Evolução

Baleias e golfinhos descendem de mamíferos terrestres de casco, e os fósseis registram a passagem para o mar

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026

Assuntos: Jubarte

Há cerca de 50 milhões de anos, os ancestrais das baleias viviam em terra. Fósseis achados sobretudo no Paquistão e na Índia registram a transição: o Pakicetus, terrestre, com ouvido já de cetáceo; o Ambulocetus, anfíbio, de pés enormes; o Rodhocetus, de patas curtas; e, no Egito, o Basilosaurus, totalmente marinho, com pernas traseiras minúsculas. Um osso do tornozelo prova o parentesco com os artiodáctilos, o grupo dos hipopótamos.

No tempo de Darwin já se sabia que as baleias tinham ancestrais terrestres: respiram ar, e fetos de golfinho têm pelos no focinho. Faltavam os fósseis da travessia. Isso mudou no início dos anos 1990, quando paleontólogos começaram a desenterrar, na Índia e no Paquistão, uma série de cetáceos do Eoceno, época que vai de cerca de 54 a 34 milhões de anos atrás. Hoje a origem das baleias é um dos exemplos mais bem documentados de macroevolução no registro fóssil. A peça decisiva foi o astrágalo, osso do tornozelo em forma de roldana dupla que só existe nos artiodáctilos, os mamíferos de casco com número par de dedos, como porcos, veados e hipopótamos. Em 2001, esqueletos de Rodhocetus e Artiocetus de 47 milhões de anos, do Paquistão, mostraram esse tornozelo. Os hipopótamos são considerados os parentes vivos mais próximos das baleias.

O vale das baleias no deserto

No Saara egípcio, no Wadi Al-Hitan (“vale das baleias”), equipes da Universidade de Michigan lideradas por Philip Gingerich identificaram desde os anos 1980 centenas de Basilosaurus isis, em rochas de cerca de 38 a 36,5 milhões de anos. Os esqueletos chegam a 15–18 m e conservam pernas traseiras pequenas, com dedos, que não serviam para andar.

Vestígios no corpo das baleias de hoje

Mesmo sem fósseis, a anatomia das baleias denuncia ancestrais terrestres. Elas têm pulmões e sobem à superfície para respirar, como os demais mamíferos. Não têm pelagem, mas alguns fetos de golfinho têm pelos ao longo do focinho. Os adultos não têm pernas traseiras visíveis, mas os embriões ainda formam esboços desses membros. No tempo de Darwin isso já indicava ancestrais em terra. O que faltava era a sequência fóssil, que começou a aparecer no início dos anos 1990, sobretudo na Índia e no Paquistão.

O tornozelo que decidiu a questão

Por décadas, a anatomia apontava como ancestrais os mesoniquídeos, mamíferos extintos de casco, enquanto o DNA indicava os hipopótamos. A resposta veio de um osso do tornozelo, o astrágalo, que nos artiodáctilos tem articulação em roldana nas duas extremidades. Em 2001, a equipe de Philip Gingerich descreveu dois protocetídeos de 47 milhões de anos do Baluchistão, Artiocetus e Rodhocetus, com esse tornozelo. No mesmo ano, esqueletos de Pakicetus apontaram na mesma direção. As baleias são, portanto, artiodáctilos modificados.

Indohyus, o parente que já gostava de água

Em 2007, J. G. M. Thewissen e colegas mostraram que os raoelídeos, artiodáctilos do Paquistão e do oeste da Índia, são o grupo-irmão dos cetáceos. O Indohyus tinha o tamanho de um gato, focinho e cauda longos e dedos com pequenos cascos. Mas tinha o osso do ouvido com a parede interna espessada, o involucro, que só os cetáceos têm. Seus ossos dos membros eram densos, como lastro, e a química dos dentes indica vida na água. Ou seja: a vida aquática começou antes mesmo das primeiras baleias.

Da margem do rio ao mar aberto

Os paquicetídeos, de cerca de 50 milhões de anos, eram animais terrestres, mas já com ouvido de cetáceo. O Ambulocetus natans, de cerca de 49 milhões de anos, já era maior, do porte de um leão-marinho, com pés enormes e cauda musculosa; nadava ondulando a coluna, como as lontras, e vivia em águas em parte doces. Os protocetídeos, entre cerca de 49 e 40 milhões de anos, tinham membros curtos e narinas recuando no crânio, e foram os primeiros a se espalhar pelo mundo: há fósseis na Ásia, África, Europa e América do Norte.

Os primeiros totalmente marinhos

Por volta de 41 milhões de anos atrás surgem os basilossaurídeos, os primeiros cetáceos que provavelmente não saíam mais do mar. Tinham nadadeiras, uma pequena barbatana caudal e a abertura nasal recuada em direção aos olhos. O Basilosaurus tinha corpo de serpente, com 15 a 18 m; os dorudontíneos, mais curtos, lembravam golfinhos. As pernas traseiras, minúsculas, ainda tinham joelho e dedos, mas não sustentavam o corpo. Por volta de 34 milhões de anos aparecem os primeiros odontocetos e misticetos, os grupos de baleias e golfinhos que existem hoje.

Como sabemos

Sequência apoiada em artigos originais da Nature e da Science, numa revisão de 2009 dos principais pesquisadores da área e na Universidade de Michigan; datas são aproximadas e marcadas como estimativas.

Em debate: Qual grupo terrestre deu origem às baleias foi debatido por décadas. Análises morfológicas apontavam os mesoniquídeos, mamíferos extintos de casco; dados moleculares indicavam os hipopótamos. Os tornozelos de protocetídeos (2001) e o Indohyus (2007) firmaram a origem dentro dos artiodáctilos, mas a posição exata em relação aos hipopótamos depende de fósseis de parentes terrestres dos raoelídeos que ainda não foram encontrados. Há também discussão sobre incluir os raoelídeos dentro dos cetáceos, por compartilharem o involucro.

Em debate: A função das pernas traseiras do Basilosaurus como guias na cópula é uma hipótese, não um fato estabelecido.

Fontes

  1. Evolution: Education and Outreach 2:272–288 (2009) — From Land to Water: the Origin of Whales, Dolphins, and Porpoises
    consultada em 03/10/2026
  2. Nature — Whales originated from aquatic artiodactyls in the Eocene epoch of India (Nature, 2007), resumo via Europe PMC
    consultada em 03/10/2026
  3. Science — Origin of whales from early artiodactyls: hands and feet of Eocene Protocetidae from Pakistan (Science, 2001), resumo via Europe PMC
    consultada em 03/10/2026
  4. Nature — Skeletons of terrestrial cetaceans and the relationship of whales to artiodactyls (Nature, 2001), resumo via Europe PMC
    consultada em 03/10/2026
  5. Science — Fossil evidence for the origin of aquatic locomotion in archaeocete whales (Science, 1994), resumo via Europe PMC
    consultada em 03/10/2026
  6. Science — Hind limbs of Eocene Basilosaurus: evidence of feet in whales (Science, 1990), resumo via Europe PMC
    consultada em 03/10/2026
  7. University of Michigan Museum of Paleontology — Information module on Basilosaurus isis
    consultada em 03/10/2026
  8. University of California Museum of Paleontology, Understanding Evolution — The evolution of whales (Evograms)
    consultada em 03/10/2026
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