Ecologia

Defaunação: o que os dados mostram sobre florestas sem animais e o recrutamento das árvores

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

Em áreas tropicais caçadas, a abundância de mamíferos é cerca de 83% menor e a de aves, cerca de 58% menor do que em áreas sem caça, segundo uma síntese de 176 estudos. Onde somem os dispersores grandes, árvores de sementes grandes tendem a recrutar menos plântulas, como mostram estudos na Mata Atlântica e na Amazônia. O efeito varia por espécie e, até agora, nem sempre muda a composição inteira da floresta.

Defaunação é a perda de animais, seja por extinção da espécie, seja por queda do número de indivíduos numa área. Uma floresta pode ficar de pé e, ainda assim, perder as espécies que comem frutos e carregam sementes (frugívoros), ou que as comem (predadores de sementes). Em florestas neotropicais, a grande maioria das árvores e arbustos depende de vertebrados para dispersar suas sementes, e as sementes maiores só passam pela boca de animais grandes, que a caça atinge primeiro. Recrutamento é a chegada de novas plantas jovens (plântulas e mudas) à população. Este texto separa o que foi medido em campo do que veio de simulação.

Quem carrega a semente mais longe

Na Mata Atlântica paulista, o muriqui, maior primata das Américas, deixou sementes de uma árvore (Cryptocarya mandioccana) a cerca de 60 m da planta-mãe, em média. Bugios e jacutingas a deixaram a cerca de 10 m, seis vezes mais perto.

O que se perdeu: caça e distância das estradas

A síntese global de Dirzo e colegas (2014) estimou 322 extinções de vertebrados terrestres desde 1500 e queda média de 25% na abundância das espécies restantes. Para a caça nos trópicos, Benítez-López e colegas (2017) reuniram 176 estudos: em áreas caçadas, mamíferos eram cerca de 83% menos abundantes e aves cerca de 58% menos. A depleção chegou a 7 km (aves) e 40 km (mamíferos) dos pontos de acesso dos caçadores. Floresta intacta à vista, portanto, não garante fauna intacta.

Do animal à semente: o que a Mata Atlântica mostrou

Sementes grandes só passam pela boca de animais grandes, e esses são os primeiros a sumir. Na Mata Atlântica paulista, Culot e colegas (2017) compararam três áreas para a árvore Cryptocarya mandioccana. Onde há muriquis, 83% das sementes são engolidas e levadas longe; sem muriquis e bugios, 41%. Mas o recrutamento medido foi de 9% na floresta intacta e 15,51% na moderadamente defaunada. Quando só restam dispersores menores, eles compensam parte da retirada de sementes, e a perda de predadores de sementes muda o quadro.

Como sabemos: comparar florestas e simular o que falta

Ninguém acompanha uma floresta por séculos antes e depois da caça. Os estudos comparam áreas com pressão de caça diferente (gradiente espacial) e contam mudas e árvores. Na Amazônia, Scabin e colegas (2025) usaram 30 parcelas e uma estimativa indireta de caça. Acharam menor recrutamento de espécies de sementes grandes dispersas por animais, mas nenhuma mudança na composição média da floresta. O limite é que árvores vivem muito, e os autores atribuem a ausência de mudança de comunidade a esse atraso. A outra via são simulações, que indicam o que poderia acontecer, não o que já aconteceu.

O elo com o carbono: uma projeção, não uma medição

Bello e colegas (2015) viram que sementes maiores se associam a madeira mais densa (correlação fraca a moderada) e simularam a perda dessas árvores em 31 comunidades da Mata Atlântica. O modelo indicou erosão do carbono armazenado, mesmo com poucas espécies perdidas. Como é simulação com substituição de espécies definida pelos autores, serve para levantar um risco, e não para medir uma perda de carbono já ocorrida.

Como sabemos

Os números de perda de fauna vêm de sínteses globais (só o resumo foi lido); os efeitos sobre árvores vêm de poucos estudos, em duas paisagens brasileiras, uns observados e outros simulados.

Em debate:

Fontes

  1. Science — Defaunation in the Anthropocene
    Dirzo, R.; Young, H. S.; Galetti, M.; Ceballos, G.; Isaac, N. J. B.; Collen, B. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1251817
  2. Science — The impact of hunting on tropical mammal and bird populations
    Benítez-López, A.; Alkemade, R.; Schipper, A. M.; et al. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aaj1891
  3. Science Advances — Defaunation affects carbon storage in tropical forests
    Bello, C.; Galetti, M.; Pizo, M. A.; et al. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.1501105
  4. Scientific Reports — Synergistic effects of seed disperser and predator loss on recruitment success and long-term consequences for carbon stocks in tropical rainforests
    Culot, L.; Bello, C.; Batista, J. L. F.; do Couto, H. T. Z.; Galetti, M. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-017-08222-4
  5. Ecology and Evolution — Cascading Effects of Overhunting on the Functional Tree Composition of Amazonian Forests
    Scabin, A. B.; Ferreiro-Arias, I.; Costa, F. R. C.; Benítez-López, A.; de Freitas, C. G.; Peres, C. A. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/ece3.72657
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)

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