Ecologia

Erradicar ratos de ilhas: taxa de sucesso, quais aves marinhas voltam e onde a operação falha

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

Retirar mamíferos invasores de ilhas costuma funcionar: numa base com mais de 1.200 tentativas, a taxa média de sucesso é de 85%. Aves marinhas estão entre as maiores beneficiadas, mas o retorno depende de haver colônias por perto, varia de espécie para espécie e pode levar mais de uma década. Em ilhas tropicais, a operação falha mais.

Ratos chegaram à maioria das ilhas do mundo em barcos e comem ovos, filhotes e plantas. Aves marinhas que nidificam no chão ou em tocas não evoluíram com predadores terrestres e perdem colônias inteiras. A erradicação consiste em eliminar todos os indivíduos de uma população, em geral com isca de anticoagulante (brodifacoum) espalhada por helicóptero ou em estações de isca, e vigiar depois para ter certeza. "Sucesso" quer dizer zero animais por um período combinado de monitoramento. Os resultados citados vêm de levantamentos de dezenas a centenas de ilhas e de estudos de caso; nem toda ilha é monitorada depois.

540 ratos por hectare

Na Ilha do Meio (Fernando de Noronha), a armadilha de captura-recaptura mostrou 540 ratos por hectare, bem mais do que a equipe previa. A dose de isca foi recalculada ao longo de cinco ciclos até a última captura.

Como sabemos que o rato sumiu e que as aves se beneficiaram

Para saber se uma erradicação funcionou é preciso provar uma ausência: armadilhas, câmeras e iscas de teste ficam na ilha por um período combinado. Micheletti et al. apontam que não há protocolo padronizado e que parar cedo demais já causou fracassos. Para as aves, compara-se a mesma ilha antes e depois ou uma ilha vizinha sem tratamento, como a Ilha Rata em Noronha. Jones et al. avisam que parte das "recolonizações" pode ser de colônias em tocas que já existiam, sem terem sido vistas.

Quais aves voltam, e quando

Aves marinhas foram as mais frequentes entre as beneficiadas em Jones et al. O retorno não é automático. Na Nova Zelândia, houve poucos casos de recolonização sem uma população-fonte a até 25 km, e o crescimento das colônias dependeu da situação de cada metapopulação. Em um atol da Nova Caledônia, três de sete espécies cresceram de 2 a 10 vezes e uma só respondeu depois de pelo menos cinco anos. Em Anacapa, o sucesso de eclosão do mergulhão-de-Scripps triplicou.

Onde falha e quanto custa

A taxa média de sucesso de 85% esconde diferenças: segundo Micheletti et al., que citam Russell e Holmes (2015), eradicações de rato-preto em ilhas tropicais falham de 2 a 2,4 vezes mais que em zonas temperadas. Entre as razões que eles listam estão os recursos disponíveis o ano todo e a competição pela isca com animais nativos, como caranguejos. Além disso, a isca pode envenenar aves e carniceiros; Jones et al. encontraram sete espécies com impacto negativo que não se recuperaram em 3 a 17 anos.

O caso brasileiro: Ilha do Meio

Em Fernando de Noronha, a equipe aplicou brodifacoum em ciclos de agosto de 2017 a abril de 2018, medindo a densidade de ratos a cada ciclo e ajustando a quantidade de isca. Com 540 ratos por hectare no início, o plano original teve de ser refeito. Ao fim, os autores relatam a ilha sem ratos e crescimento maior do atobá-mascarado e da mabuya em relação à ilha controle. É um estudo de caso sem réplica, em ilha pequena.

Como sabemos

Os números vêm de levantamentos e estudos de caso sólidos, mas "sucesso" é o declarado pelos projetos, o monitoramento posterior é irregular e dois estudos só foram lidos no resumo.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Invasive mammal eradication on islands results in substantial conservation gains
    Jones, H. P.; Holmes, N. D.; Butchart, S. H. M. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1521179113
  2. PLOS ONE — Globally important islands where eradicating invasive mammals will benefit highly threatened vertebrates
    Holmes, N. D.; Spatz, D. R.; Oppel, S. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0212128
  3. Conservation Biology — Lessons from an eradication under multiple constraints of an island rat population of record density
    Micheletti, T. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/cobi.70186
  4. Conservation Biology — Drivers of seabird population recovery on New Zealand islands after predator eradication
    Buxton, R. T.; Jones, C.; Moller, H.; Towns, D. R. · 2014 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/cobi.12228
  5. Conservation Biology — Recovery of insular seabird populations years after rodent eradication
    Philippe-Lesaffre, M. et al. · 2023 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/cobi.14042
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)

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