Ciências da Terra
Como uma geleira flui: o gelo se deforma, desliza no leito e, em poucas geleiras, avança em surtos
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Água na Terra
O gelo de uma geleira flui por dois processos que se somam: a deformação interna, em que o gelo cede devagar sob o próprio peso, e o deslizamento sobre o leito, que depende da água na base. Num surto, o deslizamento acelera e a velocidade chega a 5 a 100 vezes a das fases de quietude. Só cerca de 1% das geleiras do mundo se comporta assim.
Uma geleira nasce onde cai mais neve do que derrete: as camadas novas enterram e comprimem as antigas, a neve vira firn e depois gelo de cristais bem juntos, processo que na maioria das geleiras leva mais de cem anos. Quando o acúmulo engrossa a massa, a gravidade a puxa encosta abaixo. O gelo é um agregado de cristais que, sob a tensão do próprio peso, se deforma de modo contínuo; os glaciólogos descrevem essa deformação com a lei de Glen, uma relação não linear entre tensão e deformação. Na base, a geleira pode ainda deslizar sobre a rocha ou sobre sedimento macio, e a água de degelo que chega ao leito facilita esse deslizamento.
Um só surto dobrou a perda de um arquipélago
Um único surto, em 2012–2013, numa bacia da calota de gelo Austfonna, dobrou a perda anual de massa de Svalbard, segundo um estudo de 2025 que cita o caso. Um surto transfere depressa gelo das partes altas para as baixas e para o oceano.
Deformação interna: um sólido que cede devagar
O gelo de geleira é um agregado de cristais. Sob a tensão do próprio peso, ele se deforma de modo contínuo, sem quebrar, e o gelo de cima é carregado junto. Nos modelos, essa resposta segue a lei de Glen, uma relação não linear: a deformação não cresce na mesma proporção da tensão. Um expoente igual a 3, usado em estudos como o de Kongsvegen, significa que dobrar a tensão multiplicaria por 8 a taxa de deformação (cálculo nosso: 2 elevado a 3).
Deslizamento basal: o papel da água e do leito
O gelo também pode deslizar sobre o leito. No Ródano, onde o gelo está na temperatura de fusão por pressão, as diferenças de velocidade entre verão e inverno foram atribuídas ao deslizamento basal. Em sedimento macio, o próprio sedimento também se deforma. A água de degelo que chega ao leito eleva a pressão, reduz o acoplamento e facilita o deslizamento.
Como sabemos quanto vem de cada processo
Não se vê a base de uma geleira de centenas de metros. Mede-se a velocidade da superfície com GNSS ou satélites, calcula-se a parcela da deformação com a lei de fluxo e subtrai-se: o resto é deslizamento. Em Kongsvegen, combinaram-se duas décadas de GNSS, instrumentos em furos e sismômetros de superfície; no Ródano, sismômetros registraram microterremotos na base. Os limites: o resultado depende de parâmetros do gelo e a base segue pouco observada durante os surtos.
Surtos: quando o atrito do leito cai
Em geleiras de tipo surto, o fluxo rápido interrompe longos períodos de fluxo lento. A velocidade sobe de 5 a 100 vezes, e a frente da geleira pode avançar. Os intervalos entre surtos vão de 5 a mais de 100 anos, e a revisão de 2026 liga todos eles à redução do atrito basal. Em Kongsvegen, mais degelo levou água ao leito, a pressão maior favoreceu o deslizamento e o deslizamento abriu mais fendas na superfície, num ciclo que se reforça. Os gatilhos exatos variam e seguem em estudo.
Como sabemos
Mecanismos gerais documentados em fontes abertas, mas a revisão de 2026 só foi lida no resumo e os gatilhos dos surtos seguem em debate.
- Fato estabelecido: A gravidade, junto com o peso do próprio gelo, faz as geleiras fluírem como rios lentos de gelo. [1] Overview, "What is a glacier?"
Contexto: Geleiras em geral, segundo o NSIDC. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Para a maioria das geleiras, a transformação da neve em gelo leva mais de cem anos. [1] Overview, "How do glaciers form?"
Contexto: Formação do gelo de geleira: neve, firn e gelo, por compactação e recristalização. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Consenso científico: O gelo se deforma de modo não linear sob uma tensão aplicada, e a lei de fluxo de Glen é a lei usada nos modelos para descrever essa deformação. [2] Methods, 2.1
Contexto: Modelagem de fluxo de gelo; o artigo aplica a lei de Glen à geleira Thwaites. · Limitações: Lei empírica; os parâmetros variam com temperatura e propriedades do gelo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Na geleira do Ródano (Alpes suíços), as variações sazonais e diurnas da velocidade na superfície indicam uma contribuição significativa do deslizamento basal para o fluxo do gelo. [3] Results, Study site and data acquisition
Contexto: Rhonegletscher, zona de ablação a cerca de 2.500 m de altitude, gelo com ~200 m de espessura e na temperatura de fusão por pressão, medições de 2018. · Limitações: Resultado de um local; o peso do deslizamento varia entre geleiras e ao longo do ano. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Em leitos de sedimento macio, além do deslizamento do gelo sobre o sedimento, o próprio sedimento (till) também se deforma. [3] Introduction
Contexto: Geleiras apoiadas em sedimento macio, e não em rocha dura. · Limitações: Descrição teórica convencional citada pelos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Uma forma de separar os dois processos é medir a velocidade na superfície, calcular a parcela de deformação do gelo e subtrair: a diferença é a velocidade de deslizamento basal. [4] Results, reconstrução do atrito basal
Contexto: Kongsvegen, Svalbard; n = 3 é o expoente da lei de fluência usada pelos autores. · Limitações: O resultado depende de parâmetros da lei de fluxo (como o fator de fluência), que têm incerteza própria; é cálculo, não medição direta da base. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A água de degelo que alcança partes do sistema de drenagem sob o gelo eleva a pressão da água na base, reduz o acoplamento entre gelo e leito e facilita o deslizamento. [4] Introduction
Contexto: Descrição do mecanismo na introdução, que o estudo investiga em Kongsvegen. · Limitações: Os autores o atribuem a estudos anteriores e o testam em uma geleira. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Um surto de geleira é um episódio quase periódico de fluxo rápido que nasce de aumento da taxa de deslizamento na interface entre o gelo e o leito. [5] Abstract
Contexto: Definição de surto de geleira. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Durante um surto, a velocidade de fluxo pode chegar a 5 a 100 vezes a das fases de quietude. [5] Introduction
Contexto: Geleiras de tipo surto, segundo a introdução do artigo. · Limitações: "Pode chegar" indica o intervalo relatado, não o valor de toda geleira. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Surtos são conhecidos em apenas cerca de 1% das geleiras do mundo. [5] Introduction
Contexto: Inventários globais de geleiras citados pelos autores. · Limitações: Depende de quantas geleiras foram classificadas. · Percentual aproximado, baseado em inventários. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os surtos de geleira se repetem em intervalos de 5 anos a mais de 100 anos, e todos são impulsionados principalmente pela redução do atrito basal. [6] Abstract
Contexto: Revisão global de 2026 sobre surtos de geleira. · Limitações: Só o resumo da revisão foi lido; o corpo do artigo exige assinatura. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Estimativa: Das cerca de 3.100 geleiras de tipo surto identificadas no mundo, a maioria se concentra no Ártico e Subártico (48,3%) e na Alta Ásia (50,5%). [6] Abstract
Contexto: Inventário global compilado pela revisão. · Limitações: Só o resumo foi lido; a contagem muda conforme novas geleiras são classificadas. · Contagem aproximada, baseada em inventário. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Um único surto em 2012–2013, numa bacia da calota Austfonna, dobrou a perda anual de massa de Svalbard. [4] Introduction
Contexto: Svalbard, Alto Ártico; caso citado pelos autores. · Limitações: Um evento específico; não representa a média dos surtos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: Os mecanismos que disparam e sustentam os surtos ainda não são bem compreendidos. [5] Abstract
Contexto: Estado do conhecimento em 2020, segundo os autores do modelo de sedimento. · Limitações: Estudos posteriores (2025, 2026) avançam, mas pedem mais observações diretas da base. · Estado do conhecimento: há acordo de que o atrito basal cai (a11), mas não de por que e quando. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- NSIDC, Universidade do Colorado Boulder — Glaciers (Overview)
National Snow and Ice Data Center · 2025 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Geophysical Research Letters — The Impact of Basal Roughness on Inland Thwaites Glacier Sliding
Hoffman, A. O. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1029/2021GL096564 - Scientific Reports — Changing friction at the base of an Alpine glacier
Gräff, D.; Walter, F. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-021-90176-9 - Nature Communications — Observed positive feedback between surface ablation and crevasse formation drives glacier acceleration and potential surge
Nanni, U. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-025-66349-9 - Proceedings of the Royal Society A — Dilation of subglacial sediment governs incipient surge motion in glaciers with deformable beds
Minchew, B. M.; Meyer, C. R. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspa.2020.0033 - Nature Reviews Earth & Environment — Glacier surging and surge-related hazards in a changing climate
Lovell, H. et al. · 2026 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s43017-025-00757-9
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)