditions: the evolution of culture media in clinical microbiology
    Bonnet, M.; Lagier, J. C.; Raoult, D.; Khelaifia, S. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.nmni.2019.100622
  4. Biology (MDPI) — Biophysics of Bacterial Colonial Structures and the Occupancy of Microecological Spaces
    Baquero, F.; Coque, T. M.; Bastón-Paz, N.; Pérez-Cobas, A. E. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/biology15010056
  5. Biomolecules (MDPI) — Louis Pasteur: Between Myth and Reality
    Cavaillon, J.-M.; Legout, S. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/biom12040596
  6. Bioinformation — Evolution of bacterial and fungal growth media
    Basu, S.; Bose, C.; Ojha, N.; Das, N.; Das, J.; Pal, M.; Khurana, S. · 2015 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.6026/97320630011182
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

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