Zoologia

Quem digere a madeira no cupim: enzimas do próprio inseto, protistas e bactérias do intestino

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Micróbios

O cupim não digere a madeira sozinho. Ele tritura a fibra e quebra parte da celulose com enzimas próprias (endoglucanases), mas não tem exoglucanases, que atacam a celulose cristalina, nem enzimas para a hemicelulose. Esse trabalho cabe a protistas e bactérias do intestino posterior; nos cupins da família Termitidae, que perderam os protistas, são as bactérias que o fazem.

Madeira é lignocelulose: fibras de celulose (cadeias de glicose, em parte cristalinas) envolvidas por hemicelulose e lignina. Quebrá-las exige enzimas chamadas glicosil-hidrolases. Os cupins têm um intestino dividido em regiões: anterior, médio e posterior. O posterior é dilatado e abriga protistas (organismos unicelulares com núcleo), bactérias e arqueias. Nos cupins inferiores, a maioria das famílias, os protistas flagelados dominam essa comunidade. Nos Termitidae, os protistas faltam. A digestão é, portanto, um sistema em duas camadas: o inseto prepara a madeira e os simbiontes terminam o serviço.

Metano de dentro do intestino

Parte do hidrogênio liberado na fermentação da celulose é consumido por arqueias metanógenas, que o convertem em metano. Estima-se que os cupins respondam por 1% a 3% do metano global, mas o valor é incerto e varia entre espécies.

Duas camadas: o inseto prepara, os simbiontes terminam

O cupim tritura a madeira com as mandíbulas e secreta endoglucanases e β-glicosidases nas glândulas salivares ou no intestino médio. Essas enzimas atuam nas regiões amorfas da celulose. As partículas passam quase intactas ao intestino posterior, onde os simbiontes as degradam. O inseto não tem exoglucanases nem hemicelulases, de modo que a fibra cristalina e a hemicelulose dependem inteiramente dos micróbios.

Como sabemos: celulose marcada e RMN

Para ver quem faz o quê, Tokuda e colegas alimentaram o cupim Hodotermopsis sjostedti com celulose marcada com carbono-13 e acompanharam o isótopo em metabólitos de cada região do intestino por ressonância magnética nuclear. Em 3 h, os açúcares da celulose já subiam até 50 vezes no intestino anterior, antes dos micróbios do posterior. O limite: o substrato era celulose bacteriana pura, sem lignina, e o estudo usou uma só espécie.

Como sabemos: genes expressos de hospedeiro e simbiontes

Tartar e colegas sequenciaram mais de 10.000 transcritos de duas bibliotecas de Reticulitermes flavipes, uma do intestino do hospedeiro e outra dos simbiontes do posterior. Os genes de celulases vinham dos dois lados; os de hemicelulases, só dos simbiontes. Cada grupo de enzimas tem família própria: o cupim produz endoglucanases GHF9 e os protistas, exoglucanases GHF7. O método mostra que o gene é expresso, não que a digestão ocorre; sequências de simbiontes podem ainda ter sido anotadas errado.

O que ainda se discute

Duas lacunas aparecem nos próprios artigos. A primeira é o papel das bactérias nos cupins inferiores: um padrão da glicose-1-fosfato sugere que elas participam da degradação de celobiose e celodextrinas, mas é indireto. A segunda é o nitrogênio: a madeira tem pouco dele, e as bactérias intestinais fixam nitrogênio e produzem aminoácidos, porém o caminho até os tecidos do cupim segue sem confirmação direta. A hipótese de Tokuda et al. aponta a digestão de micróbios obtidos por trofalaxia proctodeal.

Como sabemos

Quatro artigos originais abertos lidos na íntegra; a divisão de trabalho está bem descrita, e os pontos incertos aparecem como hipótese.

Fontes

  1. Proceedings of the Royal Society B — Metabolomic profiling of 13C-labelled cellulose digestion in a lower termite: insights into gut symbiont function
    Tokuda, G. et al. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2014.0990
  2. Biotechnology for Biofuels — Parallel metatranscriptome analyses of host and symbiont gene expression in the gut of the termite Reticulitermes flavipes
    Tartar, A. et al. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1186/1754-6834-2-25
  3. Microbiome — Unveiling lignocellulolytic potential: a genomic exploration of bacterial lineages within the termite gut
    Salgado, J. F. M.; Hervé, V.; Vera, M. A. G.; Tokuda, G.; Brune, A. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1186/s40168-024-01917-7
  4. ISME Communications — Facultative endosymbiosis between cellulolytic protists and methanogenic archaea in the gut of the Formosan termite Coptotermes formosanus
    Kaneko, M. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/ismeco/ycae097
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)

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