Fenômenos naturais

Esporos de fungos no ar podem agir como núcleos de gelo, mas seu peso em nuvens e chuva é incerto

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Fungos

Numa floresta norte-americana, partículas biológicas e núcleos de gelo aumentaram juntos durante a chuva. Em laboratório, alguns esporos congelam a água com eficiência. Mas um modelo global achou mudanças pequenas nas nuvens, e as estimativas de quanto esporo a Terra emite variam cerca de uma ordem de grandeza. Que esporos ajudem a fazer chuva é, em boa parte, hipótese e estimativa, não resultado fechado.

Gotículas de nuvem precisam de partículas minúsculas para se formar; são os núcleos de condensação. Em nuvens frias, o gelo também precisa de partículas, os núcleos de gelo, e cristais que crescem podem cair como chuva. Bioaerossol é o conjunto de partículas de origem biológica no ar: bactérias, esporos de fungos, pólen e fragmentos de organismos. Fungos soltam esporos de modo ativo, como na gota de Buller, ou passivo, por vento e chuva. A pergunta é quanto desses esporos chega às nuvens e se, entre as muitas partículas do ar, eles pesam o bastante para mudar nuvens e chuva. Dois pontos separam o que é medido do que é suposto: a presença de esporos e núcleos de gelo no ar é observada; o efeito sobre a chuva vem sobretudo de modelos.

A chuva pode ser fonte de esporos, não só consequência

O fluxo costuma ser imaginado dos esporos para a chuva. O estudo de Huffman e colegas aponta também o inverso: durante a chuva, a concentração de partículas biológicas no ar subiu. Como isso ocorre ainda é proposta, não demonstração.

O que a chuva faz com o ar: medida em uma floresta

Huffman e colegas mediram o ar de uma floresta norte-americana e viram que partículas biológicas aumentaram durante a chuva e acompanharam os núcleos de gelo, sobretudo entre 2 e 6 micrômetros, faixa de agregados de bactérias e esporos. É uma correlação num único sítio. Ela mostra que chuva, bioaerossol e núcleos de gelo andam juntos; não mostra que os esporos causem a chuva seguinte.

Como sabemos: medir, contar e calcular

Em Balbina, na Amazônia, Elbert e colegas estimaram a fração de esporos no ar por balanço de massa com traçadores químicos, como o manitol, e extrapolaram para o globo: cerca de 50 Tg por ano. Janssen e colegas partiram de contagens de esporos de 66 estações dos EUA e chegaram a 3,7 e 3,4 Tg por ano. A diferença de cerca de dez vezes vem do método e dos dados, e mostra que a emissão global é calculada, não medida.

Por que os modelos veem pouco efeito global e a Amazônia pode ser exceção

No modelo ECHAM5-HAM, esporos como núcleos de gelo causaram mudanças pequenas globalmente, pois são poucos frente a outros núcleos de gelo. A fração de esporos ativos foi suposta (1%, 10% ou 100%). Na Amazônia, Pöschl e colegas viram que as partículas relevantes como núcleos de gelo eram sobretudo biológicas, mas as que formam a maior parte dos núcleos de condensação eram orgânicas secundárias, não esporos.

O que ainda falta

Faltam amostragem padronizada, séries de longo prazo fora dos EUA e da Europa e estudos do transporte, do processamento em nuvem e da remoção por chuva dos esporos. Também falta demonstrar o mecanismo pelo qual a chuva eleva os esporos no ar. Até lá, a ligação entre esporos, nuvens e chuva é uma hipótese plausível e bem estudada, com efeito global de tamanho ainda incerto.

Como sabemos

As observações (aumento com a chuva, material biológico entre os núcleos de gelo da Amazônia) estão bem apoiadas; o efeito de esporos sobre nuvens e chuva é estimativa de modelo e hipótese, e a leitura de várias fontes foi parcial.

Em debate: Quanto os esporos pesam em nuvens e chuva

Fontes

  1. Atmospheric Chemistry and Physics — High concentrations of biological aerosol particles and ice nuclei during and after rain
    Huffman, J. A.; Prenni, A. J.; DeMott, P. J.; Pöhlker, C.; et al. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.5194/acp-13-6151-2013
  2. Atmospheric Chemistry and Physics — Drivers of the fungal spore bioaerosol budget: observational analysis and global modeling
    Janssen, R. H. H.; Heald, C. L.; Steiner, A. L.; Perring, A. E.; Huffman, J. A.; et al. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.5194/acp-21-4381-2021
  3. Environmental Research Letters — Modelling the impact of fungal spore ice nuclei on clouds and precipitation
    Sesartic, A.; Lohmann, U.; Storelvmo, T. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1088/1748-9326/8/1/014029
  4. Science — Rainforest aerosols as biogenic nuclei of clouds and precipitation in the Amazon
    Pöschl, U.; Martin, S. T.; Sinha, B.; et al. · 2010 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.1191056
  5. Atmospheric Chemistry and Physics — Contribution of fungi to primary biogenic aerosols in the atmosphere: wet and dry discharged spores, carbohydrates, and inorganic ions
    Elbert, W.; Taylor, P. E.; Andreae, M. O.; Pöschl, U. · 2007 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.5194/acp-7-4569-2007
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)

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