Ciências da Terra
Como se mede o gelo que as geleiras perdem: imagens, altimetria e gravimetria dão cerca de 273 Gt por ano
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Água na Terra
Quatro métodos medem a massa das geleiras: medições no gelo, diferença entre modelos de elevação feitos de imagens de satélite, altimetria (laser ou radar) e gravimetria. Combinados num esforço comunitário (GlaMBIE), indicam que as geleiras fora dos mantos de gelo perderam cerca de 273 ± 16 bilhões de toneladas por ano entre 2000 e 2023. Nenhum método sozinho vê tudo: cada um troca alcance espacial por resolução no tempo.
Perder massa de gelo é perder toneladas, mas os satélites não "pesam" o gelo diretamente. Três coisas podem ser medidas de cima: a altura da superfície (altimetria e comparação de modelos de elevação), o campo de gravidade (gravimetria, que enxerga massa) e, nos mantos de gelo, a velocidade com que o gelo escoa para o mar. A altura vira volume quando multiplicada pela área, e o volume vira massa com uma suposição de densidade. Uma gigatonelada (Gt) é um bilhão de toneladas; na conversão usada pelo IMBIE, 360 Gt de gelo perdido correspondem a 1 mm de nível do mar. As geleiras de montanha e os mantos de gelo da Antártida e da Groenlândia são medidos de forma parecida, mas não igual.
A amostra de campo é pequena
As medições feitas diretamente sobre o gelo cobrem cerca de 500 geleiras distribuídas de modo desigual, e o GlaMBIE mostrou que a tendência dessa pequena amostra nem sempre representa a região; por isso os satélites entram.
Imagens de satélite: subtrair duas superfícies
Sensores ópticos (como o ASTER) e de radar permitem reconstruir a superfície do gelo em 3D, num modelo digital de elevação. Subtrair o modelo de uma data do de outra revela quanto o gelo engrossou ou afinou em cada ponto. É o método com maior cobertura espacial: serve para todas as geleiras, mas dá tendências de vários anos, não valores mês a mês. Para chegar à massa, o volume precisa ser multiplicado por uma densidade, e o GlaMBIE adotou 850 kg/m³.
Altimetria: poucas linhas, muito tempo
Um altímetro mede a distância entre o satélite e a superfície, e a diferença entre passagens dá a variação de altura. O ICESat usou laser entre 2003 e 2009; o ICESat-2, com seis feixes, voa desde 2018; o CryoSat-2 usa radar desde 2010. Os feixes cobrem trilhas finas, mas repetem a medida com frequência. O laser sofre com nuvens densas, que bloqueiam o feixe. Na Groenlândia, estimativas de altimetria divergem mais entre si que as de outros métodos.
Gravimetria: pesar de longe
Quando o gelo some, a atração gravitacional local diminui, e satélites do tipo GRACE detectam isso por pequenas variações na distância entre dois satélites que voam em fila (explicação nossa do princípio; as fontes citam medição por interferômetros de micro-ondas). É medida de massa, não de altura. Exige corrigir o rebote do manto terrestre após a última glaciação e o efeito da água de outras fontes. Há um intervalo de 11 meses entre o GRACE e o GRACE Follow-On.
Mantos de gelo: entrada menos saída
Nos mantos, além de altimetria e gravimetria, usa-se o método de entrada e saída: o gelo que cruza a linha de apoio (velocidade vezes espessura) menos a neve que chega, estimada por modelos climáticos. Os três métodos independentes se checam. A avaliação mais recente combinou 42 estimativas e indicou 11.309 ± 565 Gt de perda entre 1979 e 2023; a de 2018 já mostrava a Antártida Oriental como a parte mais incerta.
Onde os métodos discordam
Os métodos concordam dentro das incertezas, mas não são iguais: em média, a altimetria registra perdas menos negativas que a comparação de modelos de elevação, e a diferença acumulada em 24 anos vira alguns milímetros de nível do mar. A medida em campo falha em representar regiões inteiras, e a gravimetria foi excluída onde as geleiras são pequenas e o ruído domina. Sem validação independente em muitos locais, a incerteza regional segue um desafio.
Como sabemos
Métodos e número das geleiras vêm do texto integral do GlaMBIE e do IMBIE 2026; os números de Hugonnet 2021 e dos mantos de 2018 e 2020 vêm só de resumos.
- Consenso científico: Quatro métodos principais derivam a mudança de massa das geleiras: medições glaciológicas no próprio gelo, diferença entre modelos digitais de elevação (DEM), altimetria e gravimetria. [1] Main, §2
Contexto: Geleiras separadas dos mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida, segundo o GlaMBIE (2025). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: As medições glaciológicas feitas no gelo cobrem cerca de 500 geleiras distribuídas de modo desigual, e a tendência de longo prazo dessa pequena amostra não representa a média regional. [1] Resultados, comparação entre métodos
Contexto: Comparação regional do GlaMBIE; o viés médio entre regiões foi de −0,10 ± 0,10 m w.e. por ano, com variação grande de região para região. · Limitações: A fração sobre o total de geleiras do mundo (menos de 1%, segundo o artigo) não foi usada no texto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A diferença entre modelos digitais de elevação (DEM) feitos em datas distintas, a partir de sensores ópticos e de radar em satélite, dá tendências de vários anos na elevação e no volume do gelo, para todas as geleiras do mundo. [1] Main, §2
Contexto: Método de resolução espacial alta e resolução temporal de vários anos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A altimetria mede a mudança de elevação ao longo de trilhas lineares: tem cobertura espacial esparsa, mas resolução temporal alta (de mensal a anual); o laser veio do ICESat (2003–2009) e do ICESat-2 (desde 2018) e o radar do CryoSat-2 (desde 2010) e de satélites anteriores. [1] Métodos, altimetria
Contexto: Geleiras do mundo, segundo o GlaMBIE (2025). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O ICESat forneceu em 2003–2009 dados de elevação para determinar o balanço de massa dos mantos de gelo; o instrumento ATLAS do ICESat-2 usa seis feixes de laser, mas nuvens densas bloqueiam o feixe. [6] Seção "Beyond the Poles"
Contexto: Página institucional da NASA sobre a missão ICESat-2. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Estimativa: DEM e altimetria medem volume; para obter massa é preciso supor uma densidade. O GlaMBIE adotou a densidade média de 850 kg/m³ para a variação de volume, e admite conhecimento limitado dessa conversão em prazos de menos de 5 anos. [1] Discussão
Contexto: A unidade do valor (kg m⁻³) está na mesma frase da fonte, logo após o trecho citado. · Limitações: Incerteza prescrita de ±60 kg/m³ para períodos longos e maior para períodos curtos. · Valor adotado por convenção da intercomparação, não medido em cada geleira. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A gravimetria por satélite estima a mudança de massa das geleiras mês a mês, medindo mudanças no campo gravitacional da Terra após corrigir efeitos da Terra sólida e da hidrologia, mas tem resolução espacial de algumas centenas de quilômetros. [1] Main, §2
Contexto: Medida direta de massa, ao contrário do DEM e da altimetria, que medem elevação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A gravimetria cobre as missões GRACE (2002–2017) e GRACE Follow-On (desde 2018), com intervalo de 11 meses sem dados entre elas; para regiões de geleiras pequenas, o GlaMBIE excluiu os resultados gravimétricos por tendências implausíveis. [1] Métodos, gravimetria
Contexto: Regiões como Europa Central, Cáucaso e Nova Zelândia, onde a área de geleira é pequena. · Limitações: A exclusão atribui o problema a ruído de medição e provável interferência de variações hídricas vizinhas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os quatro métodos concordam dentro das incertezas, mas diferem: em média, a altimetria resultou em perdas menos negativas que o DEM, em 0,08 ± 0,08 m de água equivalente por ano; e a validação independente das mudanças regionais segue um desafio. [1] Resultados, comparação entre métodos
Contexto: 19 regiões de geleiras, período 2000–2023. · Limitações: A diferença acumulada em 24 anos entre DEM e altimetria (cerca de 1.602 ± 235 Gt) está no artigo; aqui só se citou o valor médio anual. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Pela combinação das estimativas do GlaMBIE, as geleiras do mundo fora dos mantos de gelo perderam em média 273 ± 16 gigatoneladas por ano entre 2000 e 2023, com aumento de 36 ± 10% da primeira para a segunda metade do período. [1] Resumo
Contexto: Combinação de 233 estimativas regionais de cerca de 450 contribuintes em 35 equipes, 19 regiões. · Limitações: Discrepâncias regionais entre métodos persistem. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Um estudo de 2021 mapeou a mudança de elevação de todas as geleiras da Terra a partir de arquivos de satélite pouco explorados, validou as estimativas contra medições independentes de alta precisão e obteve perda de 267 ± 16 Gt por ano em 2000–2019, equivalente a 21 ± 3% da elevação observada do mar. [3] Resumo
Contexto: Hugonnet et al. (2021); abstract lido, corpo do artigo atrás de assinatura. · Limitações: Só o resumo foi lido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Para os mantos de gelo há três técnicas: o método de entrada e saída (descarga de gelo menos o balanço de massa de superfície), a altimetria e a gravimetria, que exige correção do rebote glacial (GIA) e de redistribuição de massa fora do manto. [2] Introdução
Contexto: IMBIE (Ice Sheet Mass Balance Inter-comparison Exercise), Groenlândia e Antártida. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A avaliação de 2018 combinou observações de satélite do volume, do fluxo e da atração gravitacional da Antártida com modelos de balanço de massa de superfície e estimou perda de 2.720 ± 1.390 bilhões de toneladas entre 1992 e 2017, o que eleva o nível do mar em 7,6 ± 3,9 mm; a Antártida Oriental é a parte mais incerta. [4] Resumo
Contexto: IMBIE, Nature 2018; só o resumo lido. · Limitações: Incerteza grande (erros de 1 desvio-padrão); só o resumo foi lido. · Estimativa de 2018, superada pela avaliação de 2026 (a15). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Estimativa: Para a Groenlândia, 26 medições de satélite do volume, do fluxo e do potencial gravitacional foram comparadas e combinadas, e a perda total foi de 3.902 ± 342 bilhões de toneladas entre 1992 e 2018, equivalente a 10,8 ± 0,9 mm de nível do mar. [5] Resumo
Contexto: IMBIE, Nature 2020; só o resumo lido. · Limitações: Só o resumo foi lido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: A avaliação mais recente do IMBIE, publicada em 2026, combinou 42 estimativas independentes de satélite e concluiu que os mantos de gelo perderam 11.309 ± 565 bilhões de toneladas entre 1979 e 2023, usando a equivalência de 360 Gt de gelo perdido para 1 mm de nível do mar; na Groenlândia, as estimativas de altimetria divergem mais entre si que as demais. [2] Technical Validation
Contexto: Groenlândia desde 1972 e Antártida desde 1979 até 2023. · Limitações: A conta exclui perda de plataformas de gelo e gelo apoiado abaixo do nível do mar; os totais mudam conforme a janela de datas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Nature — Community estimate of global glacier mass changes from 2000 to 2023
The GlaMBIE Team · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-024-08545-z - Scientific Data — Mass balance of the Greenland and Antarctic ice sheets from the 1970s to 2023
Otosaka, I. N.; Shepherd, A.; Amory, C.; Horwath, M.; Ivins, E. R.; King, M. D. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41597-026-08088-0 - Nature — Accelerated global glacier mass loss in the early twenty-first century
Hugonnet, R.; McNabb, R.; Berthier, E.; Menounos, B.; Nuth, C.; Girod, L. et al. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-021-03436-z - Nature — Mass balance of the Antarctic Ice Sheet from 1992 to 2017
The IMBIE Team · 2018 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-018-0179-y - Nature — Mass balance of the Greenland Ice Sheet from 1992 to 2018
The IMBIE Team · 2020 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-019-1855-2 - NASA (missão ICESat-2) — ICESat-2 Science
NASA Goddard Space Flight Center · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
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- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)