Oceanografia

Coral-sol no Brasil: levado por plataformas de petróleo, já ocupa mais de 3.500 km de costa

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

O coral-sol (gênero Tubastraea) é uma invasora marinha de origem pacífica: T. coccinea vem do Indo-Pacífico e T. tagusensis, de Galápagos. No Brasil, foi registrado desde a década de 1980 em plataformas de petróleo e hoje ocupa mais de 3.500 km de costa, de modo descontínuo. Análises genéticas indicam que poucos clones se espalharam, provavelmente em estruturas rebocadas.

Coral-sol é o nome popular de Tubastraea coccinea e T. tagusensis, corais sem algas simbiontes (azooxantelados), cuja ecologia difere da dos corais de recife que sofrem branqueamento. Uma espécie exótica chega por ação humana; vira invasora se se espalha e causa dano. O processo tem etapas (transporte, introdução, estabelecimento, dispersão) e depende da pressão de propágulos, o número de indivíduos e de eventos de liberação, como descrito em outros textos da série. Aqui o foco é o caso brasileiro: a rota, a distribuição e o que se sabe sobre competição e controle.

18.139 filhotes em um experimento

Em laboratório, colônias de T. coccinea liberaram 18.139 filhotes em diferentes estágios, a maioria das colônias maiores. O pico ocorreu na lua nova e no quarto crescente, a cerca de 26 °C.

Como chegou: plataformas, bóias e cascos

Nos anos 1940, T. coccinea já aparecia em Curaçao e Porto Rico, provavelmente em cascos de navios do Indo-Pacífico. No Brasil, o primeiro registro foi como incrustação em plataformas de petróleo no Rio de Janeiro. Hoje o gênero aparece em costões, bóias, naufrágios, píeres e navios-plataforma. Para os autores, o transporte de estruturas contaminadas explica boa parte da expansão ao longo da costa.

Como sabemos: a genética mostra clones e vetores

Capel e colegas genotiparam 306 colônias de T. coccinea e 173 de T. tagusensis de locais invadidos, de estruturas flutuantes e de uma população nativa. Só 28% (T. coccinea) e 18% (T. tagusensis) dos indivíduos tinham genótipo único. Vetores tinham mais variedade genética que a costa, o que indica contaminação antes da chegada. A conclusão é inferência: poucos genótipos repetidos em lugares distantes.

Por que se espalha: reprodução e correntes

T. coccinea reproduz-se de várias formas e libera filhotes em grande número, sobretudo as colônias maiores. Em simulações, correntes de contorno oeste e vórtices levaram larvas virtuais a até 7.000 km. O mesmo modelo mostra que larvas de Campos e Santos pouco chegam à costa, o que reforça o papel do transporte por estruturas. São resultados de modelo, não de medição de larvas no mar.

Como sabemos: o modelo que não previu a invasão

Com 11 registros nativos de T. tagusensis em Galápagos, o modelo Maxent não classificou a costa brasileira como adequada. Os autores comparam com o congênere T. coccinea e sugerem que a espécie pode ter ampliado seu nicho na invasão. É hipótese, com ressalva: poucos registros nativos limitam qualquer previsão feita só a partir da área de origem.

Competição e controle

Isótopos de carbono e nitrogênio mostram que o coral-sol ocupa nicho alimentar parecido com o de suspensívoros nativos, indício indireto de competição. Algumas espécies nativas parecem resistir. O controle mais comum é a remoção por mergulhadores, que pode soltar fragmentos e larvas. Um hidrogel com ácido acético matou 50 colônias em aquário, mas ainda não foi testado em campo em escala.

Como sabemos

Seis artigos de acesso aberto em periódicos; resultados centrais bem sustentados, mas a competição com nativos é inferência indireta e o controle é de bancada.

Fontes

  1. Scientific Reports — Multiple introductions and secondary dispersion of Tubastraea spp. in the Southwestern Atlantic
    Capel, K. C. C.; Creed, J.; Kitahara, M. V.; et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-019-50442-3
  2. Scientific Reports — Western boundary currents drive sun-coral (Tubastraea spp.) coastal invasion from oil platforms
    Coelho, S. C. C.; Gherardi, D. F. M.; Gouveia, M. B.; Kitahara, M. V. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-022-09269-8
  3. Ecology and Evolution — Life-history traits of Tubastraea coccinea: Reproduction, development, and larval competence
    Luz, B. L. P.; Di Domenico, M.; Migotto, A. E.; et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/ece3.6346
  4. Scientific Reports — An environmentally friendly bio-based approach to control invasive sun corals (Tubastrea spp.)
    Barbosa, M. S.; Okasaki, F. B.; de Liz, N. T. P.; et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-025-16719-6
  5. Ecology and Evolution — Occurrence of an invasive coral in the southwest Atlantic and comparison with a congener suggest potential niche expansion
    Carlos-Júnior, L. A.; Neves, D. M.; Barbosa, N. P. U.; Moulton, T. P.; Creed, J. C. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/ece3.1506
  6. Biology — Trophic Structure and Isotopic Niche of Invaded Benthic Communities on Tropical Rocky Shores
    Pires-Teixeira, L. M.; Neres-Lima, V.; Barbosa, P. C.; et al. · 2024 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/biology13121023
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)

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