Zoologia

Cobra-arbórea-marrom em Guam: 10 das 12 aves de floresta eliminadas e até 40 vezes mais teias de aranha

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

A cobra-arbórea-marrom (Boiga irregularis) chegou a Guam por acidente depois da Segunda Guerra Mundial e ocupou a ilha toda no início dos anos 1980. Das 12 aves de floresta da ilha, 10 foram eliminadas e as outras duas ficaram muito reduzidas. Onde as aves sumiram, as teias de aranha chegaram a ser 40 vezes mais densas do que em ilhas vizinhas com aves. É um experimento natural, sem réplica.

A cobra-arbórea-marrom é nativa da Austrália, da Nova Guiné e de ilhas vizinhas; em Guam, no oeste do Pacífico, é espécie introduzida. É uma serpente noturna, esguia e de hábitos arborícolas, que come lagartos, aves, ovos e pequenos mamíferos. "Extirpar" significa eliminar uma espécie de um lugar, sem que ela desapareça do planeta. Os números de aves variam conforme o grupo contado: 12 aves de floresta no total, entre elas 10 insetívoras (que comem insetos e aranhas). Neste artigo, "experimento natural" quer dizer comparar a ilha onde as aves sumiram com ilhas parecidas onde elas continuam, sem que os pesquisadores tenham escolhido onde ou quando soltar a cobra.

A teia que deixou de ter estação

Nas ilhas com aves, as teias eram muito mais comuns na estação seca do que na chuvosa. Em Guam, a diferença quase sumiu: a densidade ficou alta o ano todo. Os autores não sabem se o fator é a chuva ou a presença de aves.

O que a cobra fez com as aves

A cobra-arbórea-marrom chegou a Guam depois da Segunda Guerra e ocupou a ilha inteira até o início dos anos 1980. Uma revisão de pesquisas diz que ela causou ou contribuiu para a perda da maior parte das aves nativas. Segundo a ficha da IUCN, das 12 aves de floresta, 10 foram eliminadas e as outras duas ficaram muito reduzidas. Essa ficha também cita a perda de mais da metade dos lagartos nativos e de dois dos três morcegos nativos.

Como sabemos: um experimento natural entre ilhas

Ninguém contou aranhas em Guam antes da cobra. Rogers e colegas compararam florestas de calcário em Guam com as de Rota, Tinian e Saipan, ilhas a mais de 58 km de distância, onde há aves e onde a cobra não é conhecida. Contaram teias visíveis ao longo de 70 transectos, em 2007 e 2008. O desenho é forte porque cobre a ilha toda por décadas, mas é fraco por não ter réplica: só existe uma Guam, e diferenças entre ilhas além da cobra não podem ser descartadas.

O que se mediu: aranhas, não plantas

Na estação chuvosa, Guam teve 18,37 teias por 10 metros contra 0,45 nas ilhas com aves, uma razão de 1 para 40,8; na seca, 26,19 contra 11,37. O efeito úmido foi 4,6 vezes maior que o maior de uma revisão de experimentos de exclusão de aves. Os autores atribuem o aumento sobretudo ao fim da predação por aves, mas listam outras explicações. O estudo não mediu insetos herbívoros nem plantas, então não mostra uma cascata até a vegetação.

Controle e retorno das aves hoje

Em Guam, a captura com armadilhas com camundongos vivos é a principal técnica, e desde 1993 um programa tenta impedir que a cobra embarque em cargas. Uma isca com paracetamol, que em cobras leva à falta de oxigênio no sangue, foi desenvolvida para suprimi-la em escala maior. Testes aéreos em áreas cercadas funcionaram, mas erradicar a cobra de toda a ilha parece distante. Simulações indicam que aves poderiam voltar sob supressão, num nível ainda não demonstrado.

Como sabemos

Os números de aves e de aranhas vêm de fontes abertas, mas parte do declínio das aves vem de uma ficha de segunda mão e o estudo das aranhas é um experimento natural sem réplica.

Em debate: Os autores do estudo de aranhas dizem que ainda é debatido se a perda de aves leva a uma cascata que atinja a vegetação; experimentos de exclusão mostram resultados inconsistentes, e as aranhas podem amortecer parte do efeito. A ficha da IUCN relata redução da regeneração de plantas por falta de polinizadores, mas não abrimos os estudos originais.

Fontes

  1. PLOS ONE — 'Natural experiment' demonstrates top-down control of spiders by birds on a landscape level
    Rogers, H.; Hille Ris Lambers, J.; Miller, R.; Tewksbury, J. J. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0043446
  2. IUCN SSC Invasive Species Specialist Group — Species profile: Boiga irregularis (brown tree snake), Global Invasive Species Database
    IUCN SSC Invasive Species Specialist Group (ISSG); revisão de G. Perry · 2009 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Ecological Applications — Predation thresholds for reintroduction of native avifauna following suppression of invasive Brown Treesnakes on Guam
    McElderry, R. M.; Paxton, E. H.; Nguyen, A. V.; Siers, S. R. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/eap.2716
  4. Scientific Reports — Lethal methemoglobinemia in the invasive brown treesnake after acetaminophen ingestion
    Mathies, T.; Mauldin, R. E. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-019-56216-1
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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