Biologia

Como um antibiótico age: os alvos nas bactérias, da parede ao ribossomo, ao DNA e ao folato

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Micróbios

Um antibiótico age ligando-se a uma molécula específica da bactéria e travando um processo de que ela precisa. Os alvos mais descritos são a parede celular (β-lactâmicos), o ribossomo que fabrica proteínas (aminoglicosídeos, tetraciclinas, macrolídeos), a replicação do DNA (fluoroquinolonas) e a via do folato (sulfonamidas, trimetoprima). A seletividade vem de diferenças entre célula bacteriana e humana, mas é parcial.

Bactérias fazem três coisas que um antibiótico pode atrapalhar: construir e manter a parede, copiar o DNA e produzir proteínas, além de sintetizar moléculas como o folato. A parede é uma malha de peptidoglicano, ausente em eucariotos. O ribossomo bacteriano (70S) tem duas subunidades, 30S e 50S. Para copiar o DNA, a bactéria usa a girase e a topoisomerase IV. Os alvos não são todos exclusivos de bactérias: o ribossomo e a DHFR existem também em nós, e a seletividade vem de diferenças de estrutura e de afinidade. Como as bactérias escapam desses alvos está nos posts sobre resistência.

Um alvo que também existe em nós

A enzima DHFR, alvo da trimetoprima, existe em bactérias e em eucariotos. A droga funciona porque inibe de preferência a versão bacteriana, estudada em Staphylococcus aureus; a diferença é de afinidade.

Parede celular: o alvo que não existe em nós

O peptidoglicano é uma malha de cadeias de açúcar ligadas por pontes de peptídeos, que dá resistência contra a pressão osmótica interna da célula. As PBPs são as transpeptidases que fazem as ligações cruzadas, e os β-lactâmicos se ligam a elas. Segundo uma revisão de 2021, o peptidoglicano é exclusivo de bactérias e ausente em eucariotos, por isso a seletividade dessa classe é alta.

Ribossomo: um alvo que existe nos dois lados

O ribossomo bacteriano 70S e o ribossomo do citoplasma humano são parentes, e as mitocôndrias têm ribossomos próprios. Cada classe pega um ponto do processo: aminoglicosídeos e tetraciclinas na subunidade 30S; macrolídeos, cloranfenicol e oxazolidinonas na 50S. Estudos mostram que cloranfenicol e linezolida inibem também a tradução mitocondrial, e que os aminoglicosídeos têm seletividade limitada. A seletividade é de grau, não de tudo ou nada.

DNA, RNA e folato

As fluoroquinolonas travam a girase e a topoisomerase IV, que controlam a torção do DNA. A rifampicina liga-se à RNA polimerase. Sulfonamidas e trimetoprima bloqueiam dois passos da via do folato. No caso da trimetoprima, a DHFR existe em bactérias e eucariotos, mas a droga inibe de preferência a enzima de S. aureus; a diferença é de afinidade.

Como sabemos: estruturas, ensaios e mutações

O sítio de ação vem de estruturas e ensaios. Bibel e colegas (2025) combinaram perfil de ribossomos mitocondriais, ensaios de tradução in vitro e uma estrutura por crio-microscopia eletrônica da linezolida no mitorribossomo humano. Mutações que mudam o alvo e tiram o efeito da droga, como as do gene rpoB para a rifampicina, são um indício indireto de qual é o alvo. Limite: estruturas são de complexos isolados; o efeito num organismo inteiro é outra pergunta.

Como sabemos

Os mecanismos por classe vêm de duas revisões abertas lidas nas seções de mecanismo e a seletividade de dois estudos originais lidos em resumo e trechos; a divisão em alvos é didática.

Fontes

  1. Frontiers in Pharmacology — Antibiotic action and resistance: updated review of mechanisms, spread, influencing factors, and alternative approaches for combating resistance
    Halawa, E. M. et al. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fphar.2023.1305294
  2. Antibiotics (MDPI) — Bacterial Targets of Antibiotics in Methicillin-Resistant Staphylococcus aureus
    Lade, H.; Kim, J.-S. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/antibiotics10040398
  3. Nucleic Acids Research — Context-specific inhibition of mitochondrial ribosomes by phenicol and oxazolidinone antibiotics
    Bibel, B. et al. · 2025 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/nar/gkaf046
  4. Nature Communications — 4'-O-substitutions determine selectivity of aminoglycoside antibiotics
    Perez-Fernandez, D. et al. · 2014 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/ncomms4112
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)

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